sexta-feira, 6 de julho de 2018

RISCOS DE UM ALTO BACKUP EM NUVENS BAIXAS...



Caros Amigos, Colegas e Leitores... 

Não é minha postura vir para a “néte” carpir máguas, mas o que se passou - resultado em grande parte  da minha ignorância e ingenuidade informática, ainda que compartilhando estes atributos com uma diminuta divulgação pública em letras pequeninas ou  grandes – merece ser referido. Por isso e porque  constato desde o “desastre” que causas e consequências são ainda ignoradas por muitos incautos quanto eu, escrevo este AVISO À NAVEGAÇÃO e, complementarmente, solicito-vos a divulgarem-no a quem reconheçam poder interessar e prevenir.

O “DESASTRE”

Desde o primeiro decénio deste século XXI, num dos "aquilos" que informaticamente se vem designando por “nuvem” [cloud].  e em utilização PAGA, coloquei o conjunto dos meus ficheiros mais críticos, incluindo trabalhos académicos, documentos pessoais, memorabilia familiar, etc. etc. etc. pensando conxtituir, nesse "aquilo", como backup,  uma “reserva segura” e confiável. Tive lá, inclusive – e hoje arrepio-me por isso – todo o meu mestrado desde a fase de urdidura até ´a conclusão e à preparação da respetiva publicação como livro. Prosseguia agora o seu uso para a construção de um possível doutoramento, a guarda de alguns outros trabalhos menores e a acumulação sucessiva de mais informações ou participações úteis, incluindo e-livros comprados, teses e outras pastas volumosas. Nunca me deu razões de aqlarme ou de queixa até à tarde do dia  27 de Junho último. 

Nesse momento constatei o fragoroso colapso do que pensava ter encerrado numa cidadela inexpugnável quando, ao tentar colocar “lá” um novo trabalho, verifiquei que muitos dos meus ficheiros ou tinham desaparecido, ou tinham sido meio apagados, com texto truncado e total ou  parcialmente substituído, aqui e além (mantendo ou não o título),  por extensões maiores ou menores de uma grafia  asiática que eu presumo seja chinesa. As datas da intervenção (ou intervenções) dos intrusores encontrava-se em alguns dos ficheiros que parcialmente  apagaram ou modificaram.  Em suma: assim se perdeu, num dia de maio, quase todo a obra recolhida ou elaborada em mais de uma década, e digo "quase" já que alguns ficheiros aparentemente incólumes têm de ser passados a pente fino, para verificar se existem truncatuturas ou substituições pontuais escondidas. A própria extensão do dano vai sendo conhecida pouco a pouco, mas é muito grande. 

Não há que chorar sobre o leite derramado, sobretudo quando isso resulte de erro, ignorância ou negligência própria. Mas há que avisar os outros para que tal não lhes suceda. No resto, cerrar os dentes e... adiante.
A TENTATIVA REMEDIAL

Os contactos entretanto estabelecidos com o “dono da nuvem”, em busca de uma reserva segura  (backup) que lá pudesse existir,  esbarraram em dois obstáculos imediatos: esse backup existe mas não é para todos [1] e só cobre uma janela temporal limitada no tempo a partir da  data da intrusão e não da data da descoberta da malandrice, o que – como se explicará adiante – exige uma frequente verificação do acontecimento anomal POR PARTE DO UTENTE, obrigando a denunciar desaparecimentos e alterações de ficheiros “o mais possível em cima do acontecimento”, nomeadamente denunciados por modificaões em datas e dimensões de ficheiros. De facto os nomes dos próprios ficheiros só por eles não chegam para isso (a menos dos casos de efetivo desaparecimento) pois se a lesão for feita (por acção ou acidente) no conteúdo, mas  mantendo os títulos, será difícil descobri-la - porque os nomes dos ficheiros alterados se mantém inalterados nas referidas listagens. Aí há que estar atento às ALTERAÇÕES injustificadas  das caraterísticas dos ficheiros (datas e dimensões) ou das pastas que os contenham ou do próprio todo armazenado - o que obriga a um registo de estado e a uma rotina frequente. Na ausência de qualquer denúncia de alteração por parte da nuvem, denúncia essa que poderia assumir a forma das informações de alteração de password, cabe ao utente este exercício.

