Regresso a La Felguera, ou 50 anos depois: 1 - a Vila-Cidade
La Felguera, Langreo, Astúrias - onde estagiei no verão de 1958. Então terra industrial por excelência, viva, animada, próxima da bacia ("cuenca") mineira, mas essencialmente metalúrgica, siderúrgica, industrial-química. A noite, no vale do Nalón, iluminava-se com as sangrias de escória e metal dos altos-fornos da Duro-Felguera e na hora "del paseo" o parque enchia-se de gente, sob a estátua solene do fundador, D.Pedro Duro - já diversas vezes aqui falado.
Cinquenta anos depois, como noutras terras que conheço, como noutros centros industriais que visitei, a indústria quase desapareceu - ainda que restem actividades industriais significativas e que permaneça viva a pluma em escassas chaminés fumegantes - para meu encanto e certamente irritação de alguns verdes-brancos e verdes-tintos que, lá como cá, também os há, tantas vezes assobiando para o ar quando os "Impérios" se mantém impavidamente "Kietos quanto a Kiotos". "É só vapor de água, claro que é só vapor de água" - e vapores de água, como chapéus, há muitos. A produção reduziu-se, reduziu-se a riqueza e em todos os sítios se ouve dizer o mesmo: não se atentou a tempo para substituir as indústrias cessantes por actividades novas e empregadoras, como se se olhasse para uma pretensa recuperabilidade, na sua forma, desse passado não longínquo e se não entendesse a mudança do mundo que tanto afectou centros industriais como inclusive regimes políticos que, vistas bem as coisas, duraram ainda menos que os complexos fabris. Não é verdade, Putilov? [1]
Amigos, foram-se. Uns, cinquenta anos volvidos, foram-se mesmo de vez. Outros, que dão nomes a ruas, nem vale a pena por eles perguntar, pois que certamente se juntaram aos anteriores. Outros ainda mudaram-se, com a deslocalização das empresas. Finalmente outros, já ninguém os conhece.
Persiste, alindada e feliz, a moradia que era a residência do Director da Fábrica, então D. Luís Menendez Garcia de Artmendi, frente às ruínas da SIN - hoje certamente vendida a um novo possuidor, que terá gasto algumas pesetas na sua excelente recuperação.
50 anos passaram. Ruiram indústrias e regimes. Lá e aqui e mais além. Porque "todo o mundo é composto de mudança".
O cimo da torre de arrefecimento da que foi Duro-Felguera, que hoje alberga o MUSI, está pintado em cores vivas. Este tronco de cone, que em projecção dá uma banda polícroma, originou o logotipo actual da vila-cidade, dando-lhe cor e um toque de alegria. Ao menos isso.
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[1] Há quem procure encontrar uma explicação comum para ambos os fenómenos. Se, em termos "macro", a globalização (e o que é a "globalização"?) é sistematicamente apontada como uma das causas para uma desindustrialização de carácter epidémico, não parece razoável desprezar a procura de uma resposta a nível do agente, i.e. do que eu, que sou avesso a terminologia anglosaxónica mas que a emprego, quando não encontro equivalente, referiria como "ao nível do shop-floor". As relações de produção viveram experiências diversas e absorveram, num processo de aprendizagem social, diversas revoluções históricas. É justo questionar se não estaremos, actualmente, no âmago (mal entendido ainda) de uma nova e profunda revolução e que as leituras anteriores tenham de ser revistas e adaptadas às novas realidades. Existirão certamente análises nesse sentido, mas não deixarei de citar uma tese resultante de um exercício de reflexão, que me parece sincero e que mereceria ser mais profundamente apreciado e debatido, na obra "Do Capitalismo para o Digitalismo", de Fernando Penim Redondo e Maria Rosa Redondo, ed. Campo das Letras, Porto, 2003. Não é tema pacífico - e a demonstração disso encontra-se na venda, por tuta e meia, do livrinho que contém a referida proposta, disponibilizado como "fundo de edição" em improvisadas "feiras do livro" de estações do "metro".
[2] Mais recente e (para já) menos rico que o "Museo de la Mineria y de la Indústria (MUMI)", instalado no vizinho concelho de El Entrego, este Museu revela a vontade felguerina de fazer persistir a memória da industrialização do vale do Nalón. Persiste aceso na comunidade o sentimento que a desmobilização industrial de La Felguera começou bastante cedo, com a "facada nas costas" que foi a deslocação da actividade siderúrgica para o gigantesco polo de Avilês, da ENSIDESA (este também vítima de redução pelo mesmo processo) e prosseguiu seguidamente com o consequente fecho das fábricas de amoníaco e adubos de Vega (a mais antiga de Espanha, tendo como matéria prima o gás de coqueria) e seguidamente de Barros (com gasificação em gasogénios Power-Gas) e o fecho de minas da HUNOSA. Como se mostrará na 2ª postagem referente a La Felguera, e como se mostra nas pichagens acima representadas, permanece "azedo" o sentimento da colectividade por todo o processo sofrido.
