Faz hoje precisamente 91 anos...
Que o exército do Império Alemão, a 4 de Agosto de 1914, violando as fronteiras da Bélgica neutral, atravessou o Mosa, junto a Liège, para atacar a França, segundo a considerada "versão mais audaciosa" do "Plano Schlieffen". Já muito se escreveu quanto à incapacidade socialista de prevenir ou suster o holocausto (1) e ao mecanismo automático de alianças que se pôs em imparável movimento após o atentado de Serajevo e redundou na fatal Guerra 1914-1918, guerra que poderia verdadeiramente receber, para as décadas sucessivas, o ápodo modernaço de "mãe de todas as guerras"... Tocar-nos-ia também pela porta - e o meu Pai, anos mais tarde, transportado de Valença do Minho para a frente da Flandres, podia certamente dizê-lo.
Mas ainda hoje surpreende o profundo significado que era vivamente sentido quanto a uma das causas desse conflito: a feroz rivalidade franco-alemã, repetida em diversas instãncias e avivada pelo desejo ardente da "révanche" da derrota na guerra franco-prussiana de 1870-1871, que retirara à França as duas longamente choradas províncias da Alsácia e da Lorena. Numa sociedade europeia "bloqueada" e "confrontada", o sentimento iminente da ruptura era bem tipificado pela conclusão do "antes a guerra que esta eterna espera", patente num inquérito à juventude (francesa?) datado de 1913 (2).
Após a "guerra de 70" e a "comuna de Paris", imortalizadas por Zola em "La Débâcle" [A Derrocada] da série dos Rougon-Macquart, a sociedade portuguesa ficara também dividida. E dividida ao ponto de, na que hoje é a "minha cidade", se ter dado, em 1871, a significativa cisão duma colectividade importante, ficando uma das duas resultantes a ser designada até aos dias de hoje como "Os Franceses"! Em muitas estabelecimentos de ensino, mesmo em Portugal, o ensino do francês iria adoptar, como livro auxiliar, o evocador "Le Tour de la France par Deux Enfants" [A Volta à França por Duas Crianças] (3) e o escritor e poeta teatral Acácio Antunes (4), inspirado no conto "La Derniére Classe" [A Última Aula], de Alphonse Daudet, deixar-nos-ia um poema que, em muitos salões de Portugal e do Brasil, seria tão recitado quanto o famoso "O Corvo", de Guerra Junqueiro, e antes fora o "Noivado do Sepulcro", de Soares de Passos, este para fazer corar algumas damas e desmaiar as meninas cloróticas. Reproduz-se hoje aqui (na grafia original) o referido poema de Acácio Antunes:
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O estudante alsaciano
Antigamente, a escola era risonha e franca.
Do velho professor as cans, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham sympathia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como creança em meio das creanças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vae para uma festa. Ao começar o estudo,
Elles, sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviaes, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Attenta, gravemente — uns pequeninos sabios.
Uma phrase a animar aquelle bando imbelle,
Ia ensinando a este, ia emendando áquelle,
De manso, com carinho e paternal amor.
Por fim, tudo mudou. Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os labios lhe abriu a sombra d’um sorriso
E aos pequenos mudou em calabouço a escola
Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francez é lingua morta e muda:
Unicamente o allemão ali se falla e estuda,
São allemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsacia é allemã; o povo é alemão.
Como na propria patria é triste ser proscripto!
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os labios lhe abriu a sombra d’um sorriso
E aos pequenos mudou em calabouço a escola
Pobres aves, sem dó metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francez é lingua morta e muda:
Unicamente o allemão ali se falla e estuda,
São allemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsacia é allemã; o povo é alemão.
Como na propria patria é triste ser proscripto!
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Frequentava tambem a escola um rapazito
De severo perfil, energico, expressivo,
Pallido, magro, o olhar intelligente e vivo
— Mas de intima tristeza aquelle olhar velado
Modesto no trajar, de lucto carregado...
— Pela patria talvez! — Doze annos só teria.
O mestre, d’uma vez, chamou-o á geographia:
— "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de lucto?
Quem te morreu?"
— "Meu pae, no último reduto,
Em defeza da patria!"
— "Ah! sim, bem sei, adeante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
Quaes são as principaes nações da Europa? Vá!"
— "As principaes nações são... a França..."
— "Hein? que é lá?...
Com que então, a primeira a França! Bom começo!
De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquella que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes concepções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas lettras e nas artes,
Que leva o seu domínio ás mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
D’onde irradia a sciencia a illuminar a terra,
A maior, a mais bella, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Allemanha!"
Elle sorriu com ar desprezador e altivo,
A cabeça agitou n’um gesto negativo,
E tornou com voz firme:
— "A França é a primeira!"
O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé, e uma praga energica lhe escapa.
— "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mappa!"
