quarta-feira, 2 de setembro de 2020

PÓS COVID

Muito se tem já escrito sobre o que será o mundo pós-Covid e ainda a procissão vai no adro. Dentro das várias reflexões que existem, gostaria de destacar e sugerir uma atenta visita ao blogue em língua Castelhana  "Patrimonio Industrial Arquitetonico", subscrito pela Arquiteta Diana Sanchez Mustieles, em que, para além da riquíssima informação colecionada,  se iniciou recentemente a publicação de contributos sobre o tema.

Veja-se http://patrindustrialquitectonico.blogspot.com e aproveite-se a visita do restante para constatar o que por cá  se tem perdido como evanescente memória de um passado industrial que também hoje lamentamos faltar-nos,  Contrastando com esse exemplo e com o desaparecimento em completa ruína de muitos casos e locais que ainda poderiam reter potencial valia será caso de dizer: nem turismo da indústria, nem indústria do turismo, nem mesmo Intústria, ponto final!

terça-feira, 23 de junho de 2020

A "TERTÚLIA DO CINEMA, que nesta época calhava em JUNHO - Uma Postagem aberta [1]


 Nota inicial: As chamadas a rodapé[1] remetem para o fim do texto.


Quando se considerou a utilidade de inserir nas “Tertulias” um apontamento  temático de Cinema, de caracter bi-etápico – ou seja um primeiro dia destinado a visualização e reservado o dia seguinte para apresentação por um convidado que  de cinema soubesse, recebi com prazer o encargo de participar na seleção do que iria ser apresentado e, por brevíssimas palavras para, não “abafar” o resto, explicar antes da projeção o porquê da seleção do filme que logo a seguir seria tratado. Amador preguiçoso de cinema que sempre fui, e pouco mais que isso, entendi que esses introitos  estariam à altura do pouco que sabia e permitir-me-iam participar ativamente na razão que a todos os presentes (e a mim) qualquer das Tertúlias representa e que é a de mensalmente trazemos e discutirmos temas do nosso tempo e, nessa discussão e convívio, todos aprendermos mais. Além disso o tema “Cinema” trazia-me à memória uma vivência anterior, dos meus 5º,  6º e 7º anos no Liceu de Alexandre Herculano, no Porto - e a esta imediatamente passo. 

Alargando-me um tanto nessa evocação, para além das tais "brevíssimas palavras" que o protocolo aconselhava, conto aqui o que então ali se passou e que inclui o "achamento" do neo-realismo italiano, de Vittorio de Sica e do “Milagre de Milão"[2] por um grupo de jovens liceais, como tema que  iríamos este Junho debater, não fosse a inesperada pandemia que a todos nos tornou testemunhas de um facto  da História e que fez, desgraçadamente para muitos, à história passarem. Agradeço a compreensão e paciência de quem me leia, já que, para a prometida narrativa, teremos de deixar o atual, com todos os receios e dúvidas que nos assistam, e viajar no tempo até ao primeiro período do último ano do segundo ciclo liceal (o 5º) no ano letivo 1951-52. e no Liceu de Alexandre Herculano, no Porto. Existiam 3 turmas, A, B e C e é na turma A que vai então fervilhar uma verdadeira febre literária, de leitura e escrita, que sugeria a criação de um suporte[3]. Metemo-nos nisso,  manuscrevendo  duas folhas de papel almaço, como exemplar único e em princípio mensal  e assim fizemos nascer  o “Patascrito” em que cada um colocava algo de si e do seu gosto, poesia melosa, pequenos contos e comentários jocosos, tratados de fintas e “driblings” futebolísticos, bonecada ilustrativa a cargo de quem tivesse jeito para a fazer, neutralmente político mas clandestinamente  passado de uns a outros por debaixo das tampas das carteiras e em que cada "assinante", tendo pago uma c’roa,  podia reter e ler o exemplar único num tempo limitado e mesmo  acrescentar o que quisesse em caligrafia legível, como se pedia. Por razões sérias de saúde já não voltei ao Liceu após as férias de Natal desse fim de ciclo, pelo que só  participei em  dois números dessa folha volante e nem sei quantos houve  e qual, a final, o seu destino. 

Com manifesto sacrifício familiar, consegui não perder o 5º ano – embora deixando temporariamente o Liceu. Regressei, nédio e curado, no Outubro seguinte e fui reintegrado na mesma turma, agora no 6º ano, nela  reencontrando os que “para as Ciências” por ali ficaram com mais algumas novas “aquisições” – já que , mercê da especialização de programas  através das famosas alíneas, Letras e Ciências separavam-se após o 5ºano, migrando parte dos colegas para o outro liceu masculino da cidade, o “D.Manuel II”[4].  Assim o  efémero “Patascrito” acabaria por ser  o ingénuo precursor de dois jornais escolares já sob forma impressa, já constantes de previsão legal, já com professores  orientadores designados: “O Prelúdio”, no nosso Liceu [5], e “O Mensageiro”no “tal outro[6]”. Com alguns berbicachos, por vezes sérios – e que no nosso caso começaram  logo no nº 2, se bem me recordo, com um comentário a uma famigerada lei do Cinema que então apareceu e gerou controvérsia– tudo foi andando. Reunindo  os escreventes  do “Patascrito” e acrescentando outros, o grupo renovado que girava em torno do ”O Prelúdio”  procurou dulcificar o esforço bisemanal das tardes de 4ªs e sábados, com marchas no enlameado recreio grande, sugerindo várias propostas de substituição, que se enquadravam nos chamados “Centros Especializados da MP” então também criados e cujo funcionamento inicial era um bocado “a feitio”. Um primeiro “Centro Especializado de Tiro” foi logo sugerido mas acabaria depressa, pelo rápido esgotamento  dos chumbos que podiam municiar as duas "Dianas" velhas, de pressão de ar, que por ali andavam[7], pelo que audaciosamente se sugeriu um  inédito “Centro Especializado de Cinema” cuja únicca finalidade… era, nessas duas tardes fastidiosas,  ir ver cinema “extra muros” com os inscritos a pagarem do seu bolso o próprio ingresso e trazendo como suporte documental a encafuar numa pasta velha os programas impressos que os “arrumadores” ainda entregavam  e que o pequeno grupo – ultrapassando a gratuidade da distribuição – obsequiava com uma ou duas c’roas, que tal era o complemento da escassa  propina de um “arrumador”de então.. Embora todos estivéssemos cientes de quão efémero o  pomposo “Centro Especializado do Cinema” poderia ser, e por isso não propagandeando o seu alargamento "para não dar nas vistas", alguns dos membros percebiam mesmo da  poda das vides cinematográficas, liam revistas e as cv olunas de crítica das estreias e auxiliavam a restante malta, que não a entender a 7ª arte e o seu desenvolvimento, bem para além das “cóboiadas” e “filmes de guerra” que íamos devorando no Águia D’Ouro e , mais raramente, noutros “animas” porque eram mais caros[8]..O próprio Liceu  tinha uma sala de cinema surpreendentemente bem dotada, mas que, apenas servia para algumas regulares celebrações e avulsas palestras e para quando o Reitor chamava a “malta” a capítulo, mormente para nos passar um “caldo frio” por qualquer desmando funcional[9]. No tempo restante o espaço, que ainda hoje existe, estava literalmente "às moscas".