Se os terrenos da Duro-Felguera, outrora protegidos por um alto muro, se abriram a parque empresarial (vd. foto acima... e onde é que eu já ouvi isto? ), se uma parte substancial da cidade propiciou novas realizações imobiliárias, incluindo um hotel modernaço com todos os luxos e "spa", se a grande torre de arrefecimento local serviu, na sua base, para acolher um recém-criado museu da Siderurgia (MUSI, lhe chamam [2]), o equipamento industrial pesado do complexo fabril - com excepção da central eléctrica, da fábrica da Bayer que produz aspirina para tirar todas as dores de cabeça de Espanha, e de diversas oficinas metalomecânicas de dimensão considerável - já não existe. Assim não existe a SIN - Sociedade Ibérica del Nitrógeno, na estrada de Barros, ao longo da qual se notam estabelecimentos encerrados, casas entaipadas, edifícios industriais e administrativos da SIN (incluindo a residência, onde pernoitava o artista quando jovem, vd. segunda foto infra)
como ruínas mal vedadas propícias a cenário de filme de terror - deixando um vasto espaço ainda por tratar, designado no mapa como "Área em Desenvolvimento - Langreo Norte".Amigos, foram-se. Uns, cinquenta anos volvidos, foram-se mesmo de vez. Outros, que dão nomes a ruas, nem vale a pena por eles perguntar, pois que certamente se juntaram aos anteriores. Outros ainda mudaram-se, com a deslocalização das empresas. Finalmente outros, já ninguém os conhece.
Persiste, alindada e feliz, a moradia que era a residência do Director da Fábrica, então D. Luís Menendez Garcia de Artmendi, frente às ruínas da SIN - hoje certamente vendida a um novo possuidor, que terá gasto algumas pesetas na sua excelente recuperação.
50 anos passaram. Ruiram indústrias e regimes. Lá e aqui e mais além. Porque "todo o mundo é composto de mudança".
O cimo da torre de arrefecimento da que foi Duro-Felguera, que hoje alberga o MUSI, está pintado em cores vivas. Este tronco de cone, que em projecção dá uma banda polícroma, originou o logotipo actual da vila-cidade, dando-lhe cor e um toque de alegria. Ao menos isso.
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[1] Há quem procure encontrar uma explicação comum para ambos os fenómenos. Se, em termos "macro", a globalização (e o que é a "globalização"?) é sistematicamente apontada como uma das causas para uma desindustrialização de carácter epidémico, não parece razoável desprezar a procura de uma resposta a nível do agente, i.e. do que eu, que sou avesso a terminologia anglosaxónica mas que a emprego, quando não encontro equivalente, referiria como "ao nível do shop-floor". As relações de produção viveram experiências diversas e absorveram, num processo de aprendizagem social, diversas revoluções históricas. É justo questionar se não estaremos, actualmente, no âmago (mal entendido ainda) de uma nova e profunda revolução e que as leituras anteriores tenham de ser revistas e adaptadas às novas realidades. Existirão certamente análises nesse sentido, mas não deixarei de citar uma tese resultante de um exercício de reflexão, que me parece sincero e que mereceria ser mais profundamente apreciado e debatido, na obra "Do Capitalismo para o Digitalismo", de Fernando Penim Redondo e Maria Rosa Redondo, ed. Campo das Letras, Porto, 2003. Não é tema pacífico - e a demonstração disso encontra-se na venda, por tuta e meia, do livrinho que contém a referida proposta, disponibilizado como "fundo de edição" em improvisadas "feiras do livro" de estações do "metro".
[2] Mais recente e (para já) menos rico que o "Museo de la Mineria y de la Indústria (MUMI)", instalado no vizinho concelho de El Entrego, este Museu revela a vontade felguerina de fazer persistir a memória da industrialização do vale do Nalón. Persiste aceso na comunidade o sentimento que a desmobilização industrial de La Felguera começou bastante cedo, com a "facada nas costas" que foi a deslocação da actividade siderúrgica para o gigantesco polo de Avilês, da ENSIDESA (este também vítima de redução pelo mesmo processo) e prosseguiu seguidamente com o consequente fecho das fábricas de amoníaco e adubos de Vega (a mais antiga de Espanha, tendo como matéria prima o gás de coqueria) e seguidamente de Barros (com gasificação em gasogénios Power-Gas) e o fecho de minas da HUNOSA. Como se mostrará na 2ª postagem referente a La Felguera, e como se mostra nas pichagens acima representadas, permanece "azedo" o sentimento da colectividade por todo o processo sofrido.





2 Comments:
Caro LdS,
cheguei aqui através de uma busca no Google e verifiquei que fez uma simpática referência ao nosso livro "Do Capitalismo para o Digitalismo".
Realmente não é fácil promover uma discussão que ponha em causa as cómodas ideias feitas e que, ainda por cima, não tenha utilidade prática aparente.
Longa e auspiciosa vida para o seu "Sai-te daqui".
Vou colocar um link no meu "dotecome.blogspot.com".
Estimado Visitante e também Bloguista em portal que anotei:
Agradeço a sua visita. Encontrei o vosso livro e tenho-o indicado a diversos amigos exactamente como o vejo: uma sincera busca da explicação da realidade que sucessivamente nos afecta. Nesse sentido e na coragem de por preto no branco essa interpretação, que em grande parte acompanho, envio-vos um abraço. E se esta nota, além disso (que já é por si valor suficiente) mais alguma coisa puder acrescentar é de, certamente, que vos leiam. E que, lendo-vos, pensem um bocadinho nos exemplos que cada dia nos traz. LdS
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