terça-feira, 31 de julho de 2007

A praia - III (O discurso escondido)

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A "terceira tábua do tríptico" já tem pouco a ver com a praia - mas tem a ver com a atitude exibida na segunda, que - por sua vez - quase directamente contrasta com a postura ferrabraz e oficial contida na primeira. Costuma dizer-se que quando a panela aquece demais, a tampa salta. É esta a origem de certas e determinadas atitudes comuns, quotidianas, de resistência, que geralmente passam despercebidas mas que têm um valor efectivo e que participam do chamado "registo escondido". O "se eu pudesse, dizia-te", ou o "eu quero que o gajo tenha um puto de óculos pelo umbigo", ou outras expressões de idêntico bom gosto, pensadas, murmuradas, ditas até para consigo próprio, constituem uma habitual reacção ao que se não quer e que, mesmo "in mente", se dirige como pedrada virtual ao sujeito da acção que nos contraria. Alivia, pelo menos... - e quem nunca passou por isso, já que falamos de pedrada, que atire a primeira pedra!

O "escrever nas entrelinhas" é uma forma habilidosa da resistência se exercitar em situações controladas pela censura e pode assumir duas perspectivas distintas: uma perspectiva codificada, dirigida a leitor ou leitores especiais, e que portanto pressupõe um pacto prévio, desconhecido da entidade censória. É um processo intencional que intencionalmente contraria a prática legal vigente e que, por isso, pode acarretar riscos (i.e. penalidades) para o "resistente" que o usa - o que não significa que não seja profusamente utilizado, nomeadamente para penetrar em comunidades fechadas (vg. nos meios prisionais). Mas há uma outra forma e perspectiva, que é a tentativa de espontâneamente "dar uma notícia sem a dar", procurando "driblar" [1] intencional e habilidosamente o mecanismo censório, sem prévia convenção mas com a habilidade suficiente para que o lápis azul não actue e, muito melhor ainda, sem que se possa facilmente inculpar o autor da mensagem.

Por vezes... se não é, parece! Poderá então ficar-se na dúvida... mas a alfinetada lá está e lá fica - e, entendida que seja como resistência, poderá (mais até que informação) tornar-se motivo de "gozação" e descrédito. As anedotas, transmitidas de boca em boca, passam também por aqui!

Ora vejamos esta "possível parábola", retirada (como os dois anteriores textos), do "Defesa de Arouca", inexoravelmente "visado pela Comissão de Censura", mas agora do nº 765, de 5 de Outubro de 1940... e logo na primeira página:

"Uma biblioteca subterrânea

Em certa mina de ouro da África do Sul existe uma biblioteca única pela situação: encontra-se a centenas de metros abaixo da superfície da terra. É constituída por 500 volumes e algumas dúzias de revistas. Os livros são emprestados de graça aos operários que queiram ler durante as horas de repouso, mas é rigorosamente proibido trazê-los para a superfície do solo, quando os leitores saiam da mina.

Nesta biblioteca só se pode ler… subterraneamente"


Gostoso, não é? [2]

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[1] Curiosamente, já com esta postagem escrita, o conceito de "driblar" a censura apareceu-me exactamente da mesma forma como título de um livro brasileiro, que eu não conhecia. Folgo com a utilização independente do mesmo conceito e no mesmo sentido. "Les bons esprits se rencontrent", como dizia o Montaigne - e isto presumindo que eu me possa considerar como um "bon esprit".

[2] Esta notícia teria sido distribuída assim por qualquer agência noticiosa? teria surgido da mesma forma p.ex. em qualquer jornal diário de Lisboa ou do Porto? Seria interessante averiguar mas, já que não tenho tempo para isso, deixo aqui a tal "alfinetada!
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segunda-feira, 30 de julho de 2007

A praia - II (A Gazetilha)

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Ora em 1939, 15 de Abril de 1939 mais precisamente, um grupo de gentis senhoras da sociedade arouquense organizou um baile no salão nobre dos Paços do Concelho[1], que decorreu com assinalável brilhantismo e repercussão "urbi et orbi", tendo-se dançado até de madrugada. Um facto consequente mas acessório desse acontecimento foi a publicação, no "Defesa de Arouca" de 22 de Abril, número 691, pag.2, de um extenso poema denominado "O baile", inaugurando o tema geral "Gazetilha" e subscrito por A.O. - em que, em tom leve e engraçado, cheio de bom humor e oportunidade, se davam conta de diversos aspectos do evento a que o dito A.O. teria estado igualmente presente como convidado [2].
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Essa parece ter sido, de facto, a primeira "Gazetilha" que o referido jornal vai publicar, porque outras se seguirão, sempre subscritas por A.O. comentando factos e costumes locais ou não locais, mas mantendo a mesma leveza e ironia que, inclusive, manifestamente ultrapassa por via do verso o que provavelmente o censório "lápis azul" não deixaria passar se expresso por via de prosa [3].
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Uma semana depois da nota com sabor a papel selado que foi transcrita na postagem anterior, sobre a manutenção estrita e rigorosa da moralidade nas praias, na dura canícula que parece ter sido o Verão de 1940, surge, com a referida assinatura de A.O., a graciosa "Gazetilha" intitulada "Que Calor" que não resisto a transcrever e que, na sua totalidade, sempre com a devida vénia ao jornal que a publicou, seguidamente se reproduz:
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"QUE CALOR

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Oh! que calor dos diabos
Vem das vertentes da serra!

Queima o sol, escalda a terra

E a água ferve en cachões...

Se Cristo nos não acode,

Com semelhante esturreiro

Não tarda, nem um janeiro,

Que os homens sejam carvões!

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Com um calor desta raça,

Só na praia se está bem,
Onde a gente ao menos tem

O mar, para se esconder.

Aí, sim, a gente pode,

Com banhinhos à fartura,
Passar esta quadra dura
Sem se vir a derreter!

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Paraízo sem segundo,
Lá as deusas são à mão-cheia.

Estiraçadas na areia,

Com adónis a fartar;

Só Eva gentil, agora,

Sem a tal folha de vinha,

Anda toda vestidinha,

Para não se... constipar!

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No campo - cruzes, canhoto!

Quem é que pode viver?

O calor a derreter
Os nossos untos, que mesmo

Que São Pedro, lá do Céu,

Nos mandasse chuva a potes,
Não nos livrava os coirotes

De ficarem num torresmo!

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Tudo é brasa, tudo é fogo,

Não se pára, não se atura

Esta medonha quentura,

Inferno da vida aldeã;

Cada um de nós, aqui,

De negro e sêco, repito,

Parece um carapau frito

No fundo duma sertã!

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O "Zé" pinga de tão suado,
Na faina do pão cotio,

E a água ferve no rio,
Desfazendo-se em vapor;
É tal a ardência do sol,
Que nos campos, de ouro puro,
O milho cai de maduro,

Sequinho, que é um pavor!

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Evas por cá, nem o cheiro,
As deusas fogem ao sol,
Mirando abocar o anzol
De algum adónis caturra;
Quem pode viver aqui?

Só bruxas os Satanaz,

Incluindo cá o rapaz,

Que também já não se esturra!
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Não há remédio senão
Andarmos de perna à vela

E o corpinho sem farpela,
Seja qual seja o tecido;
Até calças já não usam
Os mocetões e as moçoilas,
Nem por cima das ciroilas,
Nem por baixo do vestido!

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Vou já usar da receita,
É barata e tem valia:

O corpinho à revelia
Sabe bem, que é um consôlo.
E depois, quem esconder
Aquilo que Deus lhe deu,
Hoje em dia, ou é sandeu,
Ou tem falta de miolo!
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Ficarei todo janota:
Umas socas de cortiça

Até para ir à missa
São boas... Com o ar correndo,
Como tufão assanhado,
Dos pés à nuca (e aberto

O peito ao ar), já de-certo

Se pode ir por cá vivendo!
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Mas, que calor! Não se atura!
Um fogo desta jaez

Só no Inferno, ou talvez
Na rabeira de algum astro...
Se não te pões no seguro,
Leitor, fazendo o que eu digo,
Não te darei, meu amigo,
Cinco reis pelo canastro!...

A. O."

in "Defesa de Arouca", nº 761, de 7 de Setembro de 1940, pag. 2.