Esta combinação de circunstâncias iria conduzir a um inédito acontecimento  No 6º ano recebemos um novo professor de Moral  (Padre Alexandrino Brochado, reitor da Capela das Almas e recentemente falecido) que era - ao contrário do que a malta avaliava do seu ar de "Bolacha Maria" -  um pra-frentex entusiasta do cinema e que, olhando a plateia vazia que nós tínhamos, contando  com o apoio de alguns distribuidores que conhecia, se lembrou de criar no Liceu um Clube de Cinema – a que o Centro Especializado de Cinema imediatamente aderiu porque (a) ficava “em casa” e recorria a meios do próprio Liceu, incluindo como operador - projetista o Senhor Fonseca, dos Laboratórios de Física e Química (b) era economicamente mais barato para os seus membros que os encargos semanais de ida ao Águia D'Ouro" (c) ocupava as ditas tardes e, sem risco,  trazia ao Clube mais “malta” (d) dava acesso a filmes mais selecionados que as “cóboiadas” não escolhidas que íamos “comendo” (e) tinha a aprovação de uma grande parte da hierarquia docente e supria uma situação “periclitante" que semana sim, semana não, se desenrolava “fora de portas “ e que (como no caso do tiro) poderia ser questionada e fechada de um dia para o outro, re-atirando-nos para as marchas enlameadas de que nos tínhamos afastado. Por outro lado, aprendida já a ameaçadora “aula intensiva de iniciação política” (algo desproporcionada, digamos) que nos tinha sido ministrada no 6º ano,  quando do incidente com o artigo do “ O Prelúdio[10], tínhamos adquirido prudência com a certeza de que  algo vinha do “exterior”, que  o assunto cinema nos poderia sair caro e que o clube e o nosso jornal  estavam sob os olhos de uma invisível observação e reparo. Nada melhor para agradecer o guarda-chuva que o Clube do Cinema  nos vinha proporcionar.

Mas é nesse Clube de Cinema, no ano letivo 1953-1954, em que enfileiravam as gentes do Prelúdio” e alguns “sabedores da 7ª arte” e conhecedores do meio, que surpreendentemente  vão ser projetadas, com todas as bençãos,  duas obras primas do neorealismo italiano, então  totamente atuais, o “Ladrões de Bicicletas” (1948),  e “O Milagre de Milão”(1951), ambas dirigidas  por Vittorio de Sica.  Tal foi a impressão que esses dois filmes causaram  nos  “finalistas”e nos mais novos que a eles asistiram que algumas reações familiares transpiraram logo e de tal forma  transmitiram à Reitoria “ser pelo menos estranha essa inclinação dos rapazes por aquele  cinema italiano”  que vieram motivar a introdução nos programas subsequentes de projeções mais conformes com o gosto do regime vigente,  tais como “Mulherzinhas” ou “Mulherezinhas” como constava dos cartazes da época,  “A Carga da Brigada Ligeira” e  assim por diante- com excepção, claro, do “Aniki-Bóbó” que, por mérito próprio, até passou duas vezes, se me não engano. Mas, porque calhou  nada termos a ver com a inesperada chegada desse “estilo novo”,  nenhum ruído de frente ou de fundo nos viria incomodar. Vimos, gostamos, compreendemos, considerámo-nos  (ou não ) fãs do neo-realismo italiano e tudo não passou disso.

Do “Milagre de Milão” ficou-me a memória e a saudade. Tanto que logo de início o propus e esteve para ser, nas nossas Tertúlias da Escola Augusto Cabrita, o primeiro filme a apresentar.  Por circuntâncias diversas, todos os anos veio a ser proposto e todos os anos foi substituído por outros filmes, mais de acordo com os conferencistas convidados. Mas, como sou teimoso e como sentia aproximar-se o dia em que eu iria resignar ao meu próprio papel e aconselhar que a escolha do filme fosse entregue  a outra pessoa, desejavelmente  mais atualizada – posição que  eu previa expor-vos precisamente  em  Junho deste ano – mantive “O Milagre de Milão” e preparei-me para  o  apresentar nessa etapa projetiva com as mesmíssimas palavras que agora aqui trago. Referi  já o pesadelo que não se poderia prever e que, mais uma vez, viria alterar o programa.

Apresentado em 1951 e logo prémio do Grande Juri no festival de Cannes desse mesmo ano,  o filme traz aparentemente uma história muito simples, que pretende lançar uma mensagem otimista  sobre uma  Itália frustrada e arruinada  por uma participação desastrosa numa guerra que então terminara há apenas 6 anos.  Baseada numa novela de  Cesare Zavattini (“Totó il buono”),  reescrita para o filme por este e pelo diretor  De Sica, insere-se no pensamento e obra  neorealista italiana  que reflete fortemente sobre o social e as bruscas mudanças que resultaram na guerra e da guerra.  Foi aqui já visto, nas épocas anteriores das Tertúlias,  o “Roma Cidade Aberta” (de Roberto Rossellini, 1945) que no cinema italiano inaugura essa corrente, e o português  “Jaime” (de António Pedro de Vasconcelos, 1999 ) que reune e representa identicas preocupações, como filmes que não escondem nem se escondem da realidade. 

No “Milagre de Milão” quer o autor da obra inspiradora quer o autor do filme escolhem uma forma ousada  e que poderia mesmo sugerir um contrasenso, que é  trazer o realismo através de uma fábula, de uma história nada infantil mas de contextura mágica. Merece de facto o reconhecimento como obra-prima.  Ora vejamos: uma anciã solitária,  Lollota (representada por Emma Gramatica) vai à sua horta e  é alertada pelo choro de um recém nascido que, todo nu, está estendido sob um repolho. Recolhe o bébé  e leva-o consigo para casa já que, mais que uma criança abandonada, o encontro é a  realização fílmica do mito infantil, que eu também ouvi sem em tal acreditar, de que os bébés nasceriam de uma  couve.  Começa aí a fábula. Totó[11] se chamará  o moço que a velha vai tratar durante  uns 9 a 10  anos  como se fosse um filho, até que uma doença grave leva a sua casa dois médicos … e que, na aparente discordância sobre um diagnóstico, antecipam o prognóstico mais grave para qualquer doença. Assim a cena seguinte mostra Totó, já sozinho,  acompanhar  a pé a carreta funerária, que uma pileca puxa e um condutor apressado dirige e que atravessa uma cidade vazia e desolada, desencadeando atitudes e situações burlescas entre o respeito e o “aproveitamento”. Recolhido num orfanato, Totó só dele sairá uns 8 a 10 anos depois, acreditando cegamente  na bondade do mundo e das pessoas com que cruza ou a quem honestamente pretende ajudar de bom grado, até que, aceite ao oferecer ajuda mas recusado ao procurar trabalho, novas situações burlescas o levam a ingressar num espaço de desalojados sem abrigo, como muitos que na época cresciam em torno das grandes cidades e que hoje, de forma que se pensaria poder ser algo diferente, continuam a existir. Peripécias diversas levam Tótó a participar ativamente na organização do campo  e a confrontar factos sucessivos ligados à propriedade do terreno e à promoção imobiliária deste, agravada primeiro  com a descoberta de água e, de seguida, com uma  inesperada descoberta de petróleo. Aí a parca economia de sobrevivência é manifestamente esmagada pelo peso da finança que o petróleo atrai e, dentro do próprio grupo, crescem divisões e divergências em que Paolo Stoppa (um grande nome do cinema italiano) interpreta a figura antipática de um “torvo” e “vendido”  Reppi. Misturando artistas profissionais e figuras do povo, como foi característica dos filmes neo-realistas, a ação prossegue até ao insuportável movimento para destruira aquele “pequeno mundo” e é então que… mas fico-me por aqui deixando-vos  a “âncora” ou “chamada” ou mesmo “ligação”  (que em lusoinformês se diz “link”) para que cada um veja o filmr, de fio a pavio. E vale a pena ver.

