segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Alfredo da Silva (1871-1942)








Busto de Alfredo da Silva que está actualmente junto dos escritórios do A.P. - Fábrica do Lavradio [1]

Em tempos (postagem de 15 de Julho de 2007) escrevi aqui sobre a figura de D.Pedro Duro, o "patrão" da Sociedade Duro-Felguera, que foi um exemplo da industrialização asturiana e a quem muito brevemente me voltarei a referir. Cabe entretanto notar que, com a aproximação da fase culminante do centenário das fábricas da CUF no Barreiro e com o "empurrão" dado ao futuro desta terra pela almejada ponte até Chelas, aumentará certamente (e tanto em tons positivos como negativos) o interesse pela figura de Alfredo da Silva, o industrial português que em 1907-1908 fez construir aquelas fábricas (que "pingaram" pela primeira vez a 19 de Setembro de 1908) e que em 1906, nas suas fábricas de Lisboa, adoptou e justificou à luz das suas razões, que não escondeu, várias medidas de paternalismo industrial - pronto extensivas às fábricas do Barreiro, quando estabelecidas - que foram entre nós pioneiras e que sempre se apresentarão como controversas num quadro de discussão que não é, de forma alguma, uma especificidade do Barreiro [2].

Para recolher uma "visão externa" do grande industrial - atributo esse que, pese aos detractores, é inegável e que o manterá na história deste País - e conhecida a perspicácia dos representantes diplomáticos em geral e dos britânicos em particular quando retratam personagens ou eventos salientes nos países em que são acreditados, cabe recordar aqui a comunicação com que o Embaixador de Sua Magestade Britânica, R. Campbell relatava ao seu Governo, em 1942, a morte de Alfredo da Silva. Escrita no contexto e exumada recentemente dos arquivos do Foreign Office (Anthony Eden era o destinatário), este documento é dado a conhecer a pags. 269 e 270 da obra de Miguel Figueira de Faria "Alfredo da Silva - Biografia" editada pela Bertrand em 2004 e hoje praticamente esgotada, de onde se retira e seguidamente reproduz, com a devida vénia:

“Tenho a honra de reportar que a indústria portuguesa perdeu a sua figura mais proeminente, com a morte, a 22 de Agosto, aos setenta e um anos, do Senhor Alfredo da Silva. Este notável e veterano milionário, era um verdadeiro self-made man, destacando-se tanto dos seus concorrentes como o Dr. Salazar de qualquer outro político português. Ao longo de uma extensa carreira dedicada quase exclusivamente à actividade empresarial, logrou adquirir o controlo de uma extensa rede de empresas, começando pela Companhia União Fabril, que fabrica produtos químicos pesados, navios, óleos alimentares, sabões, tecido e sacos de juta. Os seus múltiplos interesses incluíam a indústria naval, finanças, imobiliária, a lucrativa companhia de tabacos “A Tabaqueira” e o cinema Éden em Lisboa. Detinha ainda o monopólio dos produtos da Guiné portuguesa, especialmente palmitos e amendoins.

Espécimen perfeito do capitalista pujante, obstinado e contundente, o Senhor da Silva era dotado de um sentido prático muito apurado, e de um dinamismo que lhe permitiu exercer uma influência considerável sobre o Dr. Salazar, que ocasionalmente utilizava as suas fábricas para a implementação de ordens governamentais e lhe pedia ajuda na realização de transacções comerciais em nome do Estado. Paralelamente à gestão das suas empresas em conformidade com os regulamentos oficiais, o Senhor Silva impunha, frequentemente, a sua própria lei. Apesar de se ressentirem dos insultos de que eram alvo por parte de Alfredo da Silva, que os proferia na presença de todos c de quem o quisesse ouvir, os membros do Governo temiam este rude individualista para quem os serviços prestados e o tempo despendido lhe garantiam o direito exclusivo e ilimitado de criticar o Estado em todas as suas formas.

Os obituários nos jornais principais descrevem-no como um grande benfeitor a quem milhares de portugueses devem o seu sustento. De certa forma é verdade, apesar de no início Silva ser claramente despótico na forma como lidava com as contestações laborais, e por mais de uma vez ter escapado, por um triz de ser assassinado por funcionários descontentes. Mas é inegável que era o capitão da indústria portuguesa e que ultrapassava as deficiências burocráticas do sistema corporativo.

Morreu sem fazer testamento. A sua única filha e herdeira da sua imensa fortuna tem por marido uma figura discreta, o senhor Mello, de quem se diz ser uma pessoa muito trabalhadora e de bem, mas a quem faltam as qualidade, empresariais excepcionais do seu formidável sogro.

Do nosso ponto de vista, a sua perda é de lamentar já que, desde há muito, Silva terá previsto friamente ser a nossa vitória [na Segunda Grande Guerra] a que melhor serviria os seus interesses. Os meus funcionários da secção económica irão sentir a falta das visitas frequentes à Embaixada deste rufião pitoresco [“picturesque ruffian”] que, se por um lado estava sempre disposto a partilhar informações, por outro nunca deixava de vociferar contra a incapacidade dos nossos serviços do bloqueio em lhe concederem os favores de excepção de que se sentia merecedor.

R. Campbell

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[1] Este busto, datado de 1939 e da autoria do escultor Maximiano Alves (1889-1954) será, a nosso conhecimento, o único realizado em vida de Alfredo da Silva. Teve várias localizações: no "claustro" do Posto Médico, frente à sede do Grupo Desportivo da CUF, no Bairro Velho, de onde foi transferido para a sua localização actual em 1973 por motivo do rearranjo viário daquela zona. Um "mito urbano barreirense" refere que essa transferência teria tido lugar após Abril de 1974: tal não é verdade, como se pode comprovar por um Boletim Informação Interna da CUF de 1973. Uma cópia em gesso deste busto, cujo paradeiro se desconhece, terá estado na Escola da CUF, a julgar por uma fotografia de época.
[2] Só para referir o contexto asturiano, registam-se duas obras recentes e de muito interesse: "La escuela del paternalismo industrial asturiano 1880-1936", de Maria Violeta Álvarez Fernandez, Ediciones Trea, 2006, Xixón (Gijón) e "Del pozo a casa: Genealogias del paternalismo minero contemporaneo en Asturias", de Jorge Muñiz Sánchez, da mesma editora, em 2007.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Fiquei deveras estupefacta e muito lisonjeada ao ver a reportagem na RTP sobre esse grande vulto do nosso país Alfredo da Silva, homem que contrastou em todos os campos com os da sua época.Fiquei colada ao ecran durante toda a emissão.É pena haver em todo o lado e desde sempre aqueles que reclamam reclamem sem serem capazes de olhar ao bem que fazem aos seus e a si próprio. Uma sensação agradável e de elogiar ao longo da reportagem foi ver as crianças dos operários felizes e saudáveis.O melhor que podem dar aos país é estes saberem que os seus filhos estão bem. quanto a mim acho que há pessoas que nunca deveriam morrer.

4 de Outubro de 2008 23:40  

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