domingo, 6 de Abril de 2008

Das discussões sobre o atomismo e de algumas das suas consequências em termos de Indústria Quimica

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Numa das minhas andanças pelos alfarrabistas de Lisboa descobri, em tempos, um livro muito curioso epigrafado "L'Année Scientifique et Industrielle ou Exposé Annuel des Travaux Scientifiques, des Inventions et des Principales Applications de la Science à l'Industrie et aux Arts, Qui Ont Attiré l'Attention Publique en France et à L'Étranger - Accompagné d'Une Nécrologie Scientifique" [delicioso este apropriadamente designável como derradeiro pormenor] referente ao ano de 1877 donde datado de 1878, tendo como autor Louis Figuier e editor a conhecida Livraria Hachette, de Paris. Mais nos diz a capa que este científico registo ia então na sua 21ª publicação anual, ou seja que - em princípio e se sem interrupções - teria começado a publicar-se em 1858 - portanto há 150 anos - i.e. sobre os progressos, invenções e descobertas ocorridos no ano de 1857.

Extraodinário almanaque, denso e sem gravuras, salvo as duas referentes à experiência telefónica de Graham Bell, que acima se reproduzem! Mas o mais curioso é, sem dúvida, o primeiro artigo do extenso capítulo dedicado à Química e que, da pag. 162 à pag. 165 se reporta à "Discussão na Academia das Ciências [de França] Sobre a Teoria dos Equivalentes - pelos Senhores Sainte-Claire Deville, Wurtz e Berthelot" - dando manifesta vantagem à visão de Berthelot e Sainte-Claire Deville contra a teoria atómica defendida, então e desde há cerca de 20 anos, por Wurtz, entre outros.

Traz este artigo à baila um assunto que geralmente não é aprofundado no ensino actual da Química e que é o debate aberto, no final do sec. XIX, entre "atomistas" e "equivalentistas" e que levara inclusive ao denominado Congresso de Karlsruhe (Setembro de 1860), convocado expressamente para tentar uma unificação relativamente a conceitos químicos e que seria seguido por uma série de outras reuniões e eventos até ao fim do sec. XIX. Sem aprofundar o assunto, que é vasto e surpreendente (como será vasta e surpreendente a "reacção filosófica" à radioactividade, poucos anos mais tarde), apontar-se-ão, como algumas das suas importantes consequências, uma reserva dos "equivalentistas"quanto à isomeria em Química Orgânica, uma difícil percepção por estes das fórmulas de estrutura e o afastamento da teoria atómica (muito embora mais tarde admitida como "hipótese atómica") até aos anos 30 do sec. XX nos livros franceses do ensino de Química (inclusive ditada para a educação nacional por Berthelot quando ministro). Há quem encontre aqui a dramática "bifurcação" entre uma escola química alemã, mais activamente voltada para a síntese em Química Orgânica (e que encontraria reflexos em Inglaterrra) e uma escola química francesa, com fortes vertentes no campo da Química Mineral e da Química dos Produtos Naturais (Berthelot).

Se esse distanciamento pode ter assim influenciado o estabelecimento de distintos perfis da Indústria Química na Europa Central, a situação teve certamente tradução na Península e mais abertamente em Portugal, por diversas razões mais próximo das orientações dominantes na Química francesa. Agrava o quadro português a clara preferência manifestada pelo que se poderia chamar a "escola da Análise Química" que, naturalmente próxima da Química Mineral, sempre se mostrou activa nas Universidades de Lisboa e Porto. ao ponto de nos anos 1950-60 ainda dominar as práticas laboratoriais dos anos intermédios dos cursos de Engenharia Química-Industrial. Para além da razão de fundo atrás exposta, militavam para tal outras razões mais imediatas ou utilitárias: a) a regência de cursos por figuras gradas da Química Analítica; b) a economia relativa de instalações e equipamentos, já que as práticas de análise essencialmente se situavam em trabalhos de bancada simples, face á inexistência de pilotos de tipo industrial geralmente mais exigentes e onerosos e envolvendo técnicas de catálise e de alta-pressão; c) a relativa economia em termos de reagentes, sujeita à mesma leitura da alínea anterior; d) a fraca relação (crónica) entre universidade e indústria e o raríssimo regresso (com honrosas excepções contáveis) às cátedras universitárias químicas de experiências industriais vividas; e e) a maior lucratividade de um labor analítico, que detem a possibilidade de realizar trabalhos e perícias para o exterior nessa especialidade.

Este quadro complexo, aliado quer à tremente introdução dos processos de catálise e de alta pressão, só realizada entre nós (com excepção limitada bo campo da indústria petrolífera) praticamente no termo da 1ª metade do sec. XX, quer a uma confusão sobre a ideia de Química Orgânica Industrial (um dos maiores complexos industriais do País designava como "Química Orgânica" a sua área industrial de extracção de óleos de origem vegetal [1]), quer ainda à "morte in utero" da obtenção de produtos intermédios a partir do petróleo, nomeadamente em Sines [2], determinou um défice estrutural na Indústria Química Portuguesa que levou (e leva) tempo a colmatar [3]. Evidente é. porém, que onde esse défice se veio a atenuar a favor de uma activa integração vertical (vg. Estarreja), o sucesso acabou por existir.
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[1] Um curioso exemplo, bem conhecido do bloguista foi quando, a um jovem que solicitava um tema no campo da Química Orgânica Industrial ("apud" Groggins) foi proposto a então na berra ... "Separação do nióbio do tântalo usando a MIBK (metilisobutil cetona)". O pretendido componente orgânico... estaria, pois, na metilisobutil cetona!
[2] Foram criadas em Portugal instalações industriais modernas e interessantes que poderiam ter recebido como matérias-primas produtos químicos que, previstos para as produções a juzante, em Sines, nunca aí passaram da fase do papel. E as unidades que foram construídas tornaram-se órfãos e inevitavelmente dependentes. Mas há, em campos diversos, idênticas desarticulações nacionais. RIP (com vénia para as escassas sobreviventes)!
[3] Um pretenso provérbio indiano aplicado às realidades industriais (e políticas) diz que "não há elefantes brancos sem cornacas".
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