Peço-vos desculpa do tempo que vos tomei ao falar muito de mim, mas tinha mesmo de contar como conheci este filme, velho amigo que de tempos a tempos fui revisitando, e de relembrar nele os que comigo o puderam  ver e discutir há uns quase 70 anos, num cinema de Liceu portuense hoje ameaçado de ruína.


MILAGRE EM MILÂO, com legendas em Português:


E assim me despeço na Tertúlia de Junho, a última desta época atormentada.  Crente de que as Tertúlias devem prosseguir e irão prosseguir, a  elas voltarei sempre que possa e ainda  me aturem. Ciente também da dificuldade dos dias que passamos e dos dias que virão, considero que  cada dia é um novo dia para viver com esperança – agarrando  a poesia e não a deixando esmorecer. Que "O Milagre de Milão” e o intuito com que foi produzido, em 1951,  sirvam de exemplo.
Porém,  para a suspensa Tertúlia de Cinema, cumprida que foi a missão que de vós recebi, encontrem por favor quem receba o testemunho e a prossiga.
E não parem.

Eu, por mim,  voltarei a essas gravações sempre que puder. Tenho os DVD's e persigo no celuloide, que só eufemísticamente o é, a figurinha gentilérrima da dona Claudia Cardinale, uma jovem da minha geração que me chamou a atenção em "La Ragazza di Bube" e que, a meu ver, fez o pleno no papel de Concetta no também incomparável "Gattopardo".

Porto, dia de S.João , 24 de Junho de 2020



[1] Se um MCS pode publicar  uma “carta aberta” por que razão não poderá haver, num blogue, lugar para uma “postagem aberta"?
[2]  Era assim o título com que o filme foi apresentado em Portugal.
[3]  Uma obra de Maxence van der Meerch, “Corpos e Almas” iria  circular pelo mesmo canal subreptício  e  influenciar muitos da turma a seguirem Medicina.  Não é opinião de todos os “contagiados”, mas, a mim, ninguém me tira a ideia. Também se refere que essa obra só apareceu no 3º ciclo, i.e pelo menos um ano mais tarde - mas mesmo que assim possa ter sido, o hábito das “leituras escondidas” já então estaria instalado na turma e não iria desaparecer.
[4] Rebatismo que era de um “Liceu Rodrigues de Freitas”, cujo nome não era tão querido ao regime de então.
[5]  Com o  Dr. Cruz Malpique, como Professor orientador. O Rui Abrunhosa, também um dos Fundadores conta, no seu blogue LAH-1954, edificantes histórias sobre esse período
[6] Com o Dr Oscar Lopes como Professor orientador e os colegas . José Augusto Seabra, Vítor Alegria  e  Belmiro Guimarães, que nos haviam deixado por força das tais alíneas..
[7] Disparava-se no recreio pequeno, vulgo “as Salésias”, sobre tudo o que mexia, mas tal euforia merecia bem o comentário de uma novela indiana que na altura circulava: “Atira divinamente, Sahib, mas Deus tem dó dos pássaros!”
[8] Começava a esboçar-se timidamente um o movimento cultural cineclubista que acentuadamente marcaria os anos a seguir e que muito influenciou a sociedade portuguesa.
[9] A esta distância há que reconhecer quanto o nosso Reitor procurou não obstaculizar esses “disparos” de gente nova  e minimizar as suas consequências, reduzindo-as à dimensão devida, mesmo que mostrando uma frontaria rígida e severa., apesar dos “falcões”, alguns de distintivo na lapela, que torciam o nariz àquelas  “modernices”e que eu hoje não  excluo pudessem pretender construir  um “contra poder”, embora minoritário, na Sala dos Professores..
[10] Para além das aulas da OPAN, em que se aprendia muito do que se quereria que fosse  aprendido.e outro tanto do que certamente se não quereria. Era o tempo da “guerra-fria”, do André Cayate no cinema francês, etc. etc. O próprio movimento cine-clubista aproximava-se, como acima já se referiu. 
[11]   Não se confunda com um outro Tótó, personagem cómico do cinema italiano, apresentado em vários filmes e sobre  qual também haveria que falar – pois em muitos deles  o que parece ser ”exatamente não é”!

S

terça-feira, 16 de junho de 2020

SOBRE ESTÁTUAS E LIVROS


O que é demais é moléstia  (ou ignorância lamentável) !


O que se passa com as estátuas tem inegável semelhança com os processos de queima de livros e de destruição de bibliotecas, também historicamente caraterizados por  surgirem em "vagas" e levando a recordar o que alguém um dia  acertadamente disse : "Onde se queimam livros acaba-se queimando pessoas" [1] .E assim, aos pretensos moralistas auto-descontextualizados que atacam  indiscriminadamente estátuas de descobridores, vultos  históricos mesmo de comportamento anti-esclavagista e anti-racista,  obras literárias (p.ex. Mark Twain), filmes (como o "Tudo o Vento Levou") e inclusive músicas (ou letras de música) oferece-se a seguinte imagem exemplar:




Mark Twain e John T. Lewis, vizinho e amigo  de longa data do escritor,  em quem este alegadamente se terá inspirado para a personagem de Jim nas "Aventuras de Huckleberry Finn" [2]

Fica sempre em aberto a hipótese malévola, mas possível, de alguns dos feitores ou inspiradores desses atos desejarem exatamente escorvar sentimentos contrários aos que pretendem mostrar para poderem colher frutos na ressaca do que provocaram.

"Ignorância é força" como acertadamente escreveu Orwell no seu "1984" e poderá ser erigido como lema para o mundo pandémico (com ou sem virus, reais ou informáticos) em que hoje vamos vivendo.

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[1] Visite-se a postagem de 8 de Junho de 2017 no blogue "Leituras Diversas" de PAULO SILVA, em
https://leiturasdiversas.wordpress.com/2017/06/08/onde-se-queimam-livros-acaba-se-queimando-pessoas/ , acedido nesta data.
[2] Foto de 1903, em Querry Farms, N.Y., com agradecimentos ao "Center for Mark Twain Studies" e ao album "Fotos Reales (No Montajes) Que Muchos No Sabian  Que Existian"




quinta-feira, 14 de maio de 2020

UM EXERCÍCIO DE REFLEXÃO, EM 1975

Em 1975 participei num grupo de reflexão partidário mas extra-executivo  para "pensar" possíveis linhas de desenvolvimento. No campo rodoviário apoiavam-se 3 vias "autoestradais": uma NS ocidental prioritária, que corresponderia à AE Porto Lisboa já em uso, mas  a ser completada com as suas extensões para Norte e para Sul, uma NS Central  com traçado próximo, se não convergente, com o da então EN2, vencidas que fossem as dificuldades levantadas pelas bacias hidrográficas do Mondego e Zêzere [1, 2]  e dotada esta de acessos de idêntico perfil à direita ou à esquerda, para servir condignamente capitais de distrito e ligar às outras verticais, e uma terceira  NS descendo ao longo da fronteira com a Espanha.  Pretendia-se, com esta reticulação, valorizar o interior e articular, onde fosse possível, com a estrutura de ferrovias. Não escapava a transversal do Alentejo, de Sines a Beja e de Beja à fronteira e que ainda hoje faz falta  pois - em termos de perfil viário compatível - o traçado transversal não passa de Ferreira [3]. E assim se ficou. e finou o grupo, crescentemente entropiando em esquecida reflexão, afastando tanta complexidade e, certamente, deixando o País suspirar de alívio com o que na época se chamava de "eiefantes brancos" [4].
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[1] É interessante conhecer a história da ponte de Álvaro, inaugurada em Agosto de 1983, como exemplo dessas dificuldades e de como com ela se resolveu finalmente, em 30km, o percurso anterior de 100 km entre os concelhos de Pampilhosa da Serra, a Norte, e Oleiros, a Sul- a menos de quem quisesse fazer em batelão uma travessia  nem sempre simples ou acessível.. Essa redução de percurso, conseguido com o grande esforço e anseio das populações, corre fora do traçado da EN2 mas mostra o que obras de arte adequadas poderiam nela fazer para uma   fuga central ao famoso "funil de Coimbra".
[2] Para ainda hoje conhecer o traçado da EN2, nos seus 738 km entre Chaves e Faro, e com isso  não suprindo uma atrativa experiência pesoal , sugere-se visitar   o local  https://quilometroinfinito.com/rota-patrimonio-da-estrada-n2/
[3] Uma outra história edificante é a do ramal ferroviário de Sines, hoje linha de Sines,   e dos problemas e dúvidas que levantou quando do seu projeto e construção. que se estendeu por troços entre 1927 e 1936. Considera-se atualmente a sua extensão a Évora e a Elvas-Caia, ligando a Estrenadura espanhola. (Plano Ferrovia 2020). Em termos de quilómetro por ano, desde a tão atribulada gestação, nem um caracol andaria mais devsgar!.
[4] Quando se escreverá  ou farã um cinedrama sobre esses quadrúpedes míticos ou reais ou dos também injustamente assim apodados para que não existissem ou ventassem noutros alforges (nomeadamente no que foi a desprogramada  nau catrineta na nossa enevoada epopeia industrial imediatamente pre- ou pós-25A) ?.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Isto agora está assim...