Avisado o "dono da nuvem" da anormalidade sucedida, este pede normalmente três coisas: (a) uma descrição tão completa desta; (b) a informação da data   e denominação  da primeira alteração verificada; (c) a identificação dos ficheiros ou pastas alterados desde aí, com remessa sempre que possível,  de screenshots de alterações constatadas. Estas informações demoram algo tempo a ser produzidas por parte do frequentemente ainda atarantado utente, pelo que, seguindo uma prática hoje corrente em atendimentos automáticos este pode receber uma e-mensagem que lhe diz que, não tendo ainda sido dada resposta aos pedidos anteriores, lhe é dado um curtíssimo numero de dias para responder e que, não o fazendo, a queixa será arquivada, podendo no entanto ser reaberta a qualquer altura.   

O assunto segue então a tramitação que o contrato aderido ou negociado especifique... 

Muito de direito contratual informático existe aqui para abrir e desenvolver, começando mesmo com a terminologia pouco consistente que se defronta hoje  de língua para língua e até na mesma língua, pelo que estas situações podem ter variantes e se aconselha a revisão  cuidada dos contratos e das alternativas constantes ou opções mesmo técnicas tomadas pelos utentes no ato de adesão inicial (abertura de conta) ou de modificações posteriores. Estas opções técnicas, com consequências que o aderente novato poderá ainda não alcançar e que se mostrem tão simples quanto "clickar  em quadradinho" ou ato similar podem alterar dramaticamente a destinação de todo o material informático colocado na núvem, e até no disco duro do equipamento de origem  como já em 2014 se descrevia, em termos de sincronização, na postagem  do blogue “Aberto até de madrugada” que muito se aconselha a seguir pela âncora  [link] que aqui vai e que só lamento não ter lido antes de suceder o “meu caso”. Veja-se e medite-se  tanto  no texto da postagem como  nos dois comentários a esta  sucessivos:


Um outra questão que poderá interessar desenvolver algures  é conhecer quem faz isto e por quê. Embora o assunto leve a curiosas perspetivas desde motivações objetivas, criminosas ou não assumidas  como tais [2],  ou a comportamentos individuais que  raiam a necessidade de assistência psiquiátrica, não é o que estamos a discutir aqui. Limitamo-nos a desenvover, por infeliz experiência, o que já tinha sido denunciado em 2014. Consideremos sempre a vulnerabilidade que coletivamente aceitamos e em que caímos ao colocar, sem contrapartidas, todos os ovos num mesmo cesto e ao "entrarmos" alegremente em situações praticamente sem alternativas e ao alcance de qualquer poder "interruptor" debilmente regulado que ele seja ou, sobre tudo, tão desregulado quanto ele possa ser.

REMATANDO O QUE JÁ VAI LONGO…

É por isso que se faz este AVISO, para que se possam evitar ou atenuar acidentes no que toca a constituir reservas de segurança i.e. backups e se avaliem,  quanto a isso, modalidades, riscos, alternativas e encargos.Passem-no a quem  (ainda) tal não conheça. 

UM COMPLEMENTO (em 2018JUL20)
Muito cuidado com o estabelecimento ou o encerramento de sincronias sem antes estar bem esclarecido quanto aos efeitos  desses atos sobre ficheiros ou pastas existentes em AMBOS os equipamentos relacionados, sejam esses ficheiros ou pastas  pre-sincrónicos, sincrónicos  ou mesmo pós-sinceónicos.


