quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Atenção ao uso de fotocópias de BI's

Por e-mail mandaram-me isto... e reproduzo o que me mandaram porque não acho que esteja mal pensado, não senhor! Atenção pois!


NOTAS: não sei mesmo a que Polícia a mensagem se refere e tenho inclusive dúvidas quanto a essa invocação não-corporizada. Tenho também dúvidas quanto à eficácia real do sistema... mas convém sempre estar"a pau" e não faz mal nenhum usar cinto quando se tem já suspensórios!

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Um regresso ao tema do Danúbio (3)

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A questão é a seguinte: (a) há um Danúbio, vencedor sem merecimento, estribado no ambiente aristocrático que lhe deu berço e o protege; (b) há um Breg, imerecida mas definitivamente derrotado pelo vencedor sem merecimento; e (c) há ainda um Brigach, que não demonstra qualquer apetência, que ninguém jamais defendeu (ainda que tenha mais mérito que o vencedor sem merecimento), que não chega sequer a ser derrotado porque nunca se viu (nem aceite foi) como contendente.
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E digam-me que não há pessoas como os rios?
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

História curta 4: A bergamota

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Do Barreiro a Lisboa são 40 km. Fazem-se depressa, se não houver fila na ponte!
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Quando saíram do Barreiro no Fiat 600 (ainda havia, nesse tempo) ele não sabia sequer o que era uma bergamota! Explicaram-lhe...
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A meio do caminho, passado o Coina, ele dava já bitaites sobre a taxonomia das bergamotas!
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E, quando chegou a Lisboa, com orgulho contava como tinha dirigido uma colheita inteira de bergamotas, como impusera a melhor forma de as colher e avultara o lucro que com elas tinha obtido.
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Há pessoas assim, disse a lagarta à Alice. E aspirou voluptuosamente o narguilé.

LdS
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domingo, 28 de janeiro de 2007

Um regresso ao tema do Danúbio (2)

A nascente do Danúbio, em Donaueschingen...

A nascente do Breg, em Furtwangen
(de que normalmente o Danúbio seria um mero riacho afluente)

O Palácio dos Fürstenberg em cujo parque a primeira está... e a segunda não!
Ou seja: até nas nascentes dos rios há que ter sorte!
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A questão das "duas fontes" já aqui falada em 10 de Fevereiro de 2006:
Como não poderia deixar de ser, Claudio Magris também a começa a abordá-la no segundo texto da sua obra. E fá-lo do seguinte modo:


"Donaueschingen contra Furtwangen
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Aqui nasce o ramo principal do Danúbio, diz a tabuleta junto à nascente do Breg. Apesar desta declaração lapidar, o debate multissecular acerca das fontes do Danúbio continua activo e é até responsável por vivas disputas entre as cidades de Furtwangen e Donaueschingen. Para complicar as coisas surgiu. além disso, recentemente, a aventurosa hipótese sustentada por Amedeo, considerado sentimentólogo e secreto historiador de erros, segundo a qual o Danúbio nasce de uma torneira. Sem pretender resumir a biblioteca milenar consagrada a este tema, que vai de Hecateu, o predecessor de Heródoto, aos fascículos da revista "Merain" nos quiosques, basta lembrar as eras para as quais o Danúbio era de nascente desconhecdida como o Nilo, em cujas águas de resto se espelha e se confunde, senão "in re" pelo menos "in verbis", devido às comparações e paralelos estabelecidos entre os dois rios, sucedendo-se secularmente nos comentários dos eruditos.
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Sobre as suas nascentes incidiram as pesquisas e as conjecturas ou informações de Heródoto, Estrabão, César, Plínio, Ptolomeu, Pseudo-Skymnos, Séneca, Mela, Eratóstenes: as nascentes são presumidas ou indicadas como localizando-se na Floresta Hercínia, perto dos Hiperbóreos, em Pirene, no país dos Celtas ou dos Citas, no monte Abnoba, na terra hespéria, enquantro outras hipóteses aludem á bifurcação do rio, a um braço que desagua no Adriático e a divergentes descrições dos estuários do mar Negro. Se da história ou do mito, que faz descer os Argonautas ao longo do Danúbio até ao Adriático, passarmos às eras pré-históricas, o reconhecimento tacteia e perde-se no gigantesco, numa fragorosa verificação do imenso, numa geografia titânica: o "Urdonau" no Oberland de Berna, com as suas fontes nos actuais picos de Jungfrau e Eiger, o Danúbio primordial no qual se precipitavam o Ur-Reno, o Ur-Neckar e o Ur-Maine e que a meados do Terciário, no Eoceno, entre há sessenta e vinte milhões de anos, desaguava mais ou menos onde fica hoje Viena, num golfo de Tétis, a mãe oceãnica originária, no mar sarmático que cobria toda a Europa sul-oriental.
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Pouco sensível ao arcaico e aos seus prefixos indo-germânicos, Amedeo passa pelo Urdonau e introduz-se antes na disputa contemporânea entre Furtwangen e Donaueschingen, duas pequenas cidades da Floresta Negra a 35 quilómetros de distãncia uma da outra. Oficialmente as nascentes do Danúbio encontram-se, como se sabe, em Donaueschingen, cujos habitantes garantem a sua originalidade e autenticidade em termos legais. Desde os tempos do imperador Tibério, a fontezinha que jorrava da colina era celebrada como a nascente do Danúbio e, além disso, em Donaueschingen encontram-se os dois rios, o Breg e o Brigach, cuja confluência constitui (segundo a opinião corrente, confirmada pelos guias turísticos, pelos gabinetes oficiais e pelos provérbios populares) o início do Danúbio. O "incipit" do rio que cria e abraça a Mitteleuropa é parte integrante da antiga residência principesca, juntamente com o castelo dos Fürstenberg, a biblioteca da corte com os seus manuscritos da "Canção dos Nibelungos" e do "Parsifal", a cerveja também designada pelo nome dos príncipes do lugar e os festivais de música que fizeram a fama de Hindemith.
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"Hier entspring die Donau", aqui nasce o Danúbio, diz a tabuleta no parque dos Fürstenberg em Donaueschingen. Mas a outra tabuleta que o doutor Ludwig Öhrlein mandou colocar na nascente do Breg, precisa que esta última, entre todas as concorrentes fontes do rio, é a mais distante do mar Negro, do qual dista 2888 quilómetros - mais 48,5 do que Donaueschingen. O doutor Öhrlein, proprietário do terreno de onde brota o Breg, a poucos quilómetros de Furtwangen, travou uma batalha de papel selado e certificados contra Donaueschingen. Trata-se de uma pequena e tardia repercussão da Revolução Francesa na atrasada "miséria alemã", o burguês de profissão liberal e pequeno proprietário que se levanta contra a nobreza feudal e os seus brazões. Os valentes burgueses de Furtwangen cerraram fileiras atrás do doutor Öhrlein e todos recordam o dia em que o burgomeste de Furtwangen, seguido por uma comitiva de concidadãos, despejou com desdém, na fonte de Donaueschingen, uma garrafa de água da fonte do Breg."


(continuará?)

Um regresso ao tema do Danúbio (1)

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Aos 10 de Fevereiro e 13 de Fevereiro do ano passado (2006) postei sobre o Danúbio e o velho sonho (um deles, um deles) de subir o Reno e descer o Danúbio. Hoje, ao entrar na Livraria, descubro um livro inteiramente sobre o Danúbio, da autoria de Claudio Magris, entre nós editado pela D.Quixote e que recebeu o Prémio Princípe das Astúrias de Literatura, 2004. E em saldo!

Recordo-me ainda que, em nota à primeira daquelas postagens, prometia oportunamente traduzir o índice da obra então referida e que era "The Danube With Pen and Pencil", escrita (e ilustrada) pelo Capitão B. Granville Baker, e editada em Londres pela Swan Sonnenschein & Co., em 1911, i.e. três anos antes do começo da "mãe de todas as guerras" e 75 anos antes da 1ª edição italiana da obra de Claudio Magris (1986). Não a fiz (a tradução), como também (ainda) não fiz a descida do rio. Promessas incumpridas e sonhos inatingidos...

Pois a constatação destas falhas é útil, ao mostrar como, trocando coisas por loisas, se pode ficar arredio de imagens que se alimentaram e que se deixaram depois mirrar, em troca de alternativas, afectos e desafectos em que se deveria ter sempre figurado a probabilidade, mesmo que remota, de um perecimento. O "achado" do Magris, que certamente vou devorar, trouxe à minha mesa, para além da gata friorenta de nome afegão ("Tora-bora") que se aconchega sobre a impressora, dois relevantes itens do longo rol dos débitos contraídos e não saldados. Só se pode afirmar ter tido o que efectivamente se teve. Tudo o resto não passa de bolas de sabão do irrealizado.