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[1] I.e. no então ainda designados como "novos", porque inaugurados em Novembro de 1933.
[2] Não se vai aqui identificar o A.O., sendo certo que isso parece possível - já que o Autor, ou o jornal, pelo menos numa outra "Gazetilha" posterior, já encontrada, deixou (intencionalmente ou não) escapar o nome completo. Como porém a regra das "Gazetilhas" parece ser mesmo serem subscritas por A.O. e, como soe dizer-se, "a excepção confirma a regra", manteremos as iniciais e... os investigadores da modalidade que busquem a chave do enigma - que não deve ser difícil de resolver!
[3] Um exemplo disso é a descrição do que se passou, em Arouca, com a localização do "Cruzeiro da Independência", peça fulcral das celebrações do Duplo Centenário em 1940 e modelo que proliferaria, como já foi dito, em todas as freguesias, vilas e cidades do País. Por razões compreensíveis, até ligadas à protecção do Convento como monumento nacional e à necessidade de autorizações a isso associadas, bem como à disposição de velhos e novos espaços, a localização definitiva do cruzeiro andou de cá para lá e de lá para acoli até se conseguir uma definitiva implantação e se proceder à habitual inauguração - que era sempre um acto soleníssimo e portanto pouco propenso a epigramas. Esse saltitar - visto em prosa - é dedutível de diversos e sucessivos apontamentos e notícias, mas o referido A.O., numa das suas Gazetilhas ultrapassa a dificuldade e faz, por todos, uma excelente síntese das várias peripécias que o posicionamento do padrão atravessou. Existe pois, nos vários relatos do A.O., sempre ligados a acontecimentos da época e à sua repercussão e crítica, um campo vastíssimo para futuros investigadores locais se deliciarem. Fica a ideia! Dá, pelo menos, mestrado...

A tempo (ou não): Chamam-me a atenção para não ser esta a única "Gazetilha" com o título "O baile". De facto uma outra há, a 30/3/1940 (DdA nº 739), celebrando outro baile que gentis senhoras de Arouca foram organizar no salão nobre dos Paços do Concelho e que teria tido lugar no sábado de Páscoa (23/3/1940?). Também convém este "a tempo" para fazer "mea culpa" de uma informação anterior, nesta mesma postagem, manifestamente ampliada pelo entusiasmo de uma leitura prévia. É que um trabalho sobre as "Gazetilhas" não poderá ter certamente a amplitude e o peso que se sugeriu. O dito lápis censório, que deixou "passar" a impagável descrição em verso das peregrinações do "cruzeiro da independência" (DdA nº 770, de 9/11/1940) - tal como iria suceder muitos anos mais tarde com o "Tourada", de letra de Ary dos Santos no Festival da Canção - deve ter levado um puxão de orelhas de um supervisor mais vigilante... e as "Gazetilhas a partir daí vão abrandar! Significativamente, a "Gazetilha" subsequente é publicada no número imediatamente a seguir, chama-se "Perdão de Acto", vem datada de fora de Arouca e é a tal que tem a assinatura com o nome e não com as iniciais A.O. do Autor (DdA nº 771, de 16/11/40) - o que revela a intencionalidade desse facto. Uma outra "Gazetilha" será ainda publicada na DdA nº 775, de 14/12/40, com o título também significativo de "A Morte". Até meados de 1941 há poemas de A.O. (com o seu verdadeiro nome), de natureza e forma completamente diferentes - e, até aí, não se detectou mais alguma "Gazetilha". Se posteriormente aparecerem, avisar-se-á! Mas o campo de estudo fica mais reduzido que o que se pensava - embora permita vislumbrar a praxis inexorável, à época, do exercício dos mecanismos do poder.
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domingo, 29 de julho de 2007

A praia - I (O rigor)

Imagem de http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/imagens/069_1.jpg

A postagem que vem a seguir, em tríptico, tem algo a ver com a minha actividade actual - e a forma útil de nela perder (ou ganhar) tempo. De facto, quem tem de percorrer um jornal local, de uma vila entre montanhas deste país real, desde 1926 até aos nossos dias e procura centrar-se numa dada temática ou tem de facto uma rígida objectividade, e cinge-se apenas ao que àquela interessa, ou acaba por navegar noutros aspectos que demonstram e retratam aquela comunidade e que a caracterizam no seu "import-export" com um meio que, passando necessária e essencialmente pelo "nacional", se mostra, em limite, planetário.
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Volto a referir-me ao já aqui tão badalado "Defesa de Arouca", jornal que ainda hoje bravamente se mantém e do qual, de edições do conturbado ano de 1940, vou - com o devido respeito e citação - retirar três peças que à época estival directa ou indirectamente se referem. Peças que, de facto, vão bem mais longe e tocam este País que então festejava conjuntamente os centenários da Fundação e da Restauração numa Europa já dilacerada pela Guerra. Refere-se ainda a primeira, de forma explícita, aos refugiados que até nós chegavam. Em geral acolhidos com hospitalidade e simpatia, não deixavam também de ser olhados com alguma desconfiança quanto às "modernices" que traziam e que podiam contaminar a nossa natureza embiocada e rigidamente controlada pelo regime e todo o seu aparelho de poder, de aperreadora censura e de dedo indicador estendido e manobrado como se fosse uma rigorosa batuta [1]. Multiplicavam-se, pelo País fora, num verão fustigante de calor, as cerimónias tocantes dos cruzeiros de pedra levantados em aldeias, vilas e cidades a lembrar que, em 800 anos, a Fé se encaminhara para o Império e que, desde aí, não tinham deixado de andar de mãos dadas. Mas, nas praias...

A primeira peça tem todo o rigor da época e mostra, evidentemente, uma inspiração importada de uma Lisboa onde por todos se pensava e zelava dentro do espírito do "se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer toda a vida" que cartazes iriam espalhar pelas paredes do meu Liceu. Veja-se esse pequeno texto, retirado do referido jornal nº760, de 31 de Agosto de 1940, página 2, coluna 4, mantendo a grafia e a sintaxe do original, e, por hoje, fico-me por aqui [2]:

"A moralização das praias
Foram tomadas superiormente medidas enérgicas com o objectivo de se pôr cobro aos abusos registados nas nossas praias, no emprêgo de fatos de banho indecorosos. As brigadas especiais, para êsse efeito nomeadas, estão percorrendo aqueles locais, não permitindo que nêles permaneça ninguém em trajos ou atitudes contra a moral pública. Esta medida, que é extensiva a todo o País, merece o mais vivo aplauso. Estamos certos de que todos compreenderão o seu alto alcance moralizador e se adaptarão com a maior facilidade às normas estabelecidas. É sempre preferível prevenir a reprimir. Do mesmo modo, será mais fácil, para os que se veem entregando a estes abusos, pô-los imediatamente de parte, reconhecendo o pendor perigoso da desmoralização em que se encontram, do que terem de o fazer, obrigados pelas autoridades. Os estrangeiros terão de se submeter também a estas normas. A Portugal, que lhes veem dando a paz, a alegria e a beleza - como unanimemente reconhecem - devem eles o respeito pelos seus costumes morais."

Apresentado este primeiro texto, o tríptico continua...

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[1] Aliás, para que não existissem dúvidas, no mesmo jornal, escassas semanas depois, ou seja no nº 764, de 28 de Setembro de 1940, voltava-se ao tema no texto "Os refugiados e a hospitalidade portuguesa", no bom estilo "Cuidadinho, eh!". Sugestão de poucas vergonhices só no "Casablanca", que nunca se sabe como continuou para os que tomaram o avião de Lisboa.
[2] Sem deixar de referir, de entre os diversos trabalhos e apontamentos existentes quanto ao assunto, o texto de Manuel de Lucena "
Salazarismo no Feminino" publicado em Análise Social, XXXVIII (169) e que se encontra integralmente vertido na "net", como recensão à obra de Irene Flunser Pimentel "História das Organizações Femininas no Estado Novo", Rio de Mouro, ed. Círculo de Leitores e Autora, 2000, que certamente se recomenda.

sábado, 28 de julho de 2007

2 - Anos de Blog - 2


imagem de http://lenanig.free.fr/blog/images/Image/U-blog/luis_royo_prohibited012.jpg

(recomendando a visita às galerias de Luis Royo, pintor e ilustrador nascido em Teruel em 1954, e à sua arte fantástica em www.luisroyo.com)
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sexta-feira, 27 de julho de 2007

Quem tem medo do Esperanto?

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Num recente texto publicado num jornal local referia-se a repressão que, ao Esperanto, foi movida pelo Estado Novo, ao açular a sua polícia política contra os cultores da língua universal.
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De facto foi essa a atitude persecutória seguida em Portugal e, fora de Portugal, por países identificados com ideologia similar.
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No entanto - e pelo menos até ao 20º Congresso - os Esperantistas foram igualmente perseguidos sob Estaline, na União Soviética.
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O que me leva a recordar a explicação do meu primeiro professor de Esperanto [1] - nas mesas do "Terminus", ao fundo, junto aos bilhares - ao referir que "o Esperanto não é lá muito querido dos regimes totalitários". [2]

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[1] "Fervojisto", claro, como eram muitos dos Esperantistas daqui.
[2] Como não o é pelos detentores de línguas hegemónicas (talvez os Franceses hoje possam retrospectivamente meditar na guerra que moveram ao Esperanto nos primeiros decénios do sec.XX) ou pelos representantes de uma ignorância que é tudo menos santa e que já levou alguns broncos - porque certamente pensando que estariam a protagonizar um significativo acto político de esperada repercussão local - a partirem "delicadamente" à marretada a evocação de Zamenhof na homónima praça desta terra.