Um dos flagelos que a inundação trágica de crise nos trouxe , desde 2008 e que 'inda por aí perdura, chama-se desemprego.  Mas com curiosos e estranhos episódios. Contarei um.

Precisando de encomendar  uma pequena obra de serralharia (arranjo de dois velhos portões e reparação de um sistema de redes e suportes) e baseado em referências de quem há anos teve uma obra idêntica  contactei um PME local que comigo verificou o que seria de fazer, não levantou qualquer reserva e prometeu-me rapidamente entregar uma estimativa orçamental. Muito bem. Pasaram-se bem dois meses e nem uma palavra, e nem uma notícia de imposibilidade, ou uma notícia de desistência, ou uma dúvida. Nada...

Como tal comportamento igualmente poderia ser um índice de qualidade ou de falta dela, contribuindo para eu poder  orientar a minha opção, não insisti. Mas, na oportunidade dum encontro rotineiro, não omiti referir o comportamento estranho e pouco curial desse empresário a quem m'o tinha indicado. E deste recebi um outro estranho comentário. "V. sabe - disse-me ele - a minha referência, como lhe disse,  veio de um trabalho que para mim esse Fulano fez há algum tempo e que me satisfez. Agora, mais que um ano depois, as coisas, segundo sei, já não estarão na mesma. Eu próprio, em algumas obras, já depois da referência que lhe fiz, tenho encontrado cada vez mais  casos desses. O que se quer hoje são obras grandes e com preços "alemã" ou então os potenciais fornecedores apresentam-se assim mesmo e saem pela porta dos fundos, sem deixar rasto. Alguns ainda dizem que estão cheios de trabalho, outros que não têm gente, e outros , como no seu caso, não dizem nada e assim mostram que não estão para se ralar com o que antes lhe disseram. Terão vindo ao cheiro para ver se podiam "esfolar um cabrito" [termo proveniente de outros ambientes, mas que hoje é merecido ser posto na boca de  certos protagonistas em certos meios, nomeadamente financeiros, em que antes se não esperariam] e como o bicho não estaria suficientemente gordo para o apetite deles, deram na balda e vai-te lixar. Obrigado pelo aviso, já que eu, quando lho referi, não contava com isso, mas estamos sempre a aprender! E olhe, em certos mesteres (marceneiros, molduras, restauros, pintores fingidores, canalizações menos convencionais, etc ) nem pense mesmo encontrar e, se encontrar, prepare a carteira.

Por um lado isso animou-me, na medida em que poderia representar emprego crescente, animação da economia, etc. etc.  Mas "mirando el tendido", fico na dúvida se será essa a verdade, se os verdadeiros artífices de qualidade estarão a tornar-se raros  mas receberão na justa qualidade do que produzem ou se não estaremos frequentemente a topar desconcertos e desconcertados  como os que aplicaç de tintas pasticas estou na  como um fornecedor que eu tinha de capotes e samarras alentejanas

EM DESTAQUE NA “NATURE BRIEFING” DE ABR23 [1]

“No one in the field of infectious disease or public health can say they are surprised about a pandemic…. What surprised me is just how quickly we gave up on the standard shoe-leather epidemiology approach to fighting epidemics that has been in place for hundreds of years.”  [3]


Jim Yong Kim [2], referindo-se à atual  pandemia,  


[1] Folha noticiosa emitida em Londres e disponível em briefing@nature.com. Recomenda-se  a  subscrição gratuita desta "Newsletter", totalmente devotada a temas científicos..
[2] médico e antropólogo nascido em Seul. Chefiou o departamento da OMS para o combate ao AIDS/HIV,  antes de assumir a presidêncja do Banco Mundial, que exerceu de 2012 a 2019.
[3] Tradução:"Ninguém  do campo das doenças infecciosas ou da saúde pública,  poderá  dizer-se surpreendido por  uma pandemia.... O que de facto me surpreendeu foi  a rapidez com que  se desistiu da abordagem epidemiológica clássica que há séculos se vem mantendo para combater epidemias."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

NA MORTE DO MINISTRO ALVARO BARRETO

Engenheiro, Ministro em vários Governos liderados por PM's diversos, faleceu com 84 anos de idade nesta 2ª feira, 10 de Fevereiro. Assumindo a pasta de Ministro da Indústria no Governo de Francisco Sá Carneiro, tragicamente encerrado em Camarate a 4 de Dezembo de 1980, teve como Secretário de Estado de Minas e Energia, o  também Engenheiro António Joaquim Garras Silva Pinto,  que precocemente nos iria deixar. Estes três nomes - aos quais na governação seguinte se irá juntar o do Professor Veiga Simão - deverão ser recordados pelo muito que pugnaram na defesa dos interesses nacionais no desenho e  lançamento da estrutura societária destinada à exploração e valorização dos então recem-descobertos jazigos de Neves-Corvo, numa perspetiva que inicialmente se previa e desejava integrada  (Minas + Metalurgia).

A História contará o que veio a seguir.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

BREXITEM-SE

O morador, ao fim de 47 anos, sai da casa que escolheu e onde entrou pelo seu pé e vontade (não foi empurrado). Como é de usança, esfrega as mãos, olha em roda e diz (ou rosna) o pior possível do bairro em que então se meteu. Para ele seguir-se-ão os amanhãs que cantam. Fly united!

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

UM PASSO EM FALSO...NUMA PISTA AINDA CONDICIONAL ! Montijo, again! (3)


 Aberta a Consulta Pública sobre a realização no Montijo de um Aeroporto, com fecho fixado para o dia 19 do corrente mês de Setembro (como referido em postagem anterior),  o autor deste blogue decidiu (a) participar nessa Consulta Pública enviando atempadamente o seu contributo; (b) dar conhecimento neste blogue desse contributo MAS SÓ APÓS A DATA DE ENCERRAMENTO DA CONSULTA. E, por isso e isso, agora o vem fazer. Verificou porém que, nos entretantos, nem todos pensaram o mesmo e que produziram e divulgaram afirmações e/ou publicidade que poderiam "canalizar" respostas a essa consulta, afetando-a na sua finalidade e reduzindo de facto o alcance dos que acorreram ao convite oficial dela divulgado. Não foi bonita ou aceitável tal atitude, que se lamenta como (mau) sinal dos tempos - e em especial quando algumas dessas  vozes vieram de onde não deviam ter vindo. Respect!