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(continua)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Georges Moustaki: Le métèque


"Avec ma gueule de métèque
de Juif errant, de pâtre grec
et mes cheveux aux quatre vents;
avec mes yeux tout délavés
qui me donnent l'air de rêver,
moi qui ne rêve plus souvent;
avec mes mains de maraudeur
de musicien et de rôdeur
qui ont pillé tant de jardins;
avec ma bouche qui a bu
qui a embrassé et mordu
sans jamais assouvir sa faim.

Avec ma gueule de métèque,
de Juif errant, de pâtre grec
de voleur et de vagabond;
avec ma peau qui s'est frottée
au soleil de tous les étés
et tout ce qui portait jupon;
avec mon cœur qui a su faire
souffrir autant qu'il a souffert
sans pour cela faire d'histoires;
avec mon âme qui n'a plus
la moindre chance de salut
pour éviter le purgatoire.

Avec ma gueule de métèque,
de Juif errant, de pâtre grec
et mes cheveux aux quatre vents;
je viendrai, ma douce captive
mon âme sœur, ma source vive,
je viendrai boire tes vingt ans.
Et je serai prince de sang,
rêveur ou bien adolescent
comme il te plaira de choisir,
et nous ferons de chaque jour
toute une éternité d'amour
que nous vivrons à en mourir.

Et nous ferons de chaque jour
toute une éternité d'amour
que nous vivrons à en mourir."

Georges Moustaki


quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Cascavel (ou o esquecimento de muita gente...)


"Quando se pega numa cascavel pelo rabo deve-se ter muito cuidado com a outra ponta do bicho."
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Provérbio do Oeste, EUA (1)
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(1) Esta indicação de "EUA" é mesmo necessária aqui para evitar confusões com a A8 ou a linha das Caldas
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Um texto para reflectir, do teólogo Leonardo Boff

Com as devidas vénia + autorização para publicar, faço postagem do seguinte texto da autoria de Leonardo Boff, Teólogo:
O Corão contra "armas inteligentes"

É inimaginável o manto de tristeza e sofrimento que se estende sobre muitos povos, vítimas de guerras como na Africa e no Oriente Médio. Todas as guerras são estúpidas. Mas especialmente estúpida é a guerra contra o Iraque, baseda na mentira de um Presidente que manipulou a lamentadada ingenuidade do povo norte-americano, do qual 80% dos adultos, segundo o National Geographic, sequer sabe onde fica no mapa o Iraque. Como disse o cineasta Michael Moore numa carta aberta ao Congresso e ao povo norte-americano: "é uma guerra perdida porque jamais teve o direito de ser vencida". O Presidente Bush em sua arrogância crédula e o Pentágono em sua confiança infantil nas "armas inteligentes" asseguram que vão ganhar a guerra. Nunca a ganharão, porque contra as "armas estupidificadas" atiram-se versículos do Corão e se enviam todo dia resistentes em ataques suicidas. Vale para o Iraque o que o futurólogo Herman Kahn dizia da guerra contra o Vietnam: "perdemos a guerra porque não dá para vencer um povo que contra tanques recita poesias". O povo iraquiano é orgulhoso de sua cultura, uma das mais antigas da humanidade. Por esta razão 71% dos iraquianos querem os EUA longe do Iraque e 61% apoia os atentados dos resistentes.
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Sempre me tenho perguntado: o que se passa no coração e na cabeça destes centenas de homens-bomba que cada dia entregam suas vidas? Deve haver ai uma "mística" poderosa que os convence considerar a morte mais preciosa que uma vida de humilhação. Foi nesse contexto que acabei, por acaso, relendo um livro antigo do meu tempo de estudante na Alemanha:"Cartas de condenados à morte, vítimas do nazismo", com um mpactante prefácio de Thomas Mann. É um comovedor testemunho da devastação hitlerista da Gestapo nos vários países em que atuou. Curioso que, independente e ser ateu ou crente, nota-se em cada condenado uma convergência notável: vê um sentido transcendente em sua condenação e revela a esperança de que esta morte violenta não será em vão. Quase ingenuamente alguns dizem:" é formoso morrer na esperança de um futuro melhor para a humanidade" ou "creio que depois desta guerra começará uma vida de felicidade para todos". Não foi isso que efetivamente veio pois a guerra quente continuou sob a forma de guerra fria.
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Especialmente ilustrativa é a carta de uma jovem belga de 24 anos: "Não há morte triste quando se tem o consolo de princípios. A causa que defendo é justa e sagrada. Digam às minhas amigas que soube aceitar meu destino com calma e que me mostrei digna até o fim. Sempre mantive minhas convicções e continuei sendo atéia". Outra companheira sua, filósofa e poetisa, deixou escrito:"Morro para dar testemunho de que se pode amar loucamente a vida e, ao mesmo tempo, aceitar uma morte necessária". Um jovem de 19 anos se despede em carta aos pais:"Estarei sempre com vocês. Sentar-me-ei com vocês no banco do jardim. De manhã com a aurora sorrirei para vocês e no ocaso acenarei com uma saudação. Que o amor e não o ódio domine o mundo". A Terra seguramente não é a sede da felicidade e da perfeição. Mas o sacrifício dos que assumem corajosamente a morte, mostra que nem tudo vale neste mundo. Que é injusto e perverso ocupar e arrasar um país a pretexto de impôr-lhe uma democracia que nunca foi solicitada.

Leonardo Boff

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Reza no trabalho

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De um e-mail recebido:
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"Quem não precisa de uma reza destas de vez em quando?...
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SENHOR, dai-me sabedoria para entender alguns colegas porque se me dais força, parto-lhes a tromba!!!"
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Pela oportunidade: Amen!
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segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

História curta 3: O último lugar

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Ensinaram-no, de forma quase bíblica, a procurar sempre um lugar modesto. Vir-te-ão buscar, meu filho, para um lugar cimeiro! Far-te-ão justiça!
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Obedeceu e serviu sempre os outros a partir do lugar modesto que escolhera.
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Nunca ninguém teve a mínima ideia de o ir lá buscar!


LdS
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domingo, 21 de janeiro de 2007

Coliseu do Porto (título mudado)

Texto também retirado porque falei do tema a 12 de Fevereiro de 2006 e odeio repetir-me. Recorro pois a Fernando Pessoa:

"Quando nas pausas solenes
Da natureza
Os galos cantam solenes."

E por isso me vou. Um dedal de "Bourbon", ainda que "Four Roses" não seja o meu favorito e o vá estragar com "soda", no fundo transparente de um filme da época. Falaremos disso com as violetas.
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sábado, 20 de janeiro de 2007

"A luz do 5º andar", um novo conto de Mauro C. B. Camargo

A 14 de Dezembro do ano passado (Janeiro deste ano já quase que lá vai...) postei um conto do autor brasileiro Mauro C. Camargo, que foi recebido com assinalável sucesso pelos amáveis visitantes deste blog (as estatísticas assim o dizem) . É também de Mauro C. Camargo, que já dispensa apresentação por tudo o que aqui foi então dito, o texto que hoje trago, certo de que gostarão de encontrar novamente o dinamismo da sua escrita e o ritmo certo do desenvolvimento que proporciona ao conto.

Uma boa leitura e um bom fim de semana a todos!

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A luz do 5º andar

Um conto de Mauro C. B. Camargo

cérbero@terra.com.br

A toalha branca e uma rosa vermelha solta na mesa, como se ali estivesse meio ao acaso. O cd da Maria Rita, na música certa, apenas esperando um leve toque no controle remoto. Um malbec devidamente uniformizado, com o guardanapo branco, as taças, os pratos, os talheres...

Em ordem, no balcão de granito o azeite, a tábua com alho picado e galhos de coentro, o pote com o creme de leite e 200 gramas de salmão defumado, cortado em pequenas tiras. As azeitonas e meia taça de vinho branco. O penne, o saleiro, a pimenta do reino e, no fogão, a panela alta com água já aquecida.

Os últimos redemoinhos de fumaça do incenso de sândalo ainda se perdiam na meia luz do apartamento e, do outro lado da janela da cozinha, lá na outra rua, uma luz acende no 5.o andar.

Fecho mecanicamente a persiana, como se virasse uma página do passado. Rogério não demora. 21:00 horas.

Procuro o espelho do hall e não me surpreendo com quem vejo: uma fugitiva, de um 5.o andar, de uma rua ao lado.