O alumno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e emquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquelle destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e commovido,
Timido feito heróe, pygmeu tornado athleta,
Desaperta, febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impavida, a creança
Exclama:
— "É aqui dentro! aqui é que está a França!"
Frequentava tambem a escola um rapazito
De severo perfil, energico, expressivo,
Pallido, magro, o olhar intelligente e vivo
— Mas de intima tristeza aquelle olhar velado
Modesto no trajar, de lucto carregado...
— Pela patria talvez! — Doze annos só teria.
O mestre, d’uma vez, chamou-o á geographia:
— "Dize-me cá, rapaz... Que é isso? estás de lucto?
Quem te morreu?"
— "Meu pae, no último reduto,
Em defeza da patria!"
— "Ah! sim, bem sei, adeante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante.
Quaes são as principaes nações da Europa? Vá!"
— "As principaes nações são... a França..."
— "Hein? que é lá?...
Com que então, a primeira a França! Bom começo!
De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquella que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes concepções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas lettras e nas artes,
Que leva o seu domínio ás mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
D’onde irradia a sciencia a illuminar a terra,
A maior, a mais bella, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Allemanha!"
Elle sorriu com ar desprezador e altivo,
A cabeça agitou n’um gesto negativo,
E tornou com voz firme:
— "A França é a primeira!"
O mestre, furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé, e uma praga energica lhe escapa.
— "Sabes onde está a França? Aponta-m’a no mappa!"
O alumno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e emquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquelle destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e commovido,
Timido feito heróe, pygmeu tornado athleta,
Desaperta, febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impavida, a creança
Exclama:
— "É aqui dentro! aqui é que está a França!"
ALGUMAS ANOTAÇÕES:
(1) Não se podem deixar de recordar, a propósito e entre outros, o último volume de "Os Thibault" de Roger Martin du Gard, e "Os Sinos de Basileia", de Aragon. Certamente que o assassínio de Jaurès terá contribuído, mas apenas em parte, para esta situação.
(2) Citado em Marc Ferro, "História da Primeira Guerra Mundial 1914 - 1918", Edições 70, Lisboa, 1992, pag.19.
(3) "Este manual é, sem dúvida, um exemplo do livro de culto da escola na [III] República [Francesa]. Escrito pela Senhora Augustine Fouillée sob o pseudónimo de G. Bruno - numa alusão a Giordano Bruno, queimado pela Igreja como herege, em 1600 - , sobrevive à transição do século XIX para o XX e amplifica o ensino da geografia, dotando-o com uma dimensão moral: dois órfãos partem de Phalsbourg, numa Lorena que passara a ser alemã, e percorrem as províncias da França, à procura de um tio. Este [aparentemente] vulgar livro de leitura é colocado no mercado em 1877 pela editora Eugène Belin, ultrapassa o nível dos 6 milhões de exemplares em 1901 e terá quatrocentas e onze edições de 1877 a 1960. Durante mais de cem anos, este livro vai difundir, em todos os lares, as características dominantes do ensino republicano, traduzidas numa moral laica impregnada de sólidos valores burgueses, tais como a ordem, o sentido do dever, a poupança, a estrita submissão às hierarquias sociais "naturais" e, sobretudo, o gosto por um trabalho conscienciosamente exercido. O seu papel na história da educação popular em França é enorme, justificando que uma edição fac-similada tenha sido agora editada, para delícia dos nostálgicos do passado."
(4) "Acácio Antunes nasceu em 1853, na Figueira da Foz e faleceu em Lisboa em 1927. A partir de 1880 consagrou-se a fazer adaptações de óperas cómicas, operetas, zarzuelas e "vaudevilles" de proveniência francesa, austro-húngara e espanhola, embora "O Cinemathógrapho" tivesse sido vertido livremente do italiano. Apesar deste trabalho de tradução e adaptações de peças estrangeiras, Acácio Antunes assinou algumas obras originais, como as comédias "Às Onze e Meia", em três actos, representada no Teatro do Ginásio em 1880, e várias vezes reposta em cena, e "O Marido de Minha Mulher", em um acto, escrita em 1917. A comédia em três actos "O Cinemathógrapho" [...] foi igualmente publicada em 1917, em Lisboa, pela Livraria e Papelaria Portugueza de Ferreira Franco, então a edição que mais teatro publicava na nóvel República. Acácio Antunes é, pois, um desses autores que, juntamente com Baptista Machado (O Caçador de Fortunas) e Carlos Borges (Um Conselho à Moda Antiga), trabalhou para o Teatro do Ginásio, a "meca" do teatro ligeiro e da comédia de costumes, no Portugal de Eça de Queirós e do Conselheiro Acácio. [...]".
Biografia recolhida de http://alfarrabio.di.uminho.pt/~brgcultural/fevereiro2000/

1 Comments:
Excelente poema! Mais uma coisa que me dá a conhecer!
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