Por casualidade o autor deste blogue assistiu no Japão, nos anos 80, ao debate e ações que envolveram o protesto quanto ao aeroporto de Narita para descomprimir a região de Tóquio e sabe bem, por isso, como pode ser difícil demover um projeto desta índole e dimensão. Mas entre o "caso Narita"  [vd. Nota Final A] e o "caso Montijo" existem flagrantes diferenças. Narita foi pensado nos anos 80 e então posto suficientemente longe para "descongestionar" Tóquio em todos os seus componentes; Montijo está a ser pensado nos anos 20 do século seguinte para auxiliar um aeroporto de facto dentro de uma cidade mas com o objetivo rasteirinho de criar  um outro aeroporto quase-dentro da mesma cidade, congestionando e acrescentando inquietude a outras áreas urbanas adjacentes da mesma cidade e tentando atenuar o reconhecível e prejudicial impacto sobre  um estuário único na Europa ocidental com propostas de remediação ambiental questionáveis, porque problemáticas.
E assim é...

Regressando à segunda parte da decisão referida supra, o autor do blogue seguidamente publica - para utilidade presente e memória futura -  a resposta que remeteu à entidade oficialmente incumbida de conduzir a  referida CONSULTA PÚBLICA, Essa remessa foi feita por via postal a 12 do corrente mês de setembro: .

 "
Exmo. Senhor Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente,

[segue-se a identificação detalhada do signatário da nesma que...] ...vem, pela presente comunicação, apresentar por escrito  opiniões e sugestões relativas ao Projeto AIA3280 – Aeroporto do Montijo e respetivas Acessibilidades, em que é proponente a ANA – Aeroportos de Portugal, S.A., sendo licenciador o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, e com localização nos concelhos do Montijo e de Alcochete, sem que se possam ignorar os efeitos do referido projeto, pela sua repercussão,  nos concelhos do Barreiro, Moita e inclusive Seixal, todos interessados pela franja sul do estuário do Tejo e  extensão desta pelo rio Coina.

Tem V.Exa. pleno conhecimento das caraterísticas do estuário do Tejo como “a maior zona húmida do país e uma das mais importantes da Europa, um santuário para peixes, moluscos, crustáceos e, sobretudo, para aves, que nele se detém quando de sua migração entre o Norte da Europa e a África. Sendo maior estuário da Europa Ocidental, alberga regularmente 50 mil aves aquáticas invernantes (flamingos, patos, aves limícolas, etc.). Devido às suas condições únicas foi criada em 1976 uma reserva ecológica na zona superior do estuário, a Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET), onde nidificam várias espécies de aves.[Wikipedia]” e, bem assim, das consequências da moderna e da histórica pressão poluente que neste estuário  se faz sentir, mantendo afastadas certas espécies que nele eram frequentes visitas (o caso dos golfinhos) e embora seja de registar o tímido regresso de outras (morcegos).

O balanço a estabelecer entre os interesses de uma estrutura vasta e complexa como a projetada e os aspetos ambientais que por ela ficam comprometidos obriga a um julgamento do futuro no presente e certamente que nem sempre o progresso local e mesmo nacional  justifica o conjunto de compromissos de toda a ordem que uma tal obra poderia implicar, nomeadamente quando se declara “tábua rasa” sobre outras alternativas que ao progresso nacional poderiam mais convir.

01.   O argumento do empreendimento já existente no local:
Dir-se-á que se pretende realizar um empreendimento aéreo-portuário onde já existe um empreendimento aéreo. É uma visão defeituosa de escala e, se algo haveria a fazer, seria precisamente desmobilizar a atual base aérea para poder complementar, em alargamento de área estuarina, o crescimento em área  dos concelhos que a delimitam. Pelo contrário, e como adiante se referirá, procuram situar-se nessa área sensível outros empreendimentos com impacto real e igualmente lesivo do ambiente, no seu sentido integral e polivalente.

02.   A alternativa Alcochete:
Uma outra visão redutora consiste em considerar as instalações militares de Alcochete como alternativa à implantação da facilidade aero portuária no Montijo. A distância entre ambas as localizações não é de molde a atenuar os efeitos ambientais sobre os “habitats” naturais que hoje existem e que fazem de toda essa área uma extensão que se desejaria homogénea e complementarizada em si própria, oferecendo às aves migratórias capacidades próprias. O recorte que o Campo de Tiro de Alcochete, com extensão quase até à A13, já obrigou a efetuar na Zona de Proteção Especial da referida reserva demonstra claramente um compromisso dessa desejável continuidade . Parece assim evidente que a localização Alcochete, com a vantagem relativa de substituir a desastrosa opção Montijo, não é, em termos absolutos e no seu efeito ambiental sobre a motivação estuarina da Reserva, uma melhor solução.

03.   Os problemas que o aeroporto levanta:
Seja o aeroporto no Montijo ou em Alcochete, a saturação de área que dele resulta advém de diversos fatores comuns e conhecidos para este tipo de estruturas
        a)       O ruído; 
        b)      A acrescida emissão de gases, seja do aeroporto propriamente dito seja do tráfego terrestre 
              que determina; 
        c)       A acrescida emissão de poeiras finas e ultrafinas; 
        d)      Os efeitos de revolvimento do leito do estuário;
        e)      A alteração de habitats da avifauna (e outros impactos na fauna e flora estuarina); 
        f)        Os riscos inerentes à segurança aeronautica, incluindo o “bird strike”; 
        g)       A distribuição geográfica comparada  das estruturas aero-portuárias.



04.   Quanto ao ruído
Remete-se o comentário para o “Jornal das Sete” da SIC Notícias de 10 de setembro corrente e a dois aspetos que,  relativamente ao ruído, aí foram levantados: as dificuldades alegadamente atribuídas à ANA para fornecer dados sobre o ruído causado pelo tráfego aéreo na cidade de Lisboa e as medidas anunciadas para a proteção das fachadas devido ao efeito ruído motivado pela localização Montijo. Reconhece, pois, a ANA, existir um efeito ruído que implicará  medidas de proteção de habitações – e cabe perguntar se existem medidas de proteção para quem esteja ou exerça fora delas. E quais e como e quando essas medidas remediais serão realizadas e subsequentemente mantidas, nomeadamente em aspetos e custos de conservação. Recorda-se que o aeroporto do Montijo afetará zonas urbanas de densidade representativa nos concelhos da Moita e do Barreiro quer em chegadas e em partidas de aeronaves, com quadro urbanístico diversificado, para além das alterações que constituirão os acessos e que certamente implicarão deslocamentos e modificação de áreas críticas – fator que não tem sido geralmente referido. A caraterização da própria população afetada e do parque habitacional a ela afeto é igualmente um aspeto a considerar – nomeadamente sob o ponto de vista de incidência fiscal.