No dia exato, na hora exata dos meus 32 anos, quero estar com Rogério, nua em seus braços, aos espasmos, fazendo aquele ar de incredulidade que ele tanto gosta quando gozamos juntos, e não vou pensar na luz do 5.o andar, que poderá ainda estar acesa. Olho meus olhos bem de perto, quase tocando a ponta do nariz no espelho e tento ver se há algum disfarce na minha vontade. Impossível! Há muito deixei de acreditar nos meus olhos! O telefone desarruma repentinamente o silêncio ordenado do apartamento. Um pulo e um tremor correndo pelo corpo:

— Sara, vou atrasar um pouco...

Acho que não ouvi a explicação. Ele ia atrasar, por que saber o motivo? Bastava saber que ele ia atrasar. Outro incenso. Um pouco masculina minha maneira de esperar Rogério, como se a ordem estivesse intencionalmente alterada. Mas ele adorava, era o primeiro que adorava minha autonomia, minha independência, e jamais dissera: você parece o homem do casal!

Nos conhecemos no trânsito, ou melhor, no estacionamento do shopping. A princípio pensei que era gay, com aquela cara vermelha, pendurado numa chave de roda, tentando soltar as porcas do pneu furado, suando como um peão de obra. Sorri da sua falta de jeito e, como simpatizo com as “colegas,” resolvi dar uma força. Até pensei em usar o simples artifício de ficar em pé na chave de roda, mas ele se sentiria meio ridículo se eu conseguisse muito fácil, por isso, antes perguntei se o carro tinha seguro:

— Você não vai chamar o seguro apenas para um pneu furado?

— Se você prefere ter um enfarto...

Ele achou aquilo ridículo, bem coisa de mulher, mas, aceitou. Quando o mecânico, com um sorriso debochado no canto dos lábios, terminou o serviço e pediu para ele assinar uma nota, fiquei surpresa com a pergunta dele, à queima roupa:

— Que horas eu te pego para o jantar?

No tempo que esperamos o mecânico eu já havia colocado em dúvida minha opinião inicial e descoberto que ele era arquiteto, que nunca se ligara muito em carros e que havia mudado para cidade naquela semana.

Resumindo: transamos loucamente naquela mesma noite. Tudo bem, nenhuma novidade nisso, a não ser pelo fato de termos transado antes do jantar, quando eu passei no apartamento dele para apanhá-lo, já que ele não era do tipo que se importava em ir pegar a mulher. Quem mandou ele me esperar com aquela camisa branca desabotoada e com o Fahrenheit invadindo todo o ar que eu respirava? Na hora eu pensei que seria apenas mais uma boa transa, uma noite especial para uma quarta-feira, mas, três meses se passaram e as noites especiais têm se repetido nas quintas, sextas, segundas...

Quanto tempo ele ia atrasar mesmo?

Acendi o cigarro e apaguei-o, de imediato. Havia dito que ia parar e eu jamais fui de voltar atrás no que dizia. Foi engraçado eu pensar isso, ao mesmo tempo que abria delicadamente a persiana da cozinha e olhava novamente para a luz do 5.o andar, como um reflexo condicionado da paixão. Eu nunca voltava atrás?

Estava apagada e, sempre que estava apagada, alguma coisa se apagava aqui dentro também. Era como se o passado pudesse ser desconectado num simples interruptor. Fechei a persiana, comi uma azeitona, bebi um gole do vinho branco, como se o passado, a azeitona e o vinho, tivessem a mesma importância naquela noite, especial.

Outro susto, o telefone toca novamente e eu penso em não atender. Sabe lá se não é um paciente em crise existencial, um parente querendo dar os parabéns, ou... é, ou...

— Só mais um pouco querida, encontrei o ...

Eu não quero explicações. Além do mais, jamais darei uma de “mulherzinha” que vai esperar chorosa o marido atrasado e distraído. Nunca liguei por ter que esperar alguém, pelo contrário, as esperas são momentos raros que posso abrir um livro. Livros, cheios de vidas, que clamam angustiadas que tenhamos algum tempo em lê-las, em devassá-las.

Abro meu Quintana e leio: sempre que chove, tudo faz tanto tempo... Ainda não havia percebido que algumas gotas de chuva lacrimavam na janela. Por instantes julguei o Quintana um grande sacana, pela precisão aritmética medida no seu devaneio. Virei a página e pareceu que, de repente, um abismo tragou-me assustadoramente. Faltou-me a luz, o ar, a sanidade. Foi o bilhete achado, ou minha reação tão feminina diante do bilhete, dobrado em dois, com uma pétala de rosa dentro?

você tem o beijo mais macio que conheço

tuas mãos tocam meu corpo como se eu fosse uma pétala

Aquilo que descia pelo meu rosto não podia ser uma lágrima. Não podia estar “fazendo tanto tempo” em meu rosto. Quintana que me perdoasse!

Sim, chorei. Chorei como qualquer mulher chorona choraria, com o livro apertado ao peito e um pedaço do passado amarrotado dentro dele, como se eu pudesse sufocá-lo, apenas. Por que? Por que tinha que ser daquele jeito? Por que tinha que ser tão complicado? Era muita coisa pra enfrentar e ter que revelar meus medos, minhas inseguranças. Por que Rogério não chega logo?

Não, agora ele não pode chegar. Não ser mulherzinha é uma coisa, mas esperar um homem especial como o Rogério com a maquiagem borrada não era possível. Lavei o rosto com água fria, suspirei fundo e, pronto, hora de recomeçar! Troquei de roupa, aquela estava irremediavelmente contaminada de passado. Troquei tudo. Tirei a calça e procurei uma saia. Tirei a calcinha preta fio dental e coloquei a branca transparente. Tirei o sutiã e fiquei sem, sabia que ele adorava o leve balançar dos meus seios, perdidos dentro de uma roupa folgada, e que ficava procurando ângulos onde pudesse espiá-los, descaradamente. Um pouco mais de Tressor, um pouco mais de batom, uma blusa solta.

Ainda era fácil vestir aquele corpo em perfeito estado. 1.70 m, 55 kg, cabelos negros caindo pelos ombros, levemente cacheados e contendo no seu interior um par de olhos verdes, perfeitamente mentirosos. A pele, já um pouco bronzeada para esperar o verão, mais do que à altura para aquele belo exemplar de macho que estava para chegar.

Na primeira vez, quando fui dar o beijo no rosto dele, logo na porta do apartamento, não resisti e aconteceu um dos melhores beijos que me lembro. Nossos corpos colaram imediatamente e tenho a certeza que nós dois pensamos, ao mesmo tempo, o quanto eles se adaptavam com perfeição. Parecia que nenhum espaço havia sobrado. Parecia que não houve surpresa. Ele respirou com a boca aberta atrás da minha orelha, como se já soubesse há anos que eu adorava isso, e seu hálito quente me incendiou instantaneamente. Puxou-me para dentro e bateu a porta com o pé, me abraçando pelas costas e beijando minha nuca. Loucura. Suas mãos eram adestradas por um impulso hábil e senti, com facilidade, que nele havia algo além da simples masculinidade. Vi pilhas de caixas de papelão. Vi sacolas, livros amontoados, em flashs, quadros por pendurar, vi um sofá branco, todo branco, todo lindo, nosso destino, nosso porto seguro para nos abrigar do temporal que provocávamos.

Quase duas horas depois comemos uma deliciosa meca grelhada, com camarões e saladas. Acho que podíamos ter comido no Mc Donald’s, tanto fazia. Tudo em mim já estava saciado. Tudo? Doce ilusão que o tesão injeta na jugular da vontade. Planta verdejante que brota, cresce, floresce, e morre antes mesmo que possamos tirar a primeria flor.

Naquela mesma noite fiquei um longo tempo olhando a luz acesa do 5.o andar. A impossibilidade, a irracionalidade, o carimbo da censura, o estopim curto que podia explodir minhas pontes, meus viadutos. O atalho. Eu não seria a outra!

Quantas noites só fui dormir depois que a luz apagava? Como se, desta forma, mantivesse ainda vivo algum tipo de cotidiano, que, na verdade, nunca tivemos: já escovou os dentes? Pegou água? Você costuma ter sede durante a noite... posso apagar a luz? Ainda vai ler?