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Segue um cartaz de propaganda de uma língua que se aprende em 3 meses, que tem cursos gratuitos na "net" e que permite aceder a conhecimentos de outra forma dificilmente acessíveis:
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imagem do Projekto NESTO através do local iesdolmendasoto.org/blog

Outras postagens sobre ESPERANTO (ou referindo-o) neste Blogue: 2006.09.09, 2006.07.29, 2006.07.26, 2006.05.12, 2005.12.05, 2005.12.03. Espero que sejam coerentes!

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Alberto Lisboa Cohen - Um novo texto

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Em 4 do corrente mês de Julho tive o prazer de postar um excelente texto da autoria do escritor e poeta brasileiro Alberto Lisboa Cohen - de que dei então devida notícia biográfica.
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Honra-me esse Autor com um novo texto, que gostosamente passo a inserir aqui e que muito valoriza este blogue. Bem haja, pois!

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"Somente para os teus olhos

AlbertoCohen

De repente, essa canção saída do passado, do frio e dos lençóis da última madrugada que passamos juntos na entrega desesperada do saber antecipado que seria a derradeira de um amor sem fim.

Quantos adjetivos criamos e carinhos inventamos, como se quiséssemos fazer uma provisão deles para as próximas madrugadas sem nós dois. Homem e mulher sem solução nem planos, cultivando a única esperança de que os galos não entoassem o hino do nosso ponto final.

Órfãos de um futuro que nos foi tomado, marcamos nossas carnes com os lábios e dentes da paixão em brasa, como se cada um esperasse deixar no outro, indelével, a mensagem: “Estive aqui”.

Depois a solidão conferindo, passo a passo, os dias transcorridos sem o teu corpo, irremediável complemento do meu.

E, agora, vem o Billy Eckstine cantar de novo I Apologise, trazendo aos meus olhos o saldo das lágrimas que eu julgava haver chorado todas, misturadas com as tuas, naqueles momentos em que as almas, mais que os corpos, embaralharam-se tanto que até hoje não conseguem separar-se.

Pego o telefone e faço o que jurei jamais fazer: Disco o número proibido, na esperança que atendas e em meu silêncio escutes teu verdadeiro nome que só eu conheço, pois te batizei. Se me deres, também, o silêncio, ele falará por nós e dirá que aquela madrugada de salvados e perdas, ao som do Billy Eckstine, foi bem maior que todo o resto de nossas vidas."


quarta-feira, 25 de julho de 2007

A floresta ardida todas as manhãs (com uma nota biliosa sobre a alienação pelo consumo)

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TARSILA DO AMARAL, Floresta, 1929
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de S.Paulo
http://www.capivari.sp.gov.br/images/cultura/obras_tarsila/floresta.jpg

Não tenho nada contra os jornais gratuitos (que até têm a vantagem de trazer a leitura a quem habitualmente a não tinha e não a procurava) nem contra os jornais pagos. Mas todas as manhãs, à saída do "ferry", à entrada no metro, na área de acesso, na entrada do supermercado, na portaria do hospital, pelas mesas do "café", multiplicados/as pelas principais cidades do Mundo em que tal prática se assume e generaliza, contemplo com atenção triste as árvores que estão ali, nas folhas que são lidas e nas que se deitam fora, no reciclado e no não reciclado, no recebido e no rejeitado. Foram verdes, essas árvores e folhas. Algures, num "era uma vez" de floresta que deixou de o ser.
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A tempo: Esta expressão "deixar de o ser" funcionou aqui, e para mim, como funciona uma "deixa" no teatro. E não a vou perder, extravasada numa breve reflexão. Porque, além desta, há outras práticas que inevitavelmente deixarão de o ser. Nestas, numa futurologia provável, tenho de incluir os grandes centros de vendas, catedrais de consumo, que novamente proliferam e são contemplados como sucesso urbano por autarcas que vêem naquilo "o bem estar das populações". Já existem sinais de saturação e de modificação dos padrões de procura. Recordo-me do tempo (e não foi há muitos anos) em que um responsável por uma grande superfície, numa conferência a que assisti, menosprezava a concorrência das lojas de desconto e em que uma dona de casa de classe média fazia o gosto de me dizer por que razão, ao contrário do que eu afirmava, se não abastecia "ali" e me lançava à cara o "escasso sortido" por estas oferecido - e veja-se o que sucede hoje! Ainda se não ponderou em como o ciclo do "sair de casa - entrar no carro próprio (ou no meio de transporte) - chegar - tirar o carri- entrar na
loja- encher (quando é possível) o carri - levar à frente-loja - esperar - esvaziar o carri no tapete rolante da caixa - pagar - empacotar em sacaria plástica - colocar tudo novamente no carri - ir para o carro (ou o meio de transporte) - esvaziar o carri e encher a mala do carro (ou atravancar o meio de transporte) - arrumar o carri (antes ou depois) - ir para casa - abrir e esvaziar a mala do carro (ou arrastar a sacaria do meio de transporte) - subir a escada (quando haja) com a sacaria - tirar o material da sacaria - enfrentar a gaveta da cozinha que está pejadinha de sacos que nunca mais se voltarão a usar todos - arrumar o material no seu destino" contribui (em quantas operações elementares?) para o aumento da entropia do Universo? Mas já há quem tenha ponderado isso, de um lado e de outro da relação de compra e venda, incluindo a distribuição e as concorrências entre estabelecimentos, e, com isso, os meios alternativos vão acentuadamente crescendo. Qual o papel das actuais superfícies nesse futuro que as espera? É evidente que, em países menos desenvolvidos, o culto capitalista, a verdadeira ritualização que se celebra nas "catedrais do consumismo", ainda se vai prolongar, ainda vai ser fomentado, ainda vai ser reformulado com ofertas de "actividades acessórias", com as garantias de "diz, espelho teu, onde comprarás mais barato que aquilo que esta casa te vendeu?", com a habilidosa fascinação pelo objecto que acompanha o discurso da mercadoria. Mas, cedo ou tarde, acabará por cair. Reparem nisso! E reparem também nesta proliferação de discursos quanto ao "bem estar das populações" que se associa a essas mesmas "catedrais"! Provindo aparentemente de todos os quadrantes e sensibilidades políticas, onde estará o denominador comum? Jean-Marie Vincent, como tinhas razão!
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terça-feira, 24 de julho de 2007

Linha de água

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Pois, de uma terra que eu cá sei (mas haverá certamente várias assim!), comunicam-me que vai novamente ser colocado equipamento urbano numa linha de natural escoamento de águas. Já o fizeram - não longe dali - e o efeito também já se viu, umas três ou quatro vezes, pelo menos. Mas insistem! É mesmo preciso ser tejo-masoquista!
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segunda-feira, 23 de julho de 2007

ICE! = "In Case of Emergency"

De fonte que reputo fideligna, acabo de receber o seguinte e-grama que me parece muito útil:
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"Os serviços de socorro em sinistros já certamente se deram conta de que muitas vezes, nos acidentes rodoviários, os feridos trazem consigo um telemóvel. No entanto, na hora de intervirem, não se sabe a quem contactar da lista interminável de números.
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Em países mais evoluídos (ou pelo menos reflectidos) nestas coisas lançou-se por isso a ideia de toda a gente acrescentar na sua agenda telefónica SOB UMA MESMA ENTRADA o telefone da pessoa à qual contactar em caso de urgência.
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O nome internacional é ICE (In Case of Emergency).

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Com este número inscreveremos a pessoa com a qual deverão contactar os bombeiros, polícias, INEM, protecção civil...
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Quando houver várias opções poderemos assinalá-las como ICE1, ICE2, ICE3, etc. É simples, não custa nada e pode ajudar-nos muito! Se vos parece uma boa ideia, passem esta mensagem ao maior número de pessoas."
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NOTA EM 070727: O título e texto da presente postagem foram corrigidos nesta data pelas razões que constam dos comentários e que entendo útil consultar. Esclareço que a fonte original da informação que recebi não se identifica com o Autor do 2º comentário. Sugiro um passeio no Google ou em qualquer outro motor de pesquisa em "in case of emergency". Assinalo ainda que, nos EUA, foram já concebidos autocolantes para colocar nos telemóveis assinalando que estes contém "endereços ICE". Sobretudo - e finalmente - agradeço as visitas que originaram ou comentaram esta postagem e que lhe vieram dar, assim, efectivo valor.
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domingo, 22 de julho de 2007

Arrumários

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(Gravura, com a devida vénia, de http://www.icmc.sc.usp.br/~smania/sma127/caos.gif)

Uma das minhas Filhas, com a lógica infantil que na altura lhe era natural, chamava os "Armários" de "Arrumários".
- - - « « « «» » » » - - -
Aceitando essa mesma lógica, todo o meu domingo foi de uma luta aberta com diversos "Desarrumários". E eles iam ganhando! ...
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sábado, 21 de julho de 2007

Vai uma fresquinha (como o próprio Mucha gostaria) ?