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[1] Dependendo do contrato existente com a "nuvem" e seu dono, seja por negociação ou adesão a clausulados gerais, podem ficar excluídas dessa proteção, mesmo efémera, diversas qualidades de utilização,  como  ofertas de capacidade gratuita ou outras.. Daqui a importância de conhecer os textos contratuais mesmo quando exista simples adesão por click a páginas de"letras pequeninas ou grandes". Aliás sobre riscos de simples adesão a condições técnicas (e não apenas comerciais) d depósitos em núvens  ver mais no texto supra. No "meu caso" havia acesso anual e regularmente pago.

[2] Sobre esta não assunção atenda-se à peça contida no espaço Economia|3

segunda-feira, 18 de junho de 2018

E PORQUE AQUI FALÁMOS DO PASSADO... E DE COMBOIOS!

E  porque aqui falámos do passado e de comboios (tenho-me divertido muito nestas viagens inclusive por linhas que não existem... e só lamento ter começado tão tarde, especialmente por estas?) que me poderão dizer da linha da margem esquerda do Douro e que, saindo de Gaia, deveria ir até Sobrado de Paiva e, a partir das proximidades de Crestuma, "mandar" um ramal para a Feira, a passar pelas Termas de S.Jorge? Adicionada ao plano ferroviário em bitola reduzida, como referia o Diário do Governo nº 230 de 12 de outubro  de 1908 (pagª 3110), teve aprovação muito rápida para a construção poder iniciar-se, recebendo um detalhado alvará régio... só que, com tanta velocidade, teve um descarrilamento burocrático e - como muitas outras - ...não andou! Quem quiser mexer no bicho adormecido, de via reduzida que fosse, visite as páginas 3372 a 3374 do Diário do Governo nº 253  de 7 de novembro de 1908, onde se encontra o tal Alvará "dado no Paço a 22 de outubro"  e tome uma carruagem, que, com bancos de "sumapau" como se usavam na época, poderia ser idêntica às que  cheguei a ver em Espinho quando já não circulavam na contorcionista e polémica linha do Vale do Vouga  [1]. Talvez lá num canto me encontrem, a debicar um trancanaz de presunto entre duas fatias de pão coado,  enquanto vou lendo o suspenso "O Mundo" que, algo  à socapa,  me trouxeram de Lisboa, ou revendo o relato detalhado dos trágicos  acontecimentos que marcaram com sangue as assembleias de voto de Alcântara e S.Domingos  [2]. 

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[1]  Não se poderia excluir  que,  através do tal ramal  Crestuma-Feira, estas duas linhas  pudessem  convergir algures. originando uma "mini rede" ferroviària na bacia do Arda.
[2] Relato esse que foi produto da sindicância logo mandada fazer,.  Publicado no DG nº 149, de 8 de julho de 1908, seria republicado, com retificações, no DG nº 152, de 11 do mesmo mês e possivelmente inspirou um dos episódios narrados por Júlio Dantas na sua obra "Pátria Portuguesa". Mas, retomando o comboio e procurando abrir mais apetites, que me dizem dàquela outra ideia quase da mesma época de estender até Leixões o ramal Campanhã-Alfândega?

sexta-feira, 1 de junho de 2018

PARA MUITOS ANOS À FRENTE (ou como evitar feriados em meio de semana)

"Que os fins de semana continuem a ser largas avenidas
Para que neles caibam também as celebrações dos povos."

                                                 Tradução livre de anotação em Francês 
                                                 (fonte original desconhecida)

quinta-feira, 31 de maio de 2018

DESILUSÃO & PROTESTO

Não esperava voltar aqui tão cedo. Porém o tempo entra, traz notícias e logo deixa de estar, a oportunidade é o momento e a pressa que houve em fechar Maio em grande (e não só) trouxe consigo o que não deveria ser postergado. Pensei primeiro em mandar-lhes Neruda ("Ilusão perdida") mas Florbela dir-lhes-á mais alentejanamente o mesmo: que o entendam.