Ah! O medo! Tão desalmado meliante, vigarista de primeira linha, de coração frio. Acho que por isso o medo causa tremores. Quantas desculpas achamos na vida por causa do medo! Quantos escudos, com seus brasões, símbolos de famílias fidedignas ostentados. Ah! O medo! Como pode ser mais poderoso do que aquele olhar maroto abrindo a porta para mim, com as luzes todas apagadas e sumindo logo em seguida na escuridão, depois de fechar a porta nas minhas costas, para que eu os encontrasse pelo perfume da pele? Como o medo pode ludibriar a impressão daquele toque nos meus pontos mais corretos? Aquela língua macia e sem pressa, fazendo e desfazendo caminhos em meu corpo? Como pode o medo enganar que não precisamos nada disso? Que não precisamos daqueles suores, daqueles líquidos escorridos nas nossas palmas?

Se Rogério chegasse agora eu o devoraria como na primeira noite, antes do jantar, antes que eu enlouqueça. Quanto tempo ele ainda demora? Quem mesmo ele havia encontrado? Será o Ronaldo que eu ainda não conheço e que estava para chegar? Este Ronaldo que ele fala de um jeito que eu resolvi chamá-los de RoRo, e ele apenas riu. Não, ele não se atreveria a trazer este Ronaldo aqui, logo hoje, no meu aniversário. Se ele fizer isso eu como os dois!

A campainha. Olho-me uma vez mais no espelho, segura que serei estilhaçada imediatamente. Um pouco mais de Tressor, para garantir. Nem me atenho ao olho mágico. Abro a porta. Outro abismo. Como a mais perfeita mulherzinha, sinto as pernas amolecerem e temo pelo vexame do desequilíbrio. Não pode ser:

— Você!

Recuo um passo, o suficiente para a ponta dos meus dedos tocarem a beira do aparador. Qualquer toque em algo sólido era necessário, não apenas para manter meu equilíbrio, mas também pela sensação de realidade que as coisas rapidamente nos trazem.

— É seu aniversário, eu lembro...

— Sim, não pensei que lembraria.

— Você está linda...

A porta do elevador se fecha no corredor e eu escuto, pela porta que dá para escadas a voz grave de Rogério. Logo agora! O elevador está descendo para apanhá-lo. Quatro andares, apenas quatro andares.

Uma daquelas eternidades que se espremem nos minutos estava acontecendo e eu não sabia se ouvia o silêncio, ou se o silêncio era apenas uma alucinação. Parecia que seus lábios se mexiam, mas eu não sabia que palavras saiam por ali. Mas eles se mexiam e se aproximavam, cada vez mais. Meu espírito corria, já ia léguas distante, mas meu corpo petrificara, deliciosamente, e esperava atônito aqueles lábios, que mexiam, e me enchiam com um beijo, um sugar de energia, uma implosão.

A voz do Rogério aumentou de volume pelas escadas. O elevador já devia ter chego, mas eu ainda ouvia sua voz lá embaixo, agora mais alta, como se discutisse com alguém, porém eu não distinguia palavra alguma. Somente sentia, se é que sentia realmente, aquelas mãos mornas levantando minha blusa nas costas e deslizando em minha pele. Que mulher era eu que me arrojava assim, sem pudor algum? Meu homem ali embaixo e eu aqui, mas embaixo do que ele.

O telefone, outro susto. Empurro aquele corpo, afasto suas mãos com dificuldade, tento não olhar seus olhos, eu sabia que não podia olhar seus olhos, para o meu bem.

— Sara, eu estou aqui embaixo... mas... estou resolvendo um problema...

Suba logo ou vá embora logo. O que eu queria? Não sabia, nem sei o que disse.

— Você está esperando alguém?

A mesa posta era a óbvia resposta, mesmo assim respondi:

— Não era você, com certeza.

— Mas eu não vou embora. Vou ficar.

— Como assim? Você tem que ir embora, ele já está lá embaixo, acabou de me ligar dizendo que logo vai subir...

— Eu não vou embora. Chega, estamos perdendo tempo... do que você tem medo?

— Você não entende... além do mais, já disse que não serei tua amante... não serei a outra, nunca...

— Eu não estou mais com a Juli, terminamos...

Eu precisava fugir, enquanto era tempo.

Não houve tempo. Eu sempre soube que minha fuga era um simples atestado de incompetência na arte da resistência. Jamais conseguiria resistir seus olhos, seu jeito de chegar, de encaixar, sua maneira de me segurar, com firme delicadeza. Facilmente suas mãos acharam o zíper atrás da saia, que escorregou pelas minhas pernas, junto com o que restava em mim de racionalidade. Sua coxa entrou entre as minhas e seus lábios sorriram quando percebeu o calor que me abrasava. Eu estava lânguida, uma caça abatida, mas era preciso resistir, Rogério devia estar subindo. Libertei-me uma vez mais e corri para a porta, meio sem saber se fugia ou a trancava. Não podia fugir só de blusa e calcinha.Tranquei-a.

Encostei a testa na porta e respirei, precisava ao menos de um minuto, mas novamente não tive tempo algum. Seus braços outra vez me envolveram e logo acharam a liberdade dos meus seios. Com extremo requinte de covardia seu hálito quente alojou-se atrás da minha orelha. Uma vez mais os joelhos dobraram, levemente, mas fui amparada por aquelas mãos que já desciam pela minha virilha e descobriam a umidade do meu desespero. Socorro! Mas somente minha alma gritava. Virou-me de frente e falou:

— Eu não vou mais embora.

A campainha. O silêncio banhando aquele riso ousado, malvado. Como qualquer mulherzinha caí em desespero. Eu nunca era de esconder nada, mas não podia ser apanhada assim, em tão profundo desalinho íntimo. Empurrei segura aquele corpo para longe do meu e o levei para o escritório. Não precisei falar nada, meus olhos já diziam:— Não saia daí...

Vesti a saia.Mais um toque da campainha, o terceiro. Olhei-me no espelho do hall e confesso que não vi nada.

— Acho que esta chateada comigo.

— Não... quer dizer, você demorou...

— Precisamos conversar.

— É... acho que precisamos...

— Quero te apresentar uma pessoa.

— ...?

— Ronaldo...

Rogério não havia entrado e eu não me dei conta que não tinha pedido para ele entrar. Quando ele falou Ronaldo, este apareceu na minha frente. Parecia ter a mesma idade de Rogério, a mesma altura, mas, enquanto Rogério era do tipo mais intelectual, Ronaldo era estilo praia, tez bronzeada, barba por fazer, camisa aberta, malhado. Um belo exemplar!

— Entrem — pedi, um pouco constrangida.

Era meu aniversário. Eu havia nascido as 23:45h. Faltava pouco para eu fazer 32 anos e no exato momento eu queria estar entregue a ele, ou ao menos queria, até poucos minutos atrás. Por que ele trouxe Ronaldo? Será que estava pensando numa safadeza a três? Já havíamos comentado sobre isso, mas sempre em tom de brincadeira. Não, ele não se atreveria.

Ronaldo entrou demonstrando admiração pela mesa bem posta. Havia um evidente constrangimento no ar, e o 5.o andar do outro lado da janela estava aceso bem no meu escritório. Ficamos os três nos olhando, no meio da sala. Eles pensando que eu estava perdida com a presença de Ronaldo, e eu, realmente perdida, mas não pelo que imaginavam.

— Você disse que precisávamos conversar — falei, tentando parecer normal

— Eu e Ronaldo precisamos conversar com você. Eu não quero que você me entenda mal... na verdade, nem sei bem por onde começar...

Enquanto Rogério gaguejava, Ronaldo, que demonstrava alguma impaciência, virou-se para ele e, sem nada hesitar, segurou seu rosto e o beijou, na boca. Um beijo rápido. Sem soltar o rosto de Rogério, olhou para mim e sorriu, depois o beijou novamente, um longo beijo diante da minha tentativa de parecer estupefata. A princípio Rogério quis resistir, mas só a princípio. Eu fiquei onde estava, no espaço, no tempo. Tudo ao mesmo tempo, tudo na mesma noite. Não sabia se ria, chorava, ou me unia.

— Sempre ouvi falar que um ato vale mais que mil palavras — por fim Ronaldo falou, ainda abraçado com Rogério. Depois completou: — Ainda precisamos explicar mais alguma coisa?

— Não. Já basta! — falei olhando para baixo, fazendo de conta que não sabia o motivo real que não queria encara-los, mas sabendo. Nisso Rogério veio em minha direção e tentou me abraçar. Eu não poderia, não pelo que acabara de ver, mas não poderia deixar outro corpo tocar o meu naquele momento e poluir a deliciosa impressão que ainda ardia nele. Não, afastei-me.

— ... me perdoa, eu sei que é seu aniversário... eu mudei pra cá por causa disso... estava fugindo...