Bières de la Meuse (Cervejas do Mosa),
um cartaz de Alphons Mucha

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Uma esquadrilha de bombardeamento...

Em finais de 1936 Portugal adquirira à Alemanha dez trimotores "Junker's" dez para constituir uma esquadrilha de bombardeamento - atitude muito então na moda se se considerarem os excelentes desempenhos que essas mesmas máquinas iriam ter nos céus de Madrid, Guernica e de outras cidades onde flutuasse a tricolor republicana espanhola. Um verdadeiro regabofe de bons aviões - e eles lá vieram, em demanda da base de Sintra, onde os referidos dez eram dados como felizmente chegados no início de 1937.

Mas o mais curioso é que, aproveitando essa auspiciosa chegada, o ilustre ministro da Educação Nacional à altura lembrou-se de dirigir alguma instruções aos senhores professores, como seguem, tiradas de um jornal da época (de início de Janeiro de 1937, ainda estavam os estudantes em férias de Natal). Vale a pena ler!

Educação cívica nas escolas primárias

O sr. Ministro da Educação Nacional determinou o seguinte:

1) – Os professores de ensino primário elementa aproveitarão todos os acontecimentos de expressão nacional para instruírem os alunos, mas sobretudo para educá-los no amor da Pátria e na gratidão aos Homens que a servem e por ela se sacrificam;

2) – Na primeira aula depois destas férias do Natal explicarão aos alunos a aquisição, a viagem e a chegada da primeira esquadrilha de aviões de bombardeamento, o seu valor como arma poderosa do exército para a defesa da Pátria e como fruto da obra do Estado Novo sob a égide do General Carmona e graças à modelar administração do Doutor Oliveira Salazar;

3) – Procurarão despertar nos alunos a admiração por tão altos exemplos e o gosto de imitá-los, e fazer-lhes compreender como a «Mocidade Portuguesa» é uma escola que os preparará para realizarem tão nobres ambições;

4) – Tudo será feito descritivamente e em palavras simples, acessíveis à inteligência e sensibilidade dos alunos, do que cada professor enviará resumida nota à respectiva Direcção do Distrito Escolar;

5) – O director do Distrito Escolar enviará à Direcção Geral, até ao fim de Janeiro, um relatório do modo como foi cumprida esta determinação pelos professores da sua área, individualmente considerados.”

Eh!


quinta-feira, 19 de julho de 2007

Mais um...

Quando, em 20 de Junho de 2007, mostrei o efeito arrasador do avião de carga que, a 4 de Outubro de 1992, não conseguiu vencer a pista do aeroporto de Amsterdam e se desfez mutuamente com um prédio de andares, pretendia apenas manifestar a minha revolta face à facilidade com que certas correntes político-económicas esbracejaram na época com o modelo "Portela+1" como sendo um dado adquirido, sem nunca destacarem com devido relevo o perigo real que, para os que voam e os que não voam, corresponde a um areoporto no meio de uma cidade.

Congonhas veio, infeliz e tragicamente, demonstrar isso mesmo.

Numa breve entrevista hoje publicada na pag 3 do JN, sob o título "Um desastre evitável", o Comandante Sousa Monteiro, comandante sénior reformado da TAP e docente da Universidade Lusófona, é bem claro quanto a essa questão. Leia-se esse objectivo texto, que corresponde à declaração de "um saber de quem sabe", e tome-se bem em conta, em quaisquer estudos que a entidade X ou Y queira fazer, o crucial aspecto da segurança - tendo também a certeza que a saturação de um aeroporto, como inegavelmente sucede com a actual Portela, para além dos inúmeros incómodos que causa aos passageiros, deve também ser continuamente avaliada nessa perspectiva [1].

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[1] Por exemplo: quantos aviões terão recentemente "borregado" na sua manobra de aterragem na Portela?
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quarta-feira, 18 de julho de 2007

Pousada de Saramagos


Descritivo do brasão da freguesia de Pousada de Saramagos,
do concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga,
como consta do Diário da República, III Série de
12 de Junho de 2000:

Escudo de ouro, uma roda dentada de vermelho, entre dois ramos de saramago de verde, com os pés passados em aspa; em chefe, uma lançadeira de vermelho, com fio de prata, posta em faixa; pé ondado de azul e prata de três tiras. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro em maiúsculas : “ POUSADA DE SARAMAGOS “. [1][2]

Brasão da freguesia de Pousada de Saramagos


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[1] Com a devida vénia a
onde podem ser recolhidos mais pormenores. O presente brasão é um dos interessantes exemplos da introdução de equipamento fabril na heráldica autárquica: para além da roda dentada, que é relativamente comum e geral, encontramos aqui a lançadeira de tear que identifica iniludivelmente a actividade têxtil (tecelagem).
[2] O saramago maior é uma planta aparentada com a couve e a mostarda e que dá pelos nomes científicos de Armoracia rusticana, syn. Cochlearia armoracia. Usadas as suas raízes como condimento picante, ganha na Alemanha o nome de "Meeretisch" e na Inglaterra o, mais conhecido, de "Horseradish" - mas também, entre nós, se conhece como "raiz forte" ou "rábano picante" (nome este que também tem em Espanha). É pela denominação da freguesia que surge representado no brasão.
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terça-feira, 17 de julho de 2007

"Les corons" [1][2]


Uma excelente canção que recorda as minas de carvão do norte da França, mas que traz consigo a imagem histórica de todas as minas de carvão, composta e cantada em 1982 por Pierre Bachelet (hoje já desaparecido, 1944-2005) [3], com poema de Jean Pierre Lang. Vale a pena ouvir em http://www.paroles.net/chansons/13281.htm [4]:

{Refrão:}
Au nord, c'étaient les corons
La terre c'était le charbon
Le ciel c'était l'horizon
Les hommes des mineurs de fond

Nos fenêtres donnaient sur des f'nêtres semblables
Et la pluie mouillait mon cartable
Et mon père en rentrant avait les yeux si bleus
Que je croyais voir le ciel bleu
J'apprenais mes leçons, la joue contre son bras
Je crois qu'il était fier de moi
Il était généreux comme ceux du pays
Et je lui dois ce que je suis

{Refrão}

Et c'était mon enfance, et elle était heureuse
Dans la buée des lessiveuses
Et j'avais des terrils à défaut de montagnes
D'en haut je voyais la campagne
Mon père était "gueule noire" comme l'étaient ses parents
Ma mère avait les cheveux blancs
Ils étaient de la fosse, comme on est d'un pays
Grâce à eux je sais qui je suis

{Refrão}

Y avait à la mairie le jour de la kermesse
Une photo de Jean Jaures
Et chaque verre de vin était un diamant rose
Posé sur fond de silicose
Ils parlaient de 36 et des coups de grisou
Des accidents du fond du trou
Ils aimaient leur métier comme on aime un pays
C'est avec eux que j'ai compris

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[1] No Pas de Calais, Norte da França, era a designação dos bairros mineiros. Para um apontamento do que era o convívio quotidiano nestes bairros, visite-se
de onde aliás foi retirada a fotografia histórica que encima esta postagem.
[2] Para uma história das minas do Norte / Pas de Calais, sugere-se o excelente portal
e a cronologia que acompanha o portal de Charbonnages de France em
[3] Esta canção, que também pode ser encontrada numa das suas interpretações originais no "youtube", deu, em França, uma acrescida notoriedade a Pierre Bachelet como autor e intérprete (entre nós talvez mais conhecido pela "chanson d'Emmanuelle", tema hoje nostálgico de um filme que, no momento, pouco o era).
[4] Tornando-se num dos "hinos do Norte" (em França, claro, ainda que também naturalmente extensivo a outras regiões historicamente ligadas à exploração do carvão), "Les Corons" é hoje um dos toques de telemóveis mais procurados na região! Pela força que contém e pelo seu significado, foi "adoptado" pelas claques do clube de futebol de Lens como um dos seus temas... mas não só: a referência a Jean Jaurés, apesar da profunda transformação da área com a sucessiva paragem das minas, ainda diz (e continuará a recordar e dizer) muita coisa!
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segunda-feira, 16 de julho de 2007

Comprar o JN em Lisboa...