                         "Perdi meus fantásticos castelos 
                          Como névoa distante que se esfuma... 
                          Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
                          Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

                          Perdi minhas galeras entre os gelos 
                          Que se afundaram sobre um mar de bruma... 
                           - Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – 
                           Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! 

                           Perdi a minha taça, o meu anel, 
                           A minha cota de aço, o meu corcel, 
                           Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... 

                           Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... 
                           Sobre o meu coração pesam montanhas... 
                           Olho assombrada as minhas mãos vazias..."
                                                                                   
                                                                                  Florbela Espanca



terça-feira, 29 de maio de 2018

O 1º DE DEZEMBRO

Ainda não entendi (ou admito que não quis entender algumas hipóteses torcidas que me avançaram) por que razão o dia 1º de Dezembro era, nos tempos dos últimos monarcas, um dia comum, útil e laboral excepto quando calhava ao Domingo. Lamento pois que o Hino da Restauração (quem se lembra dele?) esteja hoje a ser apresentado como uma canção "talassa" quando os "talassas" nem feriado ou celebração especial faziam naquela data em que até o Diário Oficial saía normalmente!!! 
E esta?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PATRIMONIO INDUSTRIAL COMO GERADOR DE CONHECIMENTO



PATRIMÓNIO INDUSTRIAL COMO GERADOR DE CONHECIMENTO
Intervenção convidada proferida na celebração do Dia dos Museus (18 de Maio de 2018) no Museu Industrial da “Baía do Tejo”, no Barreiro.
As duas décadas de 70 a 90 marcaram uma forte alteração do modelo industrial. Isto não sucedeu apenas no Barreiro. Alteraram-se matérias primas, modificaram-se escalas, encurtou-se o Mundo, exportaram-se locais de produção. A força avassaladora da economia, vestida ou não de globalização, fez-se sentir em setores do conhecimento até então quase imunes à sua penetração percutora e pensou-se mesmo que, a breve trecho, se poderia dar resposta à questão inquietante formulada por Marcuse nos anos 60:  produtividade para quê?
Nesta mudança de campo, de escala e de afinação há que reconhecer ter surgido um certo desamor às  tecnologias ou, pelo menos, às tecnologias que tinham até aqui conduzido o mundo industrial. Ouve-se hoje, com frequência, dizer que  “as tecnologias compram-se”  e que  é a partir dos produtos básicos dessas tecnologias que se deve construir um mundo tecnológico novo, mais sofisticado, mais exigente, menos descritivo da realidade fabril primária. A ciência prossegue e a tecnologia , que  dela decorre, vem-lhe imediatamente na peugada, permanecendo  no mesmo pelotão da frente, transpondo para o carro-vassoura os velhos “kombinat”, os velhos centros industriais, que só se mantém operacionais onde a Economia ainda não os condena. E só não digo “a Economia e o Ambiente” porque tendências recentes e controversas mostram como  a Economia pode reduzir  a motivação ambiental,num mecanismo retrógrado.
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Houve mudanças nas próprias profissões. O envolvimento humano foi sendo dispensado e a atenção das  populações foi sendo desviada da produção para o consumo e do trabalho para o emprego. Aliás havia já profissões que recebiam mais atenção mediática que outras – e nesse aspeto as que se ligam à prática do engenho  ou seja ao domínio do tecnológico foram certamente as mais depreciadas e substituídas. Mas o ritmo atual também encurtou tempos de aprendizagem, e Bolonha que o diga e o mostre.  Um engenheiro hoje passa muito mais brevemente pela escola, pela  fábrica ou pela  oficina porque, se é astuto, depressa abandona o que de engenharia aprendeu para ingressar na gestão e nas questões mormente económicas e sociais que na gestão encontra. São os “billions and billions” para impressionar o pagode. E, mais uma vez, quando necessitar da tecnologia… compra-a. Várias situações curiosas já sucederam por esta transposição de desempenhos. São, por agora, meros avisos.