— Eu entendo... como eu entendo de fugir! Não tem nada demais, mas... por favor, vão embora... preciso ficar... sozinha.

— ... mas...

— Sejam felizes...

Ainda nos olhamos na porta. As palavras mudas que nossos olhares trocavam diziam que havia sido bom, não precisavam expressar-se em sons. Deixamos o silêncio marcar nossa despedida. Nada de reunir mais elementos para qualquer memória emotiva. Encostei a porta devagar. Finalmente conseguia um tempo, breve que fosse. Parecia que o apartamento em meia luz estava em silêncio agora, mas não, eu sabia que não. Era quase ensurdecedor.

Tirei meus sapatos e pisei macio pelo tapete. Tinha a impressão que podia gritar e ninguém me ouviria, que minha voz não conseguiria sair de mim. Mais um passo. Havia terminado com a Juli. Bastava? Era o suficiente para eu passar por cima de tudo? O passado, o presente, o futuro? Toquei levemente o botão do controle remoto:

Um belo dia resolvi mudar

E fazer tudo o que eu queria fazer

Lentamente girei o saca rolha. Minhas pernas ainda tremiam e podia sentir o incêndio que ainda tomava conta do meu sexo. O vinho deslizou graciosamente pelas taças, um bailarino risonho. Era preciso decidir o que eu já sabia estar decidido, senão, por que encheria as duas taças?

Coloquei a mão sobre a maçaneta. Segurei um pouco a respiração, com o pulmão cheio de ar. Soltei lentamente. Do outro lado o 5.o andar com sua luz acesa, agora somente para mim. Eu havia falado que não seria a outra. Não podia negar mais, Juli havia ido embora. Por que não? Por que tanto medo?

Abri e encontrei um sorriso, o mais lindo sorriso que eu conhecia. Sabia que o incêndio ia continuar, sabe lá por quanto tempo, sabe lá o que sobraria de mim depois. Estava decidido e já fazia tempo, só eu que me enganava que não. Que tudo se danasse!

— Ele já foi?

— Já...

— Posso sair?

— Sim... Regina, pode sair.

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

História curta 2: A mensagem

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Chateado com a inesperada avaria que lhe encurtara a noite, meteu a chave à porta. Abriu a luz e sentou-se à mesa na cozinha. Nesta, uma pequena mensagem: "Tive de sair para ir ao supermercado. Quando chegares, aquece a sopa. Volto cedo. Um beijo." Olhou então o relógio: mal passava das quatro da manhã!
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LdS
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Nota: Dizem-me ser real!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Um poema de Camilo Pessanha (1867-1926)

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VIOLONCELO


Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Quem me identifica o Autor desta obra?

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Nu gravado em placa paralelipipédica de mármore branco polido,
de grão fino, cheio a induto negro, com dimensões 100x150x15 mm

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Ping-uin-ices

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Poderá haver oportunidade melhor que um pequenino "raid" à Antárctica para falar da rede viária do distrito da Guarda ?

Língua traiçoeira

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Há por aí quem ainda muito confunda "acto de Fé" com "auto-de-fé". É pena... como pena é que, sendo as virtudes teologais três, não tenha havido também, e com igual eco social, "autos-de-caridade" e, sobretudo, "autos-de-esperança".
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

O undecálogo do Bill Gates

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De um colega do velho Liceu recebi, em tradução certamente feita no Brasil, um undecálogo apresentado pelo ex-senhor da Microsoft numa escola secundária, onde tinha ido falar sobre o facilitismo no ensino actual. Não tendo especial simpatia pelo referido senhor (mas reconhecendo que, quanto a qualquer coisa de importante, lá isso soube fazer!) e achando que algumas das regras enunciadas o foram de uma forma crua (mas verdadeira), sinto-me reforçado num enunciado mais sintético que se tornou comum e até incómodo cá em casa e que é "o que se não quiser aprender em casa acaba por ter de se aprender fora... só que isso será inevitavelmente mais tarde e certamente de forma diferente." Posto isto, vamos ao referido undecálogo "ad usum Delphini". Qualquer alteração introduzida está entre parêntesis recto, assinalando-se em especial o caso da Regra 10, de que se alargou a extensão a campos em que, "et pour cause", o Bill Gates não terá entrado:
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"Regra 1: A vida não é fácil. Acostuma-te a isso!
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Regra 2: O Mundo não se preocupa com a tua auto-estima. O Mundo espera que faças alguma coisa útil por ele ANTES de te sentires bem contigo mesmo.
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Regra 3: Não penses que vais ganhar €6.000 por mês logo que saias da escola. Não chegarás a vice-presidente de uma empresa, com carro e telefone à tua disposição, antes de teres conseguido comprar o teu próprio carro e de pagar o teu próprio telefone.
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Regra 4: Se achas que o teu Professor é exigente e rude, espera até teres um Chefe. Ele não terá pena de ti.
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Regra 5: Por venderes jornais velhos ou trabalhares durante as férias não ficarás socialmente diminuído. Os teus Avós usavam para isso uma expressão diferente, chamando-lhe "agarrar uma oportunidade".
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Regra 6: Se fracassares, não atribuas as culpas aos teus Pais. E sobretudo não lamentes os teus erros; sabe mas é como aprender com eles!
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Regra 7: Antes de cresceres, os teus Pais não eram tão críticos como agora são. Eles só ficaram assim por terem de assumir os teus encargos, de lavar as tuas roupas e ouvir-te dizer que eles são "ridículos". Então, antes de salvares o Planeta para a próxima geração, que é a tua, querendo corrigir os erros da geração dos teus Pais, trata de limpar o teu próprio quarto.
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Regra 8: A tua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores. Em algumas escolas não terás de repetir anos "chumbados" e dar-te-ão as oportunidades que precisares para que finalmente consigas acertar. Ora isto não se parece em absolutamente NADA com a vida real. Se pisares o risco, serás despedido! RUA!!! Tenta fazer tudo certo logo á primeira vez.
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Regra 9: A vida não se divide em semestres. Não terás sempre os verões livres e é pouco provável que, no fim de cada período de trabalho, os outros empregados te venham ajudar a cumprir tarefas que são tuas.
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Regra 10: Televisão [e "jogos de computador"] NÃO é [são] vida real. Na vida real as pessoas têm de deixar o barzinho ou a discoteca [ou o cenário em que comandam os seus personagens] para irem trabalhar [no duro].
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Regra 11: Sê simpático com os "marrões" [1] (aqueles estudantes que os demais julgam serem uns patetas). Existe uma grande possibilidade de vires a trabalhar PARA um deles."
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[1] A origem brasileira da tradução está aqui denunciada ao usar, no original, a sigla "CDF", que penso poder bem traduzir por "marrões" (ou "ursos", como se dizia no meu tempo) i.e. os "bons alunos", também designados hoje, depreciativamente, por "betinhos" ou "nerds" ou, no Brasil, os tais CDF's, que são as iniciais de "cus-de-ferro". Aliás, para a distinção rigorosa entre "CDF's" e "Nerds", ver
http://wikipedia.org/wiki/Nerd.
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domingo, 14 de janeiro de 2007

Onze do Dois

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sábado, 13 de janeiro de 2007

Agradeço a NN

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Não sei bem a quem, mas muito agradeço! Por me ler e pelo que me manda! Tinha de aparecer! Bem haja!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
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Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
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O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
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E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
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Luís de Camões

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quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Apesar de tudo há que procurar a componente científica da coisa...