05.   Quanto à  acrescida emissão de gases, seja do aeroporto propriamente dito, seja do tráfego terrestre que determina:  Sem dúvida que esta poluição existe e é agravada numa zona que sofreu já os efeitos da atividade industrial próxima – sendo, porém, pura hiprocrisia e negação do progresso argumentar que, já que estiveram a tal obrigados, podem continuar a não aspirar melhores condições. Não se dispõe de dados que meçam a poluição provocada pelo aeroporto de Lisboa, incluindo CO2 (obviamente), SO2, NOx e compostos orgânicos  mas também não se presume que a busca feita na Net – e para mim suficientemente esclarecedora com os levantamentos e estudos americanos e europeus (particularmente dinamarqueses)  - possa ser mais reveladora que estes mesmos resultados e que outros que certamente a APA já disponha.  Assim sendo e olhando mais para as conclusões é possível dizer que: (a) Essa poluição refere-se a atuações do transito aéreo (air), no solo (ground) e estas últimas ainda repartidas por operações com aeronaves e operações com facilidades conexas, incluindo acessos; (b) Essa poluição existe e pode atingir a saúde da população próxima, não afastando casos de etiologia manifestamente  grave (vd. contributo dinamarquês para o Projet Clean Air) (c) Essa poluição é geralmente sub avaliada; (d) Uma das formas de a combater, além do “design” do aeroporto e zonas envolventes, é o útil afastamento dos aeroportos aos centros urbanos e dos aeroportos entre si, reduzindo os processos de agregação.

06.   Quanto à  acrescida emissão de poeiras finas e ultrafinas (UFP’s): Este aspeto, frequentamente incluído no aspeto anterior (poluição em geral), considera-se individualizado por três razões      ((a) Pela atenção crescente quanto às micropartículas inaláveis (inclusive nano) e à sua gravidade  (b) Pela frequente inexistência deste controlo especializado e dos equipamentos a ele associados – o que leva a uma subavaliação do respetivo valor; (c) Pela, apesar disso, recente notícia de  determinações realizadas em Lisboa e em conexão com o movimento aéreo: veja-se a notícia recentemente (este mês) incluída no local da FCT da UNL e  rapidamente reproduzida nos meios de comunicação social escrita e cujo 1º período seguidamente se reproduz: “Entre julho de 2017 e maio de 2018, procedeu-se pela primeira vez à avaliação dos níveis de concentração de partículas ultrafinas (UFP) presentes no ar nas imediações do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. O estudo, desenvolvido no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente (DCEA) da FCT NOVA e no Centro de Investigação CENSE, conclui que pessoas que trabalham, vivem ou passam uma quantidade considerável de tempo perto do aeroporto estão expostas a elevadas concentrações de UFP, o que constitui à partida um risco considerável para a sua saúde.”
Certamente que este último trabalho é do amplo conhecimento da APA e por isso evita-se desenvolvê-lo no âmbito deste parecer. É também sabido que o sul do País é frequentemente sujeito a uma “invasão” de UFP’s de origem saariana que atingem a península de Setúbal e em menos grau Lisboa, protegida pelo estuário -mas o mencionado  estudo da FCT/UNL é, a conhecimento do exponente, o primeiro a correlacionar a dimensão polutiva com o tráfego aéreo, com manifesta congruência – e, por isso, relevante para o presente contributo escrito.

07.   Quanto aos efeitos de revolvimento do leito do estuário
O presente comentário interessa tanto ao projeto Montijo ou Alcochete, no tocante a aeroporto e acessos,  como a qualquer outro empreendimento que se pense para o estuário  do Tejo e que possa implicar dragagens significativas, como por exemplo no que se refere a um terminal de contentores. É do conhecimento geral que as indústrias químico-adubeiras, hoje históricas, que funcionaram nas margens sul (Barreiro) e norte (Póvoa de Santa Iria, foz do Trancão) do Tejo utilizaram, desde o sec XIX, pirites do Alentejo como fonte de enxofre. As pirites do Alentejo contem pequenas quantidades de arsénio, pelo que seria de esperar que se tivessem criado, ao longo de mais de um século e apesar das limitações em unidades mais recentemente construídas ou a estas conexas, algumas zonas de concentração de arsénio no estuário. Nos últimos anos do decénio de 70 ou primeiros de 80 a Marinha efetuou diversos levantamentos de poluentes nas águas do Tejo (recorda-se, com dúvidas,  o nome de um Comandante Ataíde como ligado a esse levantamento) tendo-se constatado a existência de uma concentração de pesticidas muito localizada na parte leste do estuário, que se relacionou com atividades agrícolas no Ribatejo, mas com ( e ainda bem) surpreendente ausência de arsénio. Admite o ora exponente que a APA tenha tido acesso a esse levantamento histórico, sendo certo que pessoalmente o viu e leu nesses verdes anos, mas que não o reteve. Falou-se então na existência no estuário de “algas vermelhas”, que teriam um efeito fixador / depurador. Porém, sem por em causa a existência das referidas algas ou o papel que lhes é atribuído, é opinião do exponente que tal efeito se deve mais à afinidade dos aniões contendo As para o ião férrico, conduzindo a compostos insolúveis que precipitarão no leito do rio, “limpando” a fase líquida sobrenadante. É, por isso, recomendável que em qualquer operação que, como referido, envolva um remeximento de fundos, quer na margem norte como na margem sul do estuário,se controlem as condições respetivas por forma a evitar qualquer reversibilidade (mesmo se  improvável) do processo de fixação. 

08.   Quanto à alteração de “habitats” da avifauna (e outros impactos na fauna e flora estuarina)
Conhecem-se as recentes divergencias com a UE no que respeita à posição de Portugal na preservação e acolhimento dos “habitats” e considera-se este como um dos aspetos mais sensíveis e agravados pela instalação de um aeroporto no Montijo ou Alcochete. Mais uma vez se considera desnecessário referir à APA a importância desse facto, ou insistir na citação da quantidade e nas espécies  de aves que utilizam o estuário nas suas migrações e que nele nidificam e  estabelecem.  São dados evidentes, que caem na competência e responsabilidade da APA e cujo valor lhe fica confiado, como o futuro confirmará.
Discorda-se, porém, da opinião recentemente  ouvida (10 de setembro, Noticiário das Sete da SIC Noticias) e emitida pelo representante de uma associação ambientalista “de que as aves  acabam por se habituar” invocando que tal se deu no relativo ao impacto ambiental da Ponte Vasco da Gama. Referiu-se já acima que as situações não são comparáveis: um trajeto filiforme preso à superfície pode dividir o estuário mas não é idêntico a um perímetro fixado e que compete no próprio espaço aéreo, com frequências, dimensões e características distintas da atual BA6.
E tanto é assim que a ANA anunciou já e até mapeou  a aquisição de antigas marinhas para o “realojamento de aves” – o que demonstra o conhecimento dos efeitos nefastos que o aeroporto possa traduzir para a avifauna, mas não certifica que esta (a avifauna) aprove e aceite os novos territórios que lhe possam ser “oferecidos”  em troca – situação ridicularizada por diversos naturalistas nos MCS (meios de comunicação social) formais ou informais. É uma tentativa onerosa e problematicamente remedial que revela a percepção dos danos e a astúcia que a visa  antecipar e que, se a obra for realizada, o decorrer do tempo e a manifestação dos efeitos eventualmente comprovará o ou não – só que então, existindo,  se tornarão fatuais e irreversíveis.
Mas não apenas a avifauna será parcialmente atingida. A margem sul do Tejo e a área poente da zona de mouchões detem uma fauna e flora próprias (moluscos, algas, etc) que a estrutura do aeroporto e acessos potencialmente altera e afeta. E as atividades fluviais remanescentes, furtivas ou não, como os mariscadores e pescadores locais , serão igualmente tocados.
Pela sua especificidade, o risco do “bird-strike” é separado da lesão ambiental que resulta da afetação de habitats e é seguidamente abordado.