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O meu novo perfil de actividades determina algumas alterações em hábitos de percurso. Ecologicamente reactivei o meu "Lisboa Viva", revisitei os catamarãs do Tejo (ainda não sei quem teria razão naquela enorme discussão fundo plano vs/ catamarãs, mas a verdade é que estes aqui estão!), conheci os horários da Biblioteca Nacional, visito sempre que posso a evolução de uma cidade do centro do País pelo estudo do seu "jornal de referência", tomo as minhas "bicas" exactamente quando e como gosto. Quanto tempo, não sei - ou, como dizia um dos meus compadres (ainda subsistem alguns) "o tempo que existir e, do que existir, o que for preciso". Adiante...

Não escondo que não surgiram também problemas, nesta brusca adaptação. Um deles foi... adquirir em Lisboa o meu JN. Leio o JN (Jornal de Notícias, claro!) desde que me recordo. E tenho tido a possibilidade de, pelas diversas paragens em que me vi sucessivamente levado a assentar arraiais, obter praticamente sem interrupção o seu fornecimento. Em Lisboa e agora não tem sido assim: no meu trajecto do Terreiro do Paço a Entre-Campos, começando até antes, no interessante terminal do Barreiro, quando pergunto aos titulares da bancas se têm o JN (e eu, só para chatear, insisto em perguntar sempre) apanho com as mesmas caras fechadas e a mesma sistemática negativa! Só uma-vez-uma, e algo fora desse trajecto habitual, encontrei quem simpaticamente me dissesse: "olhe, já vendi os que tinha!".

O que se passa? Se é um problema de distribuição, então os senhores da distribuição que vejam as coisas. Se é um problema de abandono de interesse por falta de procura (e é estranho, granjeando o JN - além de ser o meu jornal, claro - a fama e o proveito de ser um dos diários de maior venda no País!) então os senhores das vendas procurem saber por que razão se não vende. Se é um problema de embirração local por o JN, embora tenha uma edição do Sul, ser essencialmente um jornal do Norte, então procure-se corrigir essa polarização doentia (e talvez de costela futebolística).

Há que ver rigorosamente o que se passa: não é normal ir sistematicamente a ~10 bancadas de venda num itinerário relativamente frequente da capital, carregadinhas que estão de outros jornais por vender (não menciono nomes porque sou contra a tendência recente e chineleira de, na política como noutras coisas, querer fazer mercado pelo confronto negativo!), e encontrar em todas, quanto ao JN, a mesma resposta vazia e as mesmas caras de lata. Ou tenho que concluir que o JN é tão bom, tão bom que se esgota logo que cai nas superfícies de exposição? E, se assim for, que os responsáveis pela manutenção da oferta reforcem as vendas, pelo aumento dos contingentes!

Uma cópia desta prosa vai direitinha para o provedor do leitor do dito periódico que, há tantos anos, surfadas as ondas de algumas ameaças e de outros tantos receios, continua a ser teimosamente o meu!.
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domingo, 15 de julho de 2007

Retrato de um patrão entre muitos: D.Pedro Duro (Brieva, 1810 - La Felguera, 1886)

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"Industrial metalúrgico, comerciante e banqueiro espanhol. Nasceu em Brieva de Cameros, La Rioja, em 1810, e morreu em La Felguera, Astúrias, em 1886. Ainda muito jovem, Pedro Duro y Benito partiu para Madrid, onde começou a trabalhar numa importante casa comercial. Mais tarde, foi corretor de Bolsa, adquirindo um elevado prestígio entre os seus colegas. Tendo construído uma fortuna de média dimensão, foi um estudioso de assuntos económicos e um apaixonado pelas ideias de progresso industrial que da Europa Central iam chegando.

Em 1857, com seu irmão Julião, os investidores Bayo e Victoria de Lecea e um pequeno número de amigos, funda a sociedade "Duro y Compañía", para a criação de uma unidade siderúrgica. Escolhe, para localizar essa instalação, a povoação asturiana de La Felguera, no concelho de Langreo, onde havia abundância quer de água fluvial [os rios Nalón e Candín], quer de carvão fóssil, e que também oferecia boas comunicações rodoviárias e ferroviárias com a costa e o interior. Sob a sua direcção e gestão, a empresa que constitui chegou a ser o primeiro estabelecimento metalúrgico de Espanha. Em 1861 produz 2.218 toneladas de ferro; 20 anos depois produz mais de 16.000, ganhando inúmeros prémios em exposições nacionais e universais e o merecimento que lhe é reconhecido pela atribuição da Gran Cruz de Isabel a Católica, de Espanha, e da Legião de Honra francesa. Em 1900 a sociedade que criou constitui-se como Sociedad Metalúrgica Duro-Felguera [SMDF] e os seus títulos passam a ser cotados na Bolsa de Valores de Madrid a partir de 1902. A SMDF adquire as minas de carvão de Felgueroso e Filhos em 1920, convertendo-se numa importante sociedade mineiro-siderúrgica.

D. Pedro Duro sempre se preocupou com o bem estar dos seus operários, criando um montepio, fundações, casas económicas, hospital e escolas infantis. A localidade de La Felguera, agradecida ao seu adquirido e ilustre cidadão, constroi em 1917 o Parque Dolores F. Duro, assim denominado em homenagem à neta do industrial, dentro do qual se destaca o monumental coreto e o magnífico monumento erigido à memória de D.Pedro Duro.

Em 1966 o património siderúrgico da SMDF é integrado, com o de outras sociedades do ramo, na UNINSA, posteriormente ENSIDESA, e em 1967 o património mineiro incorpora-se na HUNOSA." [1][2]

A gravura que vem a seguir representa bem a dimensão da SMDF em La Felguera em 1943:


e a estátua de D.Pedro Duro, em La Felguera, no seu enquadramento actual, também se mostra:

La Felguera (Langreo, Astúrias): Estátua de D.Pedro Duro

Traduzi o texto anterior como recordação da minha experiência de La Felguera onde - não na SMDF mas numa instalação periférica e inclusive satélite daquela, pela sua primeira razão industrial, a SIN - Sociedade Ibérica del Nitrogeno [3] - estagiei na segunda metade dos anos 50. A cidade era ainda agitada pelo labor de diversas unidades industriais importantes que ocupavam a bacia dos dois rios asturianos que a desenhavam, com realce para o Nalón, de que o Candín é afluente - e, de noite, iluminava-se com o clarão dos altos fornos da SMDF. Era uma região politicamente consciente, policialmente controlada, ou não se situasse nas Astúrias, tendo outras grandes similitudes com o Barreiro - e, em também semelhança com o Barreiro, viria a sofrer dramaticamente as consequências da desindustrialização no último quartel do sec. XX [4].

O "retrato de um patrão entre muitos" que aqui se reproduziu, polémico fundador de indústria e de emprego, pode ser re-encontrado noutras sociedades e localizações industriais que, desde outros polos da vizinha Espanha , passam certamente pela Inglaterra e a Europa Central (França, Bélgica, Alemanha, Suíça, Norte de Itália e Império Austro-Húngaro) e vão até aos confins da Rússia [5][6]. No nosso caso nacional, habitual "aldeia de Asterix's fisiocratas" que não deixamos de ser, essencialmente agrários e economicamente suportados pelos menores riscos de uma actividade comercial e por temporárias muletas primeiro sul-americana e depois africana, tivemos também um excelente exemplo de promotor industrial - e é manifesto provincianismo estudá-lo sem o relacionar com todo esse enquadramento desenvolvimentista da época, acompanhado por uma preocupação social ligada à Indústria como procurou Bismarck [7]. Este, ao corrigir "à sua moda" alguns dos desumanos desmandos da Revolução Industrial pura e dura, criou a ideia de "segurança social", estancou de facto o fluxo de mão de obra alemã para as Américas e lançou as bases de uma industrialização vigorosa, de que a casa Krupp e as mais conhecidas sociedades químicas alemãs seriam exemplo. Ora, em criação de indústria significativa, de dimensão europeia, inserida nessa corrente histórica, foi mesmo pena termos tido um único exemplo... e algo tardio![7a]

A nossa falta de experiência industrial histórica, salvo excepções pontuais como a que reforçou o nome do Barreiro no mapa, permite o exagero unilateral de modernas mas aparentemente atractivas postulações quanto a esses patrões que foram modelo de época e de quem se chega a afirmar que "eram tão maus, tão maus, que até era por mal todo o bem que faziam" - ainda que seja certo que, para usar a mesma terminologia, na quase totalidade (senão na totalidade mesmo) dos casos que poderemos listar se lhes tenha que reconhecer que nunca alienaram, ou desmentiram, ou deixaram de afirmar com vigor a sua própria consciência de classe. Não se receie pois a palavra "paternalismo": ele existiu, como característica e até preocupação do momento, e nunca foi escamoteado o seu exercício. Claramente o afirmaram, se é que quaisquer retratistas históricos disso possam ter quaisquer dúvidas!