Apesar de tudo, há mesmo que procurar a componente científica da coisa…
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Aos 7 de Junho de 2006 falei aqui dos “dinki”, os “double income no kids”, ou seja, de uma forma hedonista de encarar a vida por parte de jovens tecnicamente bem preparados e agressivos e que tiveram a sorte (ou que souberam “fazer a sorte”) de combinar a própria capacidade com a instância de excelentes empregos num mundo concorrencial e que se emparelham sob a forma de casais de geometria variável (casados, “friends”, “fifty-fifties” i.e. juntando vida comum com manutenção de reservas independentes, “divorciados fiscais” ou “não fiscais”, etc.) tudo dentro do princípio da maximização dos proveitos e de evitar (ou de adiar para bem mais tarde) a presença de filhos. O “sair tarde de casa” alia-se assim à opção de gestações adiadas para melhor oportunidade, mesmo que acarretem “partos de maior risco”, mas é como vão vivendo e gastando o que ganham em escolhas e procuras de ostentação e de comum prazer.
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Na patologia do social moderno, que nenhum Abel Botelho desprezaria, surge uma outra modalidade interessante, que se vai agora referir: o “divórcio serôdio” e em especial o “DSIF”, ou seja, “o divórcio serôdio de iniciativa feminina”. O designativo é meu, mas o fenómeno vai, segundo parece, adquirindo extensão. A primeira vez que dele ouvi falar como facto detectável na sociedade de hoje foi num seminário de mestrado de Antropologia, por parte de um conceituado Professor, e calei então os sintomas já muito avançados, reveladores e até extensos da minha própria experiência, que poderiam perfeitamente ilustrar a aula. Sintomas esses que, neste e noutros casos, se vão arrastando covardemente escondidos, diga-se de passagem, como um tributo à sociedade hipócrita em que vivemos. Ora a situação referida é interessante e traduz-se na objectivação da frase lapidar que encontrei na sebenta de Direito de Família da Dra. Leonor Beleza, quando esta leccionava na FDUL: “as pessoas não se afastam, vão-se afastando” ou, ainda mais clarificada, na expressão de uma “ex-jovem” senhora que, envolvida numa situação deste tipo, sabiamente fazia notar que “gostar não é amar” – i.e. que os aspectos que se esperava pudessem crescer com a extensão no tempo do convívio conjugal de facto não crescem e que, com o aumento da esperança (e da prática) de vida e das solicitações que esta hoje proporciona, confrontadas com os dissabores dos quotidianos e sempre mais aborrecidos deveres, há sempre a oportunidade de ensaiar, antes que a Dama definitivamente chegue, uma forma mais colorida de estar no mundo e de atirar todas as chatices às malvas. Arrumados os filhos, atingida mercê das circunstâncias uma situação de relativo bem-estar, procurado o âmbito de outras convivências (sejam pessoais, sejam espirituais, incluindo vectores religiosos ou reclamadamente solidários) a família passa a ser um empecilho e há que lutar por uma vida própria. O que, se analisarmos bem estes pressupostos, reduz estas situações (tal como nos casos dos “dinki”) a um verdadeiro “comportamento de classe” porque só um grupo instalado, com uma certa "aisance" mesmo que a negue, acaba por ter espaço para poder pensar assim. À trilogia das causas mais comuns de afastamento — o dinheiro, os filhos, o(a) “outro(a)” — que afectam os casais mais jovens e de meia-idade (e daí que os “dinki” procurem resolver de imediato os dois primeiros elementos da clássica tripeça) junta-se uma nova componente: a vontade de recuperar uma vida independente e só [1].
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Andava eu nesta análise quando constatei, pela leitura do artigo de Roger Doyle, “The Honeymoon Is Over” [Acabou-se a Lua-de-mel] da “Scientific American” de Março de 2006, pag.16, como o processo tinha um carácter bem mais geral que a fronteira deste Rectângulo e traduzia mesmo uma faceta da dinâmica do social “aqui (num sentido planetário) e agora”. Referindo diversos estudos sociológicos recentes (i.e. publicados nos EUA entre 2001 e 2005) sobre a evolução da “satisfação matrimonial” com a extensão da “vida matrimonial”, o artigo faz ressaltar que o que se esperava seria uma curva em U, como a representada no gráfico abaixo. Ou seja: passados os ardores da lua-de-mel (e daí o título, se é que a “lua de mel” ainda existe) a satisfação iria decaindo como resultado do desgaste diário entre os cônjuges em conjuntura com os efeitos da já referida trilogia de forças – e esta queda prosseguiria até que, para os casamentos que tivessem conseguido sobreviver, a extensão do convívio, a realização e saída de casa dos filhos, a vinda dos netos, a dimensão de bem-estar que uma sociedade possa reservar aos mais velhos viesse demonstrar a cada um dos cônjuges quão gostar e amar coabitam e podem conduzir a um merecido ramo ascendente desta "curva da satisfação" ou "da felicidade", “até que a Morte finalmente os separe”. Isto a tal curva teórica!

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Fonte: R. DOYLE, Scientific American, Março 2006, p. 16
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Ora o que os estudos mais recentes vêm demonstrar é que a realidade não é assim (ou já não é assim). Mais uma vez uma visão pessimista vem dar razão à realidade das coisas. Análises mais extensas, melhorando os processos de amostragem, mostram que a satisfação conjugal decai mesmo à medida que a vida conjugal se estende e que a curva A, de derivada predominantemente negativa, traduz uma realidade actual. Outros autores, modificando o sistema de amostragem, sugerem uma posição intermédia, ou seja a curva B, em que se atinge uma plataforma de equilíbrio sem ganhos substanciais no tempo e, de qualquer forma, afastada da famosa curva em U que promoveria, para a velhice do casal, uma recuperação de parte da satisfação perdida.
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Seria interesante investigar, e de certo que os Autores citados por Doyle fornecem material para isso, se a “curva em U” realmente existiu, quando e onde (Ibsen, Tolstoi, Bourget, Zola, Eça e diversos etc. poderiam mesmo ser chamados a depor), e se houve, numa determinada sociedade, como a nossa, um fluir temporal desse aspecto ideal para as configurações mais pessimistas. Deixo isso aos cultores das ciências sociais, em cuja área recentemente me acho, mas noutro objecto de estudo. [2]
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Usando uma analogia física que Bourdieu não recusaria, direi que, como nos materiais, os fenómenos de fadiga, na vida social, levam frequentemente à ruptura. A própria expectativa de uma curva em U quando na realidade se depara um continuado declive é uma realidade frustrante para qualquer elemento do casal – ou seja, o declive pode mesmo alimentar-se de si próprio. Não admira pois que a ânsia do divórcio surja e que ela parta de quem, na união, se considere ser o elo mais sensível a essa sede de liberdade. Se essa ânsia é justa ou não justa, para um ou ambos dos intervenientes, é um problema completamente diferente, que não vem ao caso. Examina-se aqui o fenómeno, que não os agentes. Por isso se começou por dizer que “apesar de tudo, há que procurar a componente científica da coisa…”
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Até porque essa visão exterior fica assim afastada de qualquer componente de subjectividade e do que hoje mesmo nos levou a conjuntamente interromper a curva e ingressar, cada um de per si, numa outra estatística. Nem A, nem B e muito menos U.
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[1] A solidão pode ser pungente mas é certamente resolúvel na faixa etária dos 30-50, pode tornar-se algo problemática mas compensada pelo mito do adiamento da idade e da visão dos amanhãs radiosos dos 50 aos 65-70, uma facada nas costas pela sua inevitabilidade a partir daí, a menos que uma actividade teimosamente prosseguida e absorvente vá combinando cicatrização com miragem. Nunca é bem-vinda. A sua procura como forma de vida ou é temporária, ou mentirosa, ou reveladora de uma opção ascética ou de uma natureza arreigadamente orgulhosa.
[2] Acrescem dois fenómenos modernos ao desaparecimento de alguns dos pressupostos da recuperação da felicidade na extensão da vida matrimonial, assinalados no texto (a extensão do convívio, a realização e saída de casa dos filhos, a vinda dos netos, a dimensão de bem-estar que uma sociedade possa reservar aos mais velhos). São estes: a maior extensão da presença dos mais velhos (quando eu era jovem, “bisavôs” eram excepção…) e a “fuga à doença e à velhice” que cada um quer viver, numa sociedade imbuída duma crescente “cultura do corpo”. Recordo-me de debater, com uma colega de Antropologia, se a sociedade não tendia acobertadamente a considerar e tratar a velhice como doença, segregando os velhos e os doentes para “silos de afastamento” onde se vai de quando em onde aliviar consciências e carteiras mas assim definitivamente afastando “a morte em casa”, por razão diferente do afastar (e aqui compreensivelmente) o “nascimento em casa” (não me venham pois com pseudo-paralelos). Quanto à doença, é evidente o terror que os “executivos” dela têm: o cancro continua a ser tratado como “doença continuada”, “doença prolongada”, fugindo do nome como de um anátema, como se fosse algo de vergonhoso, como uma forma de lepra ou de peste moderna que se desejaria colocar no deserto, bem longe das portas da cidade e sobretudo de cada um de nós. E eu recordo um jovem engenheiro assaz triunfante (mais para bem próprio que da comunidade) que escondia cuidadosamente dos colegas as suas idas ao médico ou o mais revelador sinal de qualquer medicação ou venial maleita porque entendia que tal iria prejudicar o seu desejavelmente imaculado e industrialmente semi-virgem rol curricular. Para esses a doença é encarada como a pior provação num mundo que tudo tritura e em que a solidariedade, que eles aliás pouco praticam, é como na metamorfose kafkiana: no princípio todos têm muita pena do gajo-insecto, mas brevemente todos procuram a melhor solução para se libertarem do tropeço. Para esses tudo vai bem, enquanto a velhice for pressentida muito longe, parecendo ainda conceder suficiente espaço ao sucesso. Mas um dia bate à porta! E não será como no conhecido (e que procurei para postar aqui!) cartaz maoista, em que uma sorridente e solícita juventude abre o caminho na neve para que o mais velho possa sair de casa!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Dos cartazes palestinianos

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Da sofredora Palestina também chegam cartazes. Um deles, muito belo, denominado "Salma" data de 1988 e deve-se ao artista palestiniano Sliman Mansur. Na sua beleza e tranquilidade é uma mensagem de Paz. Mal vão os olhos que, de qualquer dos lados, o não consigam ver e entender assim.
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Feito este rapidíssimo excurso ao mundo dos cartazes, ao ir virtualmente à China e, no regresso, deter-me nas águas do Jordão, regressarei asinha ao "Renascimento Alemão". Mas, antes disso...