09.   Quanto aos riscos inerentes à segurança aeronautica, incluindo o “bird strike” ou BASH:
Minimiza-se esse risco e até se dirá (como sucede com outros aspetos só parcialmente enumerados, como a instação do pipeline de fuel-jet) que são temas que dizem respeito a complementos construtivos ou a aspetos de segurança aérea que estão fora de uma avaliação ambiental, como a da presente audição pública. Mas se isso pode ser verdade para certas infraestruturas do projeto não o é para uma questão que evidentemente entra no  ambiente e natureza.
Considere-se dede já a própria designação que é adotada e que contém, além do vocábullo “strike” o vocábulo “bird” (como se diria na sua tradução em Português de “choque com aves” ou “risco aviário”, termo este que se repudia pela sua conotação corrente com estabelecimentos de criação e abate) – e se o “strike” pode ser chamado ao campo da segurança aérea, o “bird” é genuinamente consequenccia de uma realidade ambiental inegável e que lá está com os seus “habitats” e voos migrantes.
Chamar-se-á então e novamente à questão o debate ambiental que se desenvolveu em torno da Ponte Vasco da Gama e do seccionamento de “habitat” que motivou e que leva a reacender o já referido no segundo período do ponto anterior, porque se  voltará a pretender comparar o incomparável. O fluxo regular de veículos através da ponte (com todos os erros de previsão territorial, de incompletude e de localização  que lhe assistem e que o tempo vai evidenciando) é um fenómeno de superfície, com uma certa regularidade e  que nada tem a ver com o fluxo de aterragens e descolagens que se associará ao tráfego aéreo e a um espaço localizado como polígono e não estendido como linha divisória e permeável (supra ou infra). Salvo em acidentes graves, pontualmente localizados  e geralmente com nefastas consequências, os veículos automóveis não levantam voo.
Mas não se deve descurar este efeito. Nem todos terão a sorte (e a coragem pessoal do piloto) na circunstância do  recente avião russo que, após “bird strike”, aterrou num campo de milho, nem todos os rios  podem propiciar uma reprodução da amaragem que consistiu no  “milagre do Hudson”. Reportando, de forma certamente incompleta porque limitada a  factos e evidências recentes ocorridos em território nacional e que foram motivo de notícia,  mencionar-se-ão os seguintes: Montijo, avião militar, noticiado a 20 de janeiro último em algarvedaily news; Porto, United Airlines, aterragem de emergencia após BASH,  noticiado a 6 de Agosto; Terceira-Açores, SATA, aterragem de emergência por danos, a 12 de Agosto.
Mas, no que se refere a bird-strike, a BA6  i.e. o Montijo tem já um passado com mortes militares e civis que NUNO MOREIRA, ele próprio sensibilizado por mais um desastre aéreo na referida base (de que apenas insinua tal causa pela continuidade do relato),  aborda  na sua postagem de 12 Julho de 2016  no “Grupo de Ex-militares do CIAAC – Grupo Publico”, no Facebook, que aqui, com a devida vénia, se reproduz pelas datações e ocorrências que menciona:
Acedido a 12 de setembro de 2019:
Transcrição:
Nuno Moreira
12 de julho de 2016
Ontem não me apeteceu escrever sobre o fatídico acidente na BA6...
Senti-me de luto...
Triste por ver 3 heróis (dois Oficiais e um Sargento) "partirem" de uma forma tão estúpida...
Passei todo o dia a tentar perceber o que teria acontecido, tendo em conta as diferentes versões que iam chegando a público. Logo de início as versões eram contraditórias. Uns diziam que o acidente se dera na descolagem e outros diziam que se dera na aterragem... Vendo as poucas imagens que existem sobre o acidente e tendo em conta a posição e localização da aeronave, construí a minha própria teoria (que por enquanto é só minha).
E tudo isto levou-me a viajar no tempo e recuar até 1980, data em que me lembro de ter havido um acidente com uma aeronave FIAT G91 R. Recordo-me que era final de ano escolar (Junho talvez) quando todos na escola ouvimos dizer que tinha caído um avião e frente ao cemitério... Coisas de putos, lá fomos todos a correr ver o avião... Claro que quando chegámos junto ao posto da Polícia ninguém passou... Soubemos mais tarde que nesse acidente tinham morrido dois civis (avó e neto) que se encontravam na casa onde o avião caiu. O mesmo terá passado a pouca distancia do telhado da escola primária junto ao cemitério e que poderia ter sido uma tragédia muito maior. As vitimas foram encontradas nos escombros e, segundo relatos, a avó tinha o neto embrulhado em si, como que se tivesse a tentar protegê-lo da morte. No dia seguinte foram dar com o cockpit (carlinga) do avião dentro do cemitério, para onde foi projectada após o impacto. A tripulação ejectou-se da aeronave, tendo ido cair no rio.
Em 1988, 16 de Junho para ser mais preciso, caiu outro FIAT G91 R um pouco antes da Escola Secundária do Montijo (actual Escola Secundária Jorge Peixinho), mesmo por trás da vivenda do Américo Rumor. Mais uma vez um bafo de sorte fez com que não houvesse uma tragédia pois o avião caiu a menos de 500m da escola. Os tripulantes (2) ejectaram-se do aparelho, tendo um sido arrastado para a maré e outro tendo caído em cima das árvores do parque municipal. Neste acidente ocorreu um morte civil de uma senhora idosa que se encontrava no local da queda e que morava a escassos metros dali. Segundo a versão oficial da FAP, ambos os aviões tinham sido alvo de "bird strike", ou seja, de uma colisão com bandos de aves que danificaram irremediavelmente o motor dos aparelhos.
Em 29 de Abril de 1992 dá-se um 3º acidente com uma aeronave no Montijo, desta vez com um A7 Corsair II, também ele vitima de um "bird strike" quando regressava de uma sessão de tiro AR-SOLO no CTA. Segundo relatos, o piloto ainda tentou voar até à BA6 mas o aparelho acabou por se despenhar antes de chegar ao perímetro da base. Neste acidente, para além do piloto, morreu também um civil, pastor que se encontrava no local a apascentar o seu rebanho.
Desde os anos 40 que o Montijo convive com a aviação militar, primeiro com a Aviação Naval e posteriormente com a Força Aérea. O montijenses habitaram-se a conviver com o barulho dos reactores, das hélices, das rapadas a baixa altitude... Só não se habituaram a conviver com os riscos e as mortes que daí resultaram. Recordo-me de, quando entrei para o Exército em 1992, conhecer todas as nossas aeronaves e, por esse motivo, ter sido nomeado instrutor de Reconhecimento de Aeronaves, uma disciplina de extrema importância na Artilharia Antiaérea Portuguesa.
Deste o Chipmunk (avião de instrução), do Epsilon TB30, do Cessna FTB (puxa-empurra), do Casa C212-Aviocar, do Hercules C-130,do P3-Orion, do FIAT G 91 R, do A7 Corsair, do Alpha Jet, do Falcon 20 e 50, do Allouette III e do SA-330 PUMA, todos eles eu conseguia identificar pelo barulho...
Depois vieram os F-16 e últimamente os EH-101 Merlin e os Casa C-295M.
Presto aqui a minha mais sentida homenagem à ESQ.501 (Bisontes) e a todos os seus elementos, apresentando as minhas condolências a todos aqueles que, de qualquer forma, tinham uma ligação com os militares que nos deixaram ontem.
Nenhuma descrição de foto disponível.                 
Fim de transcrição
Por estas e por outras situaçõess  de colisão com aves, bastante mais frequentes que o geralmente relatado, um  critério de localização de novos aeroportos tem em conta a existência de habitats fixos ou temporários (migratórios) de aves, procurando situar estes  longe de zonas de frequente movimento de avifauna e de potencial colisão. 