Também se não pretenda diminuir a capacidade de realização desses industriais, "urbi et orbi", dizendo que foram beneficiados por afrontosos proteccionismos estatais, que permitiram essas mesmas construções societárias - mas escondendo que isso era uma prática generalizada na época: todos então o foram e todos os países beneficiaram de manifestas protecções pautais às próprias indústrias e é efectiva má-fé esconder este facto ou, omitindo-o, transpô-lo para um confronto com os processos de abertura que hoje existem e que, como globalização, também já vão criando as suas vítimas.

Ao comentário ambiental que intencional ou negligentemente também se isole da sua própria época, responde-se igualmente com uma simples pergunta [8].

Uma realidade tem sempre duas faces, a que inevitavelmente se juntam um local e uma época - e a sua correcta leitura impõe o reconhecimento da existência dessas componentes e da dinâmica social que se lhes associa. Já houve quem claramente o reconhecesse e dissesse, com outras palavras. E tinha barbas.
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[1] Este texto e a vera efígie de D.Pedro Duro que o antecede são provenientes do portal http://www.valvanera.com/riduro1.htm.
[2] Aproveito a ocasião para corrigira minha mensagem de Junho de 2006 neste blogue. Decerto contagiado pelo passado complicado da nossa EMMA (um dia teremos que falar disso), coloquei um duplo M e acrescentei o designativo "Mineira" à SMDF, assim erradamente designada como "Sociedade Mineira e Metalúrgica Duro-Felguera" mas que na realidade ficou "Sociedade Metalúrgica Duro Felguera" e nada mais. Como é evidente da peça anterior, não teria desmerecido esse atributo...
[3] A SIN era participada de outro grande "monstro" industrial espanhol, a "UEE" = Unión Española de Explosivos a que neste blogue já me referi. A sua história inicia-se nos anos 30, como primeira unidade industrial a utilizar os gases de coqueria da SMDF, neste caso para o fabrico de amoníaco (fábrica de Vega). Terá sido a primeira unidade espanhola a fazer a síntese do amoníaco (em Portugal... anos 50). Nos anos 50, a SIN instalou em Barros, também em La Felguera, uma unidade mais moderna, produzindo o gás de síntese por gasificação de carvão (em gasogenios Power Gas). Foi aí que eu estagiei e também fiz as minhas primeiras burrices técnicas... e, para começar, deram-me um problema insolúvel em que só um "patinho" e com muito boa vontade procuraria achar uma solução. A "bíblia", claro está, era o GUMZ! E à noite ia dançar-se nos prados!
[4] Aliás nas Astúrias, e em particular em La Felguera, estas perturbações começaram mais cedo, precedendo de perto a reestruturação industrial violenta que o Governo Espanhol empreendeu nos anos 60 - e foi pena não se terem estudado, então, as consequências dessa alteração premonitória. A maior ameaça para La Felguera situou-se na realização do complexo da ENSIDESA, em Avilês; a maior ameaça para o Barreiro situou-se no Complexo de Sines - e em ambos os casos surgiram os respectivos Governos como "reordenadores industriais" (até aqui são semelhantes os perfis, caspité!)
[5] Cito muito o caso das "fábricas Putilov", que tiveram papel preponderante nos acontecimentos de 1917 em Petrogrado. Ao criar as suas fábricas o Sr. Putilov, que certamente foi outro patrão de indústria, criou as condições para que uma cultura operária nelas se gerasse, mas certamente não procurou isso. Porém, sem a intervenção empregadora e capitalista do Sr. Putilov, essa situação não surgiria. Donde podermo-nos interrogar seriamente sobre qual o papel efectivo (ainda que involuntário) do Sr.Putilov no outubro(que foi novembro) de 1917. Razão tinha afinal o inefável AOS em, lá no fundo, desconfiar sempre da Indústria! De facto, como ele veladamente daria a entender (ando à procura da frase do discurso em que o disse), a Indústria só dá chatices!
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Espero que não se queira que eu desencante mais exemplos, mas se for preciso arranjam-se.
[7] Antecipando o sociólogo socialista sueco Gunnar Myrdal, já na década de 30 (ao defender como investimentos, e não custos, as modernas políticas sociais) ,
o insuspeito chanceler alemão Otto von Bismarck, de cepa caracteristicamente conservadora, seguiu uma política bifronte em que, ao lado de uma legislação anti-socialista severa, promulgou inovadores decretos de protecção aos trabalhadores, incluindo o seguro de acidentes, a protecção na doença, a reforma por velhice e compensações por incapacidade, limitações ao trabalho infantil, etc. etc. (medidas essas que podem ter estado na origem da sua demissão, em 1890). Acusa-se certamente Bismarck de ter sido um motor de alienação do operariado - mas a verdade é que as medidas por ele assumidas inspiraram numerosos chefes de empresa e estão, reconhecidamente, na origem do estado social que Blum iria reforçar com os "congés payés" e que hoje outras forças não desistiram de, passinho a passinho, ir pondo em causa. As reformas sociais de Bismarck, contidas em três leis, foram promulgadas entre 1883 e 1889: as medidas propostas eram parcialmente cobertas pelo Estado, que assumiria uma parte limitada dos respectivos encargos e controlaria a sua aplicação, mas - para o capital - a faceta mais "chocante" e perturbadora nessas iniciativas era obrigar os empregadores a fiscalmente comparticiparem nesses inovadores esquemas de segurança social.
[7a] Porque surgiram surpreendentes dúvidas e confusões com algumas figuras "nouvelle vague", confirmo que, de facto e sem quaisquer reticências, estou mesmo a referir-me a Alfredo da Silva [1871-1942] como figura completa, com o que de bom e o de mau possa ter tido (e que certamente nem uma coisa nem outra enjeitaria), posicionado no seu tempo e no espaço em que exerceu a sua actividade.
[8] Quem não lavou os seus dentes (ou tratou de uma leve moléstia de garganta) com um dentífrico (ou um medicamento) contendo hexaclorofeno, à venda em qualquer supermercado (ou em qualquer farmácia) e profusamente anunciado na rádio e na TV? E por que razão não continua a usar, com tal fim (e até porque já não lho oferecem) esse "excelente" produto químico?
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sábado, 14 de julho de 2007

Universidade do Porto ao encontro de antigos alunos - Adenda

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Vista do lado do "Piolho", se bem se recordarem...
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Completando a mensagem deixada aqui a 6 do corrente, sob este título, penso não cometer qualquer indiscrição ao referir uma escala complementar de identificação com a organização referida e que pode ser desde já avançada:

De facto, ao estabelecer o primeiro contacto e ao dar as primeira informações da sua existência e interesse, da forma então indicada, quem mencionou um endereço electrónico remetente poderá neste receber um e-grama de resposta com informações quer quanto à Revista UPorto Alumni, quer quanto ao boletim informativo ("Newsletter" [1]) da Universidade do Porto.

Porém, no mesmo, acrescenta-se que "para que a sua informação fique completa no registo dos Antigos Alunos UPorto" se solicita que, "se quiser e quando lhe for possível, preencha o formulário electrónico destinado ao registo de Antigos alunos que se encontra disponível na página da Universidade do Porto. Com este registo a Universidade poderá fazer-lhe chegar informação seleccionada, sempre que tal se mostre relevante."

Ora pode facilmente bater-se à porta deste inquérito através do portal ("site") da Universidade do Porto em
procurando o acesso "Antigos Alunos" na lista à esquerda ou actuando imediatamente a caixa "Antigos Alunos - Inquérito" que se encontra bem visível nesta página entre as "Ultimas Notícias" e o Calendário mensal. Se se usar o primeiro acesso, chega-se a um elenco mais vasto no que à "malta-AA" interessa e que inclui (agora à direita) as rubricas "Documentos" (ler as regalias para os antigos alunos, votadas pelo Senado em 8 de Novembro de 2006),"Inquérito" (o tal a responder),"Gabinete dos AA", "Bolsa de Emprego", "Educação Contínua" e "UPIN - UP Inovação". Boa visita! [2]

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[1] Embirrando com esta generalização de termos gringos, procurei saber se haveria alternativas a este generalizado anglicismo, que todos deveríamos ter a obrigação e a preocupação de travar em uso (ponha-se ao menos o designativo português e coloque-se o inglês entre parêntesis e em letra pequenina, para uso dos que se possam estar a passar). E, como em muitas outras coisas,existe - e tanto existe que já foi motivo de consulta em
que, com a devida vénia, seguidamente se transcreve:

"O anglicismo "newsletter" = «boletim informativo»

[Pergunta] No sítio da Presidência Portuguesa da UE, na versão portuguesa, surge no menu uma palavra que eu não conheço (ou que teimo em não conhecer quando falo português): newsletter.