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Dos cartazes chineses

Encara seriamente a nossa Idade do Ouro.
Estuda muito, trabalha muito pelo nosso futuro,
para que ela chegue.

A minha particular afeição pelos cartazes chineses de génese maoista levou-me a procurar um deles, em que os jovens da aldeia se escondem atrás de arbustos após removerem a neve e permitirem que um idoso, também sorridente com a surpresa proporcionada, saia comodamente de sua casa. Não o encontrei... mas fui encontrar muitos outros que dão dessa forma de expressão, nos seus diversos objectivos, um verdadeiro museu. Aqui fica um deles, talvez nem mesmo dos mais representativos - mas repare-se no imperativo determinante da legenda, livremente traduzida da versão intermédia em Inglês. A busca na "net" pode ser feita em "chinese propaganda posters" e é verdadeiramente surpreendente. Aqui deixo, também, dois dos endereços úteis encontrados! Mas há muitos mais!
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1) Colecção Stefan Landsberger: www.iisg.nl/~landsberger . Landsberger é professor numa universidade holandesa e, como eminente sinólogo, reuniu uma excelente colecção de posters e tem sido autor, co-autor ou activo colaborador em diversas obras e iniciativas sobre o assunto.
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2) Maopost http://db1.maopost.com/wcat=mao&wlan=en&wreq=home : a colecção é enorme e também muito boa, destinada essencialmente à comercialização dos posters. O seu acesso pode ser temático e, inclusive, permite encomendar um poster em obra de artista, com a vera efígie do cliente (ou a que o cliente enviar) a assumir um papel activo, como por exemplo heroicamente participando na Grande Marcha, promovendo as melhores colheitas. trabalhando nas minas ou construindo barragens no Yang-Tse ou seus afluentes. O único inconveniente que encontro nesta fonte é o seu lento desenvolvimento e acesso, em termos informáticos.
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E já agora: se encontrarem algures o cartaz que eu procuro, muito grato ficarei se m'o enviarem! Ok? Creio mesmo que está na compilação publicada pela Taschen mas, hélas!, emprestei-a algures a alguém que algo de não-seu deve assim ter! Coisas da vida!
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segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

O "ranking" das cidades

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Eu, que não leio o "Expresso", nem a revista do mesmo, fui a correr comprá-lo. E lá a encontrei em penúltimo lugar no "ranking" das cidades portuguesas, só afastada da definitiva cauda pela bem conhecida Amadora. Arre, que já é embirração... Com uma publicidade destas, mal vai aos adens e aos procaces desta terra!
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domingo, 7 de janeiro de 2007

O desfazer do "presépio laboral"

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Todos os anos o desfazer do presépio acaba por chegar, após o Dia de Reis. Em casa, connosco geografica e sentimentalmente dispersos, já nada é feito com a ternura de toda a família em volta, como era muito antes. Aliás o meu "presépio laboral" nasceu assim e tornou-se sempre solitário e assim andou comigo, a saltitar de nenúfar em nenúfar [1]. Este é o dia do desfazer do meu mini-presépio peruano, no cantinho da estante de Alverca. Com o decorrer do tempo, a tristeza de ver passar mais uma época festiva vem-se aguçando com uma pergunta anualmente a mesma e anualmente renovada: farei ou não farei este muito meu presépio quando chegar o Natal do ano que já corre? E onde?
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Espero bem que sim, e que possa ser em Arouca.
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[1] Uso esta expressão algo batracoide porque, quanto a presépios, não me parece muito curial usar as expressões correntes "de Seca para Meca" ou, muito menos, "de Anás para Caifás".
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sábado, 6 de janeiro de 2007

Esboços...

1.
Por uma pequena notícia, na imprensa diária, descobri que o Vaticano começou a comercializar fotos pontifícias. E tem um site próprio para isso, com o domínio ".va" que lhe cabe. Quem tal diria!
2.
É meramente por razões de ordem alfabética que a primeira língua disponibilizada no portal genérico http://www.vatican.va é a Alemã (Deutsch). Seguem-se o Inglês, o Espanhol, o Francês, o Italiano e, naturalmente pela mesma razão, o Português aparece em último lugar.
3.
Estas descobertas pias recordam-me um interessante episódio, anos atrás, no pioneirismo da "net". Uma individualidade politicamente conhecida ia receber um membro destacado da Igreja, daqueles que, não ousando ser lefebvrianos, acham que o Vaticano II teve velas demasiadamente enfunadas por ventos que sopravam de Leste e/ou do 3º Mundo. Para mostrar o seu avanço informático e nético, o visitado convidou o visitante a escutar o hino do Vaticano, num sinistro trautear não polifónico extraído de um "site" que dizia conter todos os hinos mundiais. O visitante ouviu, embevecido. E até repetiu a dose, comentando que deveria ser algo novo, porque ele não conhecia minimamente aquela melodia. Veio-se a descobrir, horas depois que, por deficiente clicagem, ele escutara duas vezes o hino do Vanuatu!
4.
Li algures qualquer coisa sobre "rusticidade erudita". Desde a minha "primária" que não escutava expressão tão saborosa - e que me trouxe à memória as aulas de Geografia, em que tínhamos de conhecer, entre outros acidentes naturais, as serranias de Angola: Canganza e Tala-Mugongo a Norte, Catanga no Leste e Chela a Sul. Eram nomes engraçados: sobretudo Canganza!
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

A mediana do rectângulo

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Na transição 1974-75 o País fervilhava de esperança e novidade. Havia, certamente, sombras no horizonte - mas, no entender de muitos, não passavam de pequenos cirros que logo se limpariam por si. Optimismo a mais, dir-se-á hoje. Havia comissões, múltiplas comissões, que debatiam animadamente medidas de progresso: a Indústria, a Agricultura, a Segurança Social, a Justiça, as Comunicações, o necessário desenvolvimento do interior.
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Foi quando - num desses activos foruns - fiz surgir a ideia de, para além duma autoestrada ao longo da costa, ou desta próxima numa primeira longitudinal completa, se estabelecer uma autoestrada interior que seguisse o traçado aproximado da EN nº 2 [1], de norte a sul do País, configurando uma mediana do rectângulo e estabelecendo perpendiculares, à esquerda e à direita, para as capitais dos distritos - perpendiculares essas que seriam extensíveis para Oeste até à primeira longitudinal nos alinhamentos de Viana, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Santarém, Lisboa, Setúbal, Beja e Faro. Uma terceira longitudinal, ao longo da fronteira, viria depois, prolongando para Leste as transversais e fechando assim um verdadeiro reticulado.
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O traçado dessa segunda longitudinal teria que enfrentar importantes trabalhos de engenharia, incluindo estruturas elevadas e túneis [2], para vencer a "atracção de Coimbra" i.e. o efeito combinado e complexo das bacias do Mondego e Zêzere e da corda montanhosa Montejunto / Estrela e deixar atingir Tomar ou Abrantes de uma forma directa - situação essa que, ainda hoje, não é minimamente simples de realizar. Para demonstrar isto procure-se, no mapa rodoviário, sair de Viseu a caminho do Sul e atingir a linha do Tejo pelo traçado mais próximo do meridiano. Ter-se-ão inevitáveis zigzagues. Coimbra, desta forma, continua a ser o "poço" onde confluem os principais alinhamentos viários de todo o Norte e os do Sul para serem redistribuídos por novos destinos. Exceptua-se o traçado próximo da fronteira.