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Para encerrar esta reflexão algo amarga direi que num recente encontro de académicos sobre  um tema aparentemente diferente – a História – se apontaram três alvos  imediatos: património, turismo e paisagem. A  referência a património não primava pela  relação deste com o conhecimento. Era, por exemplo, montar uma cervejaria numa fábrica de cerveja, sem necessidade de explicar o processo, ou trazer um restaurante requintado a uma sacristia conventual, fazendo assim convergir o turismo e manter a paisagem no que de apreciável pudesse completar o cenário. Mas a fórmula pode ter uma utilidade efetiva, como veremos adiante.
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Onde reter, manter, mostrar e sustentar o património? A reação dos diversos centros em que a desindustrialização se verificou foi diferente, de caso para caso, e com diferentes consequências – desde o modelo “a fábrica nunca existiu” que foi um pouco o que aqui sucedeu (ou se pretendeu que sucedesse) até ao aproveitamento bem realizado e mostrado que visitei algures e  me dizem ter sido também conseguido noutros locais. Mas, em qualquer realização, a  preservação desse património, material e imaterial, passa por algumas realidades que deveriam ter sido visitadas e estudadas. Destaco
a organização e não a improvisada sobrevivência,
a manutenção e sustentabilidade,
e o conhecimento trazido  do passado, vivido no presente e,como potencial, apontado para o futuro.
Digo isto assim porque considero que  museus e arquivos de carácter técnico, enquanto se permite que vivam, têm sempre uma VIDA INFLUENTE  relativamente limitada no tempo. Essa  vida influente, no caso de um museu industrial, diversa do de outros museus em que se preza a transtemporalidade da Arte, mede-se pelo tempo em que se mantem, entre os seus visitantes, mormente locais, uma maioria relativa de visitantes inéditos. No caso de um arquivo essa VIDA INFLUENTE  resulta da capacidade de nele encontrar temáticas narráveis e histórias exemplares e de a ele  saber trazer quem as trabalhe para partilha e divulgação. O que nuns se mede pelas IMPRESSÃO CAUSADA E PELO CONHECIMENTO TRANSMITIDO  noutros pode medir-se pela PRODUÇÃO REALIZADA.   O museu de conteúdo técnico não é paisagem  facilmente renovável nem se mantém apetecível  ao fim de diversas visitas. Cansa e cansa-se. Mas o pormenor justificativo  e o conhecimento que dele se pode tirar resulta certamente mais válido quando ampliado por renovadas audiências.   Mas cabe perguntar: AUMENTADO E RENOVADO COMO?  E a que custo? Só o poderá ser por processos de inserção local, regional e temática e pela partilha de identicos problemas dentro de um processo de uma formação cultural integrada.
A geração do conhecimento resultará  da convergência de TODOS  a quem “aquilo” diga algo de específico e valorizável (com o “aquilo” entre aspas não depreciativas e o TODOS em maiúsculas porque deverão ser mesmo TODOS, sem torres de marfim ). Se se desenvolveu aqui ou ali tecnologia valiosa que os “clientes” desses locais de conhecimento se sintam de qualquer forma enriquecidos com a informação a isso dedicada, que mantenham permanente acesa uma motivação pela instituição respetiva, que a saibam renovada e renovável e assim o afirmem e para a sua divulgação contribuam. Realizem-se encontros, debates, conferências o que quer que seja que afaste o repetido mostrar das mesmas peças e o contar das mesmas histórias, que afaste as rotinas chatas e que desafie e traga  possíveis interessados externos que permitam uma renovação  em rede de audiências e narrativas.  Existem em  vários concelhos do País exibições  temáticas que foram feitas e em seguida guardadas e esquecidas mas  que podem ser trazidas por intercâmbio temporário – mas muitas vezes ignoramos ou até desprezamos o  que o nosso equipoder possar trazer-nos. E que guardemos e ouçamos narrativas de vidas enquanto existir quem as possa narrar.[1][i]