Perguntas:
Será que eles queriam dizer e escrever «boletim informativo»?
Enganaram-se, ou fugiu-lhe a perna para o estrangeirismo fácil, pedante, desnecesssário e bacoco?
Pelourinho com eles.
Peter K .Smith :: Trabalhador :: Bruxelas, Bélgica

[Resposta] O anglicismo newsletter é de fa(c)to desnecessário. Três dicionários bilingues, o Oxford Portuguese Dictionary, O Webster´s Dicionário Inglês-Português, de Antônio Houaiss e Ismael Cardim, e o Dicionário Verbo Oxford Inglês-Português, mostram que a palavra inglesa se traduz por «boletim informativo». O dicionário de Houaiss e Cardim dá ainda circular como equivalente de newsletter.
J.M.C./C. R. :: 25/06/2007"

[2] Esta mensagem será também integralmente colocada no blogue http://LAH-1954.blogspot.com

sexta-feira, 13 de julho de 2007

O quê?

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quinta-feira, 12 de julho de 2007

Cadeiras

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quarta-feira, 11 de julho de 2007

Esquina da "baixa", em Lisboa

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terça-feira, 10 de julho de 2007

Sexta-feira passada ... - 2

(continuação)


Quem já navegou por este desordenado blogue sabe que o Abade de Jazente (por vezes aparece escrito Jazende), Paulino António Cabral de Vasconcellos (1719-1789), é um dos meus poetas favoritos. Soube superar a sotaina e poetar com excelente gosto. Soube dialogar em verso com os seus amigos e, de tal forma, que quanto a um deles, Teodoro de Sá Coutinho, as "poesias completas" trazem poemas de ambos, num estilo "parada e resposta" (mas com sonetos!) que torna delicioso o exercício da leitura. Permite-se apreciar a graça feminina, viver a sua terra, o seu ambiente e, de uma forma sábia, vai sucessivamente encontrando a sua idade. E que dizer desta abordagem confessadamente geométrica?

São linhas curvas, Nize, os teus cabelos,
A frente superfície a mais brilhante,
A celha semi-círculo distante
E dous globos de luz os olhos belos;

A boca prendem ângulos singelos,
O nariz forma lombo dominante,
Que do centro do Eclíptico semblante
Horizontiza extremos paralelos.

Nele se abreviou dos Céus a Esfera;
Pois de quanto contempla a fantasia,
Em ti mais perto a vista considera,

E é tanta do teu rosto a simetria,
Que nele Euclides aprender pudera
Mais justas proporções de Geometria.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sexta-feira passada... - 1

Gravura da época da "Entente Cordiale" (1904)

Na sexta-feira passada deixei-me deambular pela livraria da BN. Diversas coisas de aconselhar, sim senhor, inclusive no campo técnico relacionado com bibliologia e arquivística - e com uma ponte para o tratamento assaz difícil dos registos informáticos. Noutros aspectos também - e é surpreendentemente curioso como por vezes enfrentamos a experiência decepcionante de procurar uma recordação para a amiga X ou o amigo Y, naufragando no usual dos expositores usuais e esquecendo essas outras vias à disposição para encontrar soluções pouco previsíveis mas efectivamente acertadas. Mas adiante! Ora eu, que tinha prometido a mim mesmo não comprar mais livros, achei-me bruscamente em frente duma situação inesperada e pior que as donzelas que andavam destapadinhas da silva em torno de Santo Antão no deserto (é verdade que Bosch estragou um pouco a atractividade dessas tentações, ao dar-lhes uma expressão genial mas que seria difícil de seduzir qualquer menos santo). Bom, à minha frente e a um preço convidativo o exemplar na altura único das "Poesias" do Abade de Jazente, no texto integral da 1ª edição com um ensaio de Miguel Tamen, na Biblioteca de Autores Portugueses da INCM, editada em Lisboa em 1985. Ao lado, mais conhecidos (mas certamente nem todos), os Sonetos de Bocage, reunidos como volume I da Obra Completa daquele setubalense nas Edições Caixotim, Porto, 2004. Trouxe ambos. E de ambos vou escolher dois sonetos bem diferentes. O primeiro, nesta mensagem, publicado que foi em 1805, é um curioso precursor (pela negativa) da ideia da "Entente Cordiale" e da ameaça dos consensos poderosos (Kissinger não escreveria melhor nos primeiros capítulos do seu "Diplomacia"):

"Mãe de chefes heróis, de heróis soldados
A Gália herdou de Roma o génio, a sorte;
Seus filhos no ígneo jogo de Mavorte
Viram márcios leões tremer curvados.

Mas alta lei dos penetrais sagrados
Baixou, que o fatal ímpeto reporte:
Fervendo em raios no oceano a morte,
Te obedece, ó Britânia, ao mando, aos Fados.

No Continente o Galo é deus da guerra;
O Anglo audaz sobre o pélago iracundo
Da vitória os pegões, troando, aferra...

Ah! Nutram sempre assim rancor profundo.
Um triunfa no mar, outro na terra;
Se as mãos se derem, que será do mundo!"

(continua)

domingo, 8 de julho de 2007

Uma graça de 1931...


- Nunca mais, Senhor Conselheiro, pude esquecer aquela história do burro que V.Exª. me contou o verão passado, lá na praia.

- Achou-lhe assim tanta graça?

- Imensa! Não calcula! Desde então não vejo um burro que me não lembre logo de V.Exª...

( Defesa de Arouca, nº 261, de 3 Janeiro 1931, pag 3 coluna 3)
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sábado, 7 de julho de 2007

Memória de Indústria - 7: Fábrica de Móveis no Lavradio

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sexta-feira, 6 de julho de 2007

Universidade do Porto ao encontro de antigos alunos


Da separata JN ANÚNCIOS de 5 do corrente, pag. 1, transcrevo, com a devida vénia, o texto publicado sob o título supra referido e ainda com dois subtítulos:

"Primeiro número da segunda série da revista "UPorto Alumni" pretende assumir-se como "veículo privilegiado para a troca de experiências, memórias e contactos"

e

Regresso ao passado

A Universidade do Porto (UP) quer "reencontrar-se" com os seus antigos alunos. A renovada revista "UPorto Alumni" é apenas o primeiro reflexo desta vontade.
Estudou na Universidade do Porto e gostava de voltar a pisar os espaços que marcaram parte importante da sua vida? Viveu histórias inesquecíveis e anseia relembrá-las com quem as partilhou? Olha com nostalgia para as fotografias onde ficaram impressos esses momentos inolvidáveis? Se a resposta é negativa a todas estas perguntas, pode seguir para a próxima página. Caso contrário, tem tudo para se tornar um dos alumni da UP.
Assim se designam os "novos" antigos alunos da universidade, ponto central da aposta desenvolvida pela instituição para se "reaproximar" de todos os que passaram pelas suas escolas. Mas por entre o pó levantado pelo tempo, forma-se nova interrogação: como chegar a todos aqueles que foram em tempos protagonistas da história da universidade?
Pois bem, o primeiro passo no "regresso" à universidade tem inevitavelmente de ser seu. Apenas precisa de entrar em contacto com o recém-criado Gabinete do Antigo Aluno da UP, enviando uma mensagem com o respectivo nome, morada e curso frequentado para o endereço de e-mail alumni@reit.up.pt ou para o endereço postal Gabinete do Antigo Aluno, Reitoria da Universidade do Porto, Praça Gomes Teixeira, 4099-002 PORTO.

Revista para (e feita por) si

O primeiro reflexo deste passo será a recepção em sua casa, de forma totalmente gratuita, das 52 páginas da mais recente edição da "UPorto Alumni", a renovada revista dos Antigos Alunos da Universidade do Porto. Com um novo grafismo e uma linha editorial dirigida especialmente para as necessidades informativas dos antigos alunos, a "UPorto Alumni" pretende assumir-se como "um veículo privilegiado para a troca de experiências, memórias e contactos" entre aqueles que já passaram pelos corredores da universidade.
Palavras do reitor José Marques dos Santos que fazem o primeiro número da segunda série desta publicação, pensada para "reforçar o sentimento de pertença dos antigos alunos à comunidade académica". Nesse sentido, através dos endereços já referidos, os alumni poderão contrbuir para a "sua" revista, enviando histórias e fotografias que ilustrem a experiência vivida enquanto estudantes da UP."


A TEMPO: ver mensagem de 14 do corrente, que complementa esta!
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quinta-feira, 5 de julho de 2007

Maçãs...