Nos dias de hoje esse modelo "reticulado" perdeu grande parte do seu interesse. Mas, de qualquer forma, mais tarde ou mais cedo há que rever a situação de "poço" ou de "funil" de Coimbra - ainda poderosamente limitativo do desenvolvimento do interior.
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[1] Estrada que eu então conhecia bem, aventurosamente percorrida de Sul/Norte e Norte/Sul em vários dos meus sucessivos Fiat 600 D e pela qual eu nutria uma certa afeição, activada por uma reportagem respigada dum periódico de que já me não recordo. Lembro-me também que lhe faltavam troços, alguns destes possíveis de percorrer a "corta mato", por veredas no meio de pinheiros, com riscos de atolar o carro em quase-areais e quase-lameiros (havia um destes cheio de crocus), atravessando vaus, isto no tempo em que ainda não estava construída - entre outras obras de arte "faltosas" - a ponte de Alvares. E recordo a sucessão de panorâmicas diferentes que esse trajecto ia proporcionando.
[2] Nunca entendi a relutância aos túneis na Metrópole, até épocas mais recentes (vg. túnel da Gardunha). Simples economia? Vejam-se porém as vantagens que proporcionam e os exemplos de situações, algumas delas nada recentes, em que a Natureza imperiosamente os obriga (Madeira, Astúrias, Pirinéus, Europa Central).
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quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Ainda sobre a postagem de ontem...

Veja-se http://www.napoleon-series.org/research/bibliographic/c_portugal.html.

Do texto de Marbot, que continuo a devorar, ressalta a incapacidade dos generais napoleónicos (e do próprio Napoleão) entenderem a resistência popular no teatro peninsular da guerra. O mesmo erro marcaria generais mais antigos e derrotaria generais mais modernos e em campos muito diversificados. Justificava-se assim um comentário ouvido durante a ofensiva do Tet: "Dos Romanos aos Americanos sempre houve quem percebesse mal a guerra popular". Coisas da vida!

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Esquecidos, pouco gabarolas mas bons se...

Batalha do Buçaco, 1810.09.23

"No que respeita aos portugueses, não lhes foi feita justiça pelo contributo que deram ás guerras da Península. Menos cruéis, muito mais disciplinados que os espanhois e com uma coragem mais calma, eles formavam, no exército de Wellington, várias brigadas e divisões que, dirigidas pelos oficiais ingleses, não ficavam a dever nada às tropas britânicas mas, como eram menos gabarolas que os espanhois, falaram pouco deles e das suas façanhas e a reputação tornou-os menos célebres."
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Esta avaliação do General Barão de Marbot, nas suas "Memórias sobre a 3ª Invasão Francesa" que, com introdução do Professor António Ventura (que nela regista este comentário), foram editadas em Setembro de 2006 pela Caleidoscópio, contrasta fortemente com a descrição das cenas tristérrimas que acompanharam o avanço de Soult até ao Porto, na 2ª Invasão, e que Marbot descreve das páginas 31 a 40 da mesma obra. Aí, até à derrota final e à tragédia da Ponte das Barcas, a desorganização, a falta de comunicações, a impreparação das tropas, o massacre dos próprios generais, as perseguições, ódios e vinganças crueis, o comando dominador do Bispo e a estrutura (?) informal das primeiras tentativas de resposta em núcleos paroquiais foram gradualmente afastando quaisquer veleidades de organizada resistência.[1] [2]
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Algo para meditar, com uma certa tristeza... porque se muito da nossa inconfessada relutância à organização, à disciplina e ao esforço estava ali representado [3], também muito das nossas virtudes estará representado no comentário do barão-general. Não é por acaso que Portugal é do sigo dos Peixes: o único signo duplo em que as figuras puxam em sentidos contrários!
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[1] Idêntica imagem da desorganização e derrocada da defesa do Baixo Minho e a Norte do Porto pode ser encontrada na leitura da excelente monografia do Gen. Carlos de Azeredo, "As Populações a Norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809" que se pode adquirir "bom marché" no Museu Militar do Porto, editada em1984. Aliás a tomada do Porto, se trágica, deu lugar a uma ocupação efémera - pois Soult ia sendo surpreendido pela audaciosa travessia do Douro, do Areínho de Gaia ao Monte do Seminário Novo (no extremo sul do actual cemitério do Repouso), pelas forças anglo-portuguesas, obrigando-o a uma retirada apressada pelas serranias de Valongo, procurando o vale do Tâmega, desviando para Guimarães e subindo pelo Cávado em direcção à fronteira norte, mas deixando pelo caminho grande parte da artilharia.
[2] Contrastando com essa situação, poderia arguir-se a eficaz defesa anterior da linha do Minho. Só depois de várias tentativas frustadas de atravessar o rio, nomeadamente em Valença/Tuy, Soult abandonaria o "caminho litoral" e procuraria entrar pela veiga de Chaves, fazendo depois o ainda actual trajecto Chaves/Braga.
[3] Um exemplo da nossa ineficácia é o estado lastimoso do que poderia ainda encontrar-se das "linhas de Torres". Em qualquer país com mais dinheiro e menos história, esses vestígios militares seriam preservados, cuidados, promovidos, visitados, turisticamente valorizados. Aqui nada disso... e o próprio Museu Militar do Buçaco, carenciado de obras e de novas formas de apresentação museológica, também o vem provar.
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terça-feira, 2 de janeiro de 2007

O plágio nas escolas (baixas, médias, altas)

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O dito já cá chegou. E não é o lendário Pelágio das serranias asturianas, é mesmo o "plágio" sem "e", descarado, sujo, o texto que se copia e, em paralelo, o mercado da falsificação intelectual do trabalho que se compra e que se apresenta. Bem haja o JN por tocar de forma aberta no assunto, nas páginas 2 e 3 da edição de hoje.
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Perante isto, que fazer? Estamos num quadro grave em que o facilitismo transtorna tudo. E a sociedade, falta de meios de detecção e contenção, falta de castigos exemplares e irreversíveis em efeitos, acomoda-se a estas distorções da verdade, que dão "canudos" e glórias académicas a quem as não merece e, sobretudo, àqueles que podendo fazer algo abdicaram dessa capacidade para copiar escritos ou ideias ou para comprar, e vender depois como sendo seu, o trabalho dos outros.
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Muitos dos que andam nisto denunciarão olimpicamente o que irão designar por oportunismo dos politicos, farão longas tiradas sobre a corrupção, criticarão os esforços de mestres e de colegas com a falta de solidariedade e de algum respeito que as instituições de ensino que frequentam, mesmo que "in nomine", lhes deveriam merecer. E o que fazem eles? E o que fazem os que para eles trabalham?
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Mercado, mercado, a quanto obrigas!
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A tempo: igualmente no JN de hoje, na última página, uma excelente crónica de Manuel António Pina sob o título "O idiota que fica". A ler!
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

1 de Janeiro de 2007

Fora a "flor do mês", começo o ano com duas imagens. A primeira, retirada mais uma vez das Boas-Festas que recebi (e porque muito o merece), é de um cartaz genuinamente galego (fácil de entender se se recordarem que nessa língua nossa irmã, e irmã gémea, o "j" é substituído pelo "x", como aliás se ouve na fala, mesmo na margem esquerda do Minho...)

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A segunda é uma visão menos comum do Drave, a aldeia isolada das serranias de Arouca que hoje está deserta. Ambas me lembram, de forma distinta, o que tenho de fazer neste ano de 2007, que não vai ser simples!
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E, por isso, em ambas colho uma quota de força. Por isso também muito agradeço aos que mas mandaram.

Janeiro: Azedas!

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Acabadas as excelentes representações dos meses no Missal Antigo de Lorvão, que me acompanharam durante 2006, tenho - em 2007 - que me lançar às flores... E Janeiro aqui vai, com as "Azedas", cientificamente Oxalis pre-caprae, L. , oriundas da região do Cabo, na África do Sul [1], e tidas como terríveis invasoras na Europa mediterrânica, Austrália e Estados Unidos. Quem não as conhece, com as suas folhinhas de trevo que não são?

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[1] Sempre a tempo de corrigir um erro (e pode haver erros com dezenas de anos), de há muito que estava convencido - e afirmei-o várias vezes - que esta planta tinha vindo da Austrália com os primeiros carregamentos de cereais australianos para a Europa. Admitindo que a Austrália possa ter tido um papel nisto tudo, pois a eclosão das "azedas" na Austrália parece ter sido explosiva e o itinerário das plantas, mercê do homem, nem sempre é linear, há no entanto que corrigir a origem. Diversas fontes parecem confirmar a ponta sul da África. De qualquer forma a "azeda" continua a florescer e a formar tapetes amarelos... quando no Hemisfério Sul é pleno Verão!