Acentue-se o interdisciplinar. Agarre-se não apenas História, mas a explicação das coisas  em todos os seus planos e formas, as realidades presentes e as portas abertas para o futuro. Não se omita o social. Criem-se ou participe-se nos Amigos disto ou daquilo, constituam-se  comissões, ou núcleos  escolares ou industriais ou de animação coletiva local  representando círculos centrados no local de atração. Foram concursos e competições que, no são princípio das chamadas “sociedades de emulação” do sec XIX,  estiveram na origem de indiscutíveis avanços no conhecimento. O exemplo da formação dos príncipes do iluminismo que procurava que cada um tivesse um ofício – D.José, por exemplo, era marceneiro - trazia consigo alguma sabedoria.
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E coloque-se assim o Barreiro nas diversas rotas possíveis de por aqui passarem, de realizarem aqui a tal combinação atualista de  património, turismo e paisagem. A exposição sobre a muleta – que hoje vai ser  motivo de um importante encontro aqui ao lado e que, ironicamente, vive mais na heraldica municipal do Seixal que na do Barreiro – pode constituir  elemento permanente e “exportável” para um itinerário de barcos ribeirinhos ibéricos.  E se esse itinerário não está organizado, organize-se. Ou traga-se a pirite a um itinerário turístico-mineiro-social  que defenda que o conhecimento dum minério complexo como esse não deve ficar apenas na extração mas também na transformação, criando  o duplo MM de sucesso, mineiro e metalúrgico, de que parece termos receios que outros souberam  aproveitar por não terem receios alguns  Direi, por conhecimento de causa e exemplo de inação, que – neste ponto, em que temos razões originais e até  mundialmente únicas – continuamos a “andar parados” e, embora praticamente aceites na comunidade mineira em podermos participar numa rota turística existente e operante acompanhando Aljustrel e outras minas do Alentejo, arriscamo-nos a perder os créditos conseguidos.  Esperamos o quê? Que nos levem ao colo?
Surge aqui um apelo: pela dedicação ao local de trabalho, que é uma realidade constatável, há documentos, livros de fábrica, apontamentos e outra memorabilia que constituem patrimónios pessoais mas que, passadas gerações, podem cair em perdição final como os papeis que eram do  avozinho e  que estão por ali abandonados. Se é certo que não há coisa mais perdida que uma coisa bem guardada, caso se encontrem tais  memórias que elas sejam trazidas aqui para que aqui sejam valorizadas e  guardadas.  
Finalmente: um centro descritivo do que fomos e somos  tem de falar verdade. Conhecimento é verdade adquirida e trabalhável.  Pelo cuidado de dois responsáveis pela formação textil, e por quem manteve e musealizou o conjunto,  que todos merecem a nossa gratidão, foi preservado o equipamento textil que é mostrado neste museu industrial. Mas o resto? Onde está a realidade químico-adubeira que trouxe para o Barreiro os texteis de fibra dura porque precisava de ensacar o adubo aqui fabricado? Ou a química e a família química que também habitava nas páginas da fábrica mas que delas parece ter sido excluída? Ou o chumbo e o velho laminador de 1906 “desaparecido em combate”, no seu desigual combate com o tempo?
O que de patrimonial existe é, já por si,  necessariamente gerador sustentável de conhecimento. Pelo que fomos, pelo que somos e pelo que serão os que vierem a seguir há que lhe dar persistência e continuidade. Há que estudar e manter vivo o conhecimento de que é fonte e a ele subjaz.  Sem isso restar-nos-á transportar para aqui  a reflexão  melancólica de um Cesare Pavese sobre uma fonte para verificarmos  que uma tão simples frase como “aqui houve  uma fábrica” nos poderá- mas só por alguns anos -  ainda comover.

Barreiro, 18 Maio 2018
jmls


[1] Somos a “civilização do écran” e, de tão continuadamente  nos falarem e preencherem a nossa crescente solidão, os ‘ecrans”  desaprendem-nos até de conversar com o vizinho.


[i]