110.   Quanto à  distribuição geográfica comparada  das estruturas aero-portuárias.
Por todas estas razões compreende-se a instalação crescente de novos aeroportos longe de áreas urbanas e que certamente recomendam que o Aeroporto de Lisboa seja olhado como exceção, como “navio dentro da cidade” para usar o título simbólico da obra de André Kedros, certamente a merecer a rápida e completa substituição ou a colocação em memória de eficácia limitada como Croydon ou mesmo Orly. Mas isso não significa substituí-lo por um outro aeroporto meramente trans -tejo e tão apenas trans-tejo que, além de várias aproximações frustadas, provocou o conhecido engano do voo IB075 da manhá de 18 de Julho de 1985 que aterrou no Montijo, rolou na pista e “ficou admirado” por  não encontrar o carro “follow me” na “taxi-way”.  A proximidade de centros populacionais significativos como o Montijo, Moita (Baixa da Banheira), Barreiro (Lavradio) acresce com a insegurança, a incomodidade e o detrimento ambiental quando deveriam ser concedidas condições de afastamento como se verifica noutras capitais ou importantes centros urbanos europeus. Tanto como a desvalorização da propriedade esta aproximação e densificação do uso (e abuso) do espaço aéreo é uma desvalorização da qualidade de vida para a população da cintura urbana de uma capital e do ambiente melhorado que reclama e a que tem direito.
Cidades com estruturas aeroportuárias relevantes  tendem a resolver o problema de duas formas complementares: estabelecendo uma rede de aeroportos periféricos mas também, e sempre, procurando afastar os aeroportos das cidades como  centros populacionais significativos por estes servidos.  Assim Londres (com os 24 km a Heathrow mas 46 a 48 km a Gatwick, Stansted ou Luton mas já 69 km a Southend), Paris (com os 18 km a Orly mas 30 km a Roissy, 90 km a Beauvais e 147 km a Vatry), Estocolmo (com 37 km a Arlanda mas 100 km tanto a Skavska como a Västeras).
Uma breve palavra sobre acessos: em todas essas cidades, dotadas de vários  aeroportos, manteve-se a preocupação de estabelecer uma rede viária que permitisse o acesso ao centro urbano servido sem congestionamentos e “caminhos críticos”. Os planos exibidos não aclaram a congruência desses acessos com a dimensão dos fluxos esperados e as linhas de recurso  alternativas em casos de atascamento. Outro ponto crítico a considerar.
Personalidades mais abalizadas que  o exponente em coisas de aviação, têm declarado publicamente a transitoriedade da solução Montijo ou Montijo / Alcochete, reduzindo o seu tempo de vida útil face ao oficialmente anunciado. A propósito,  louva-se o exponente nos correspondentes pareceres vindos a público e/ou constantes do sítio “Mover a Montanha” ( http://www.moveramontanha.com ), que sobre o assunto se debruçou em diversos artigos (com fácil acesso por simples busca interna sobre a palavra “aeroporto” ). Destes destaca os 4 artigos já publicados dos 5 anunciados  sob o título geral “Portela + Montijo – Uma solução sem futuro”,  subscritos por Carlos Matias Ramos, em coautoria que inclui  outros engenheiros e oficiais de elevada patente da FA e publicados em 15 e 24 de junho e 3 e 18 de julho, todos de 2019.
Podendo ser o Montijo uma solução de horizonte mais limitado,  o exponente, como “tax-payer” que o é, interroga-se  se tanta incomodidade e tantos danos ao ambiente e mesmo tanta pressa face ao tempo que se dispôs para fazer algo nesta matéria não poderiam ser supridos por uma solução existente, que lá está parcialmente realizada e  paga direta ou indiretamente por todos nós. Essa solução, podendo beneficiar um “hinterland” carente, solicitando certamente um acesso vertical rápido e moderno a Lisboa e a Faro, atraindo uma transversal necessária para uma região ainda dela desprovida, propiciando vida mais longa e expansível à própria obra e tendo reflexos promocionais trans-fronteiriços, tem como nome Beja … e daí a questão se Beja não teria sido DESDE JÁ a melhor opção. Lamenta-se que o PM, com esta audição ainda aberta, declare não haver Solução B, o que  pode genericamente ver-se  como recusa a qualquer outra solução bem como referência literalmente simbólica  a uma  Solução BEJA, que se aplaudiria com entusiasmo pela visão mais ampla de futuro que lhe poderia ficar associada.  E, por isso, limita-se o ora exponente aos aspetos ambientais relativos aos “malefícios do Montijo” (ou de Alcochete) que são o objeto desta consulta, sem mais juntar aqui – mas rosnando para dentro “não esquecer” [1].

CONCLUINDO:

1.      i POR TODOS OS ARGUMENTOS ADUZIDOS QUE TRADUZEM UM IMPACTO AMBIENTAL NEGATIVO, MANIFESTA-SE O EXPONENTE CONTRÁRIO À REALIZAÇÃO DO PROJETO AIA 3280 Aeroporto do Montijo e respetivas Acessibilidades, em que é proponente a ANA – Aeroportos de Portugal, S.A., sendo licenciador o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas.

2       PORQUE CONSIDERA QUE UMA LOCALIZAÇÃO EM ALCOCHETE DO MESMO PROJETO APENAS LEVEMENTE ATENUA MAS ESSENCIALMENTE NÃO SUPRE OS INCONVENIENTES AMBIENTAIS DESTE, ESTENDE A ESSA LOCALIZAÇÃO A POSIÇÂO ASSUMIDA NO PONTO ANTERIOR.


3.  3. RECOMENDA QUE SEJAM DESDE JÁ INICIADOS OS ESTUDOS RELATIVOS Á REALIZAÇÃO EM E PARA BEJA DE FACILIDADES PRINCIPAIS QUE APROVEITEM. ADAPTEM E AMPLIEM O EXISTENTE PARA, TAMBÉM DALI, PERMITIREM DESCONGESTIONAR A MOVIMENTAÇÃO AEROPORTUÁRIA DOS AEROPORTOS  DE LISBOA E FARO.


4.    4 RECOMENDA AINDA QUE SEJA ESTABELECIDA UMA ESTRUTURA PERMANENTE DE AVALIAÇÂO E REMEDIAÇÃO DE TODOS E QUAISQUER EMPREENDIMENTOS QUE POSSAM AFETAR O ESTUÁRIO DO TEJO, COMO EXEMPLO SEM PAR NO OCIDENTE EUROPEU.

lavradio, 12 de setembro de 2019


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[1] Sem impedimento de,  no blogue www.sai-tedaqui.blogspot.com que o respondente igualmente subscreve, poder exprimir opiniões de caráter  não-ambiental sobre a mesma obra e sua tramitaçãp processual e de nele poder divulgar 
 “pro memoria” futura a tomada de posição que, nas suas 8 páginas,  aqui fica assumida -o que só fará após o fecho calendarizado  desta consulta pública (19 setembro corrente), porque a respeita e considera como manifestação legítima e independente  de audição popular em tema que a todos interessa.

Fim de publicação do parecer"

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NOTA FINAL [A]

[N O protesto de Narita foi muito violento, à moda nipónica, com grupos extremistas radicais ameaçando a primeira aterragem que no novo aeroporto tivesse lugar.. Por isso o aeroporto estava carregado de força policial e a TV acompanhava a situação pronta a entrevistar o primeiro passageiro "ocidental" que viesse nessa viagem. E foi assim que um pequeno grupo lusitano do PAIP,  hospedado na  estação de CF de Kokura, na ilha de Kiu-Shiu,  teve a sur presa de verificar que esse primeiro passageiro ( e entrevistado) era precisamente um colega nosso, da UFA - Barreiro! Aliás bastante alto porque, dias depois, já em Tóquio, foi facílimo localizá-lo na Guinza, pela sua cabeça sobrenadante a dezenas ou centenas de japoneses. Já lá vão 40 anos ou quase...