Num semanário de um concelho do Portugal profundo, porque o há, [1] contava-se, em 1927, a seguinte história - com nomes, locais e tudo:
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A um juiz de comarca foram entregues cabazes de maçãs, da parte de duas familiares de um réu preso por processo que estava a seu cargo. Compreensivelmente não gostando da inesperada atitude, que poderia sugerir uma expectativa de favorecimento, o juiz mandou imediatamente prender as ofertantes... e impôs uma condição: só seriam libertas quando acabassem de comer a última maçã dos cabazes que tinham trazido. [2]
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[1] Viagens utilíssimas no tempo e no espaço. O semanário é de Arouca (DdA, 31/12/1927, pag.2); o caso é de Forjães, Esposende.
[2] Redacção adaptada, claro (e não rigorosa transcrição)
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quarta-feira, 4 de julho de 2007

Alberto Lisboa Cohen

É com prazer que acolho neste blogue, com a devida autorização e a grafia original, o texto de um autor brasileiro que até agora nos não tinha visitado e que apresenta um excelente currículo literário. A nossa língua é, na verdade, uma riqueza repartida


Amigos, existe um garoto que surge todas as vezes em que nos olhamos no espelho.
Um abraço do AlbertoCohen.


O garoto que podia voar
Alberto Cohen

No palco de sua velhice ele não cultiva mais muitas saudades. Existe uma, no entanto, tão grande e forte que mais do que saudade é presença. Nos olhos surpresos, no riso maroto, na absurda esperança, bem no fundo do espelho ainda mora o garoto que podia voar.

Voava com os pássaros, com as pipas, com os aviões e, principalmente, com a imaginação. O espaço absoluto, sem porteiras, sem donos e sem pecados era o seu lugar, o grande desafio do mais pesado ser o mais leve. Tudo o que contrariava a gravidade o atraía e, afinal, tornou-se trapezista num circo mambembe.

Nos poucos segundos que separavam os trapézios, ele realizava o sonho de Ícaro e pairava na eternidade do desafio de não ter asas e mesmo assim voar. Era uma brisa, uma ave, um presságio, e quase queria não encontrar a outra barra e continuar voando para sempre. A tensão que precedia o início do salto valia pela sensação de não ter corpo, de fazer parte do vento.

Depois, as leis físicas que governam o destino dos homens e não permitem que eles sejam anjos, trouxeram-no para o lugar comum dos que rastejam no universo dos bens de consumo. Tentou ser prático, objetivo, mas apenas sonhou e envelheceu sonhando.

O menino fugiu para dentro do espelho, onde os dois se encontram, todos os dias, sem reclamações nem reprimendas, somente lembranças de um jovem trapezista e histórias de um velho que ainda voa, agora por muito mais tempo e num espaço cada vez maior, nas quimeras infinitas da poesia.

albertolcohen@yahoo.com.br

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Sobre o autor:

Alberto Lisboa Cohen

Residência: Avenida Gentil Bittencourt 867, apto. 1301 - Belém-PA

CEP 66040.000 __ Telefone: (91) 32300420

albertolcohen@terra.com.br e albertolcohen@yahoo.com.br

Biografia Literária

Advogado reside em Belém do Pará, onde nasceu em 12/02/42. Escreve desde jovem, mas somente a partir de 2003 decidiu expor seus poemas. Participou de alguns concursos literários nacionais e internacionais sendo contemplado com as seguintes distinções:

Livros Premiados e Editados
“Poemas Sem Dono”: Vencedor do II Prêmio Literário Livraria Asabeça - Editora Scortecci - SP – 2003.
“Caminhos de Não Chegar”: Vencedor do Prêmio de Literatura Instituto de Artes do Pará- IAP - Governo do Estado - PA - 2005.
“Juntando Pegadas”: Vencedor do Prêmio Vespasiano Ramos - Academia Paraense de Letras - PA - 2006.
“Caminhos de Não Chegar”: Vencedor da Láurea Cidade Poesia (Moderna) - Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES - SP - 2006.

Poesias e Poemas Premiados:
“Pacto”: Vencedor do IV Concurso Nacional de Poesia - Casa do Poeta Brasileiro - Poebras - Salvador-BA – 2003. (Publicado).
“Formal de Partilha”: Vencedor da Olimpíada Literária Pôr-do-Sol - Alternativo Pôr-do-Sol - Araraquara - SP- 2005.
”Rosa Vermelha”:
Troféu Prata - XVI Concurso Nacional de Poesia "Acadêmico Mário Marinho" - Academia de Letras e Artes de Paranapuã - ALAP - RJ - 2005.
“Formal de Partilha”: Destaque - 7º Habitasul Revelação Literária na Feira - Palavra de Autor (Escritores profissionais) 52ª Feira do Livro de Porto Alegre /RS/2006. (Publicado).
“Majestic”: 2º Colocado - Concurso Nacional de Poesia “Mário Quintana” - Academia Bauruense de Letras - SP - 2007. (Publicado).
“Justa Causa”: Seletiva - Panorama Literário Brasileiro/As 100 Melhores Poesias de 2004 - Cbje - RJ - 2004. (Publicado).
Diversos: Onze Menções Honrosas - 2003/2004/2005.

Mostras e Exposições:
VIII Feira Pan-Amazônica do Livro - Exposição do livro “Poemas Sem Dono” - 17 a 26 de setembro de 2004 - Belém-PA.
1ª Mostra de Poesia “Fragmentos d’Alma” (Grupo Ação Cultural Paidéia) - agosto de 2006 - Exposição dos poemas “Semeaduras” e “Tango” - Salão de Exposição da FUNDEC (Fundação de Desenvolvimento Cultural) - Sorocaba-SP.

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mambembe - vocábulo usado no Brasil e que significa: se substantivo (masculino) 1. local afastado, ermo; 2. grupo de teatro de rua amador; 3. grupo teatral; se adj. (comum de dois) 1. improvisado; 2. ordinário ; [tb. adv.: de improviso] [apud Wikipedia]

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A tempo: Têm-me feito saber que, em alguns sistemas, o retrato do Autor não aparece. Tentou-se resolver o incidente, sem obter soluções aceitáveis em termos de qualidade de imagem. Pede-se desculpa ao Autor (a quem se solicita o envio de uma foto .jpeg) e à audiência. A única consolação que resta é que noutros computadores (p.ex. neste!) permanece visível.

A tempo 2: Graças à foto recebida do Brasil, e que se agradece, foi nesta data (16 Julho) possível resolver o contratempo!

terça-feira, 3 de julho de 2007

Porque não evocar as "VITÓRIAS"?

Com destino ao blogue do Liceu, o meu colega Rui Abrunhosa, já daqui conhecido, enviou uma valiosa mensagem para todos aqueles que ainda escreveram em "lousa de lousa", com "lápis de lousa", tiravam "a prova dos nove", chateavam-se com a "prova real" que era trabalho dobrado & outras delícias da juventude, em que as meninas tinham laçarotes e andavam de bata em vez de andarem de calças de ganga baixadinhas na cinta ao rés-vés da região pubiana (o que não deixa de ser interessante). Aproprio-me dela (da postagem e não da região pubiana, convenhamos!) para este blog, não sem o ter avisado do premeditado abuso. Mas quem lhe manda escrever coisas com tanto interesse evocativo?

"Lembram todos, certamente. Rebuçados – dos mais reles que já mais algum miúdo alguma vez chupou ! No miserável papel, meio opalescente, fino e embolatado de açúcar que os embrulhavam, estampavam-se bichezas de desenho em traço quase contínuo e muitíssimo naíf.
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Só pela imaginação se acrescentava o indispensável para conferir verdade ante a legenda .
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E o número. Cada papelinho com desenho, que embrulhava o raquítico rebuçadinho, tinha o nome e o número do bonequinho. A colecção completa tinha 200 animaloides .Depois de colados, um a um, na caderneta, dava direito a prémio grande. Não tenho a certeza se era uma bola de futebol em couro, não muito genuinamente esférica.
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Receio estar a confundir a bola com o prémio da colecção que veio a seguir e era de Jogadores. Tinha o Patalino do Lusitano de Évora, o Cabrita do Olhanense …e “piafora”. Então: 200 !... “O mais difícil” (sic) era o bacalhau – nº 42. Depois o cabrito, com o nº.199. Em terceiro lugar vinha a cobaia. Não consigo recordar o respectivo número.
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Só vi o bacalhau 2 vezes e nunca tive um.
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Alguém anda por aí que ainda conserve uma caderneta de Vitórias? ! Se há, convido-o a digitalizar a cobaia, o cabrito e o bacalhau, pelo menos, e a trazer o nº da Cobaia . Ficará bem guardada, aqui, no blog, uma assim tão importante documentação : «Vitórias»

Rui Abrunhosa

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Caro Rui:
Creio que a cobaia era ... o 147! Podes matar saudades na página:
Até reencontras uma caderneta! Ah, este nosso mundo é um espanto! Quem não se admirará com os progressos deste século? como dizia o Jacinto (o do conto!).
ZM