domingo, 31 de agosto de 2008

Ilustradores famosos dos EUA: 18. Newell Convers Wyeth (1882-1945)

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N. C. Wyeth: Galeão espanhol na Baía de Cheasapeak (óleo)

Procurando manter a linha artística e mesmo a temática do seu Mestre, que foi Howard Pyle, já aqui referido (postagem de 23 de Novembro de 2007), NEWELL CONVERS WYETH (1882-1945), além de um conceituado pintor, ilustrou muitas obras clássicas em colecções selectas que ainda hoje são procuradas pela combinação do valor literário que possam ter com a beleza das gravuras que inserem. Incide, a sua obra, nas temáticas bíblica, medieval, corsária e norteamericana - que tanto preencheram o gosto estado-unidense na 1ª metade do sec. XX. Para além de um grande artista, N. C. Wyeth esteve na origem de uma família de artistas: as filhas Henriette e Caroline, o filho Andrew e o neto Jamie adquiriram nome nas artes plásticas e a filha Ann foi notável compositora.

N. C. Wyeth: Lenhadores (óleo, 1943)


sábado, 30 de agosto de 2008

Lousame - 3/3: o que trouxe

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Percorrendo, em via de regresso, os 620 quilómetros que separam Lousame da minha actual toca, na margem sul do Tejo, procuro recapitular a experiência recolhida durante as Jornadas atrás referidas. Mencionei já que, por motivo dos meus interesses mais imediatos, deveria ter estado aqui no ano passado (sem prejuízo deste) e se não estive foi só porque outros deveres me levavam, exactamente nos mesmos dias, a terras de Lovaina. Tendo o ano 52 semanas, logo haviam ambos os acontecimentos de cair na mesma... Galo nítido!
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O primeiro ponto a registar, são as próprias jornadas. Não é comum que um concelho do interior de uma região importante, ainda que não muito afastado de rias penetrantes e activas, com uma população dispersa e eminentemente ligada (hoje) a actividades agrícolas e pecuárias, desenvolva uma sequência de jornadas dedicadas ao património, em que já vai na terceira, organizadas pela Concelleria de Cultura do Concello de Lousame (o que aqui chamarámos de "Pelouro da Cultura") com o apoio da Vicereitoria de Cultura da Universidade de Santiago de Compostela (USC) constituindo um crédito para o curriculo académico dos respectivos alunos, do Instituto Camões, da Deputação da Corunha e da Fundação Comarcal de Noia, que inclui Lousame. E não é comum que, nesta terceira edição, o acontecimento tenha contado com 68 presenças - no momento em que outros cursos e actividades culturais de verão tiveram menores afluências. Significa isto muito trabalho, muita dedicação, muita abertura de espaços e, certamente, a mobilização de entidades que são reconhecidas e que, com as suas comunicações, "atraem interesse" e fazem um "marketing positivo" do evento. As visitas incluídas no programa complementam, numa perspectiva também patrimonial, o conhecimento duma área recheada de belezas naturais e de monumentos a mostrar. Dizem-me que estas iniciativas são frequentes numa Galiza moderna e sequiosa de exprimir o seu carácter próprio, aliás tão chegado a um passado que, para cá e para lá, nos é sensível. Serão também frequentes em alguns concelhos portugueses. Noutros não.

A Casa da Cultura de Lousame, em Portobravo

As instalações: A casa da Cultura do concelho, instalada em Portobravo de Lousame, perto da sede do município, oferece todas as condições para albergar acontecimentos deste género e dimensão. De dois pisos, com um anfiteatro bem equipado, de capacidade suficientemente ampla (superior a 100-120 pessoas), e áreas para actividades de animação, dispõe ainda de um amplo espaço onde, de momento, decorre uma exposição etnográfica dedicada às alfaias da actividade agrícola local.

Um pequeno recanto da exposição de alfaias agrícolas

Na abertura das jornadas o Professor Xoán Carmona, da USC, director das Jornadas, saudou o interesse que estas criando, como uma sempre crescente afluência, demonstra e situou o conhecimento patrimonial nos aspectos essenciais de catalogação, conhecimento local, maior interesse pelo património e necessidade do estabeler um fio condutor. Sublinhou as presenças portuguesas e explicou o motivo temático do presente ano, quando - ano passado - as jornadas foram dirigidas à mineração do volfrâmio, em que o concelho teve relevante papel. Intervém seguidamente o Director Regional de Patrimonio, Filipe Arias Vilas, que, "tendo vindo mais para ouvir que para falar", e após ter caracterizado o patrimonio industrial como componente do património cultural, ambos multidisciplinares, salientou a necessidade do inventário - reconhecendo que não está ainda eficientemente catalogado, por razões muito diversas, o que afecta a sua protecção. Uma dessas razões reside no regime de propriedade particular em que a maioria desse património se situa. Nada tendo a favor ou contra esse regime, a possibilidade de intervenção da Administração, mesmo em termos de apoio, está em grande parte limitada e requere a prova do valor social da iniciativa, para poder encontrar justificação. Essa uma dificuldade. Falou, finalmente, o Alcalde de Lousame, José Santiago Freire, um veterinário bem conhecedor do terreno e que actualmente está em segundo mandato, que reiterou o empenho da Câmara em prosseguir estas Jornadas, cumprimentou o respectivo Director e saudou a Concelleria de Cultura, na pessoa da respeciva "concelleira" (vereadora, para nós) Maria Teresa Villaverde Pais e da secretaria Maria Dolores Suárez por esta realização.

Com a parte galega das jornadas dedicada este ano ao património marítimo, acompanhamos , no primeiro dia, as exposições de Dionísio Pereira sobre o "Património Marítimo da Galiza" e de Juan Rodriguez e Villasante Prieto, apresentada por este último, sobre "O arsenal militar do Ferrol como património industrial. Seria demasiado longo trazer aqui uma exposição desenvolvida sobre ambas as comunicações e a viva participação que, em debate, a ambas se seguiu (e que confronta com a lassitude ou generalidade de muitos auditórios).

Passando às conclusões do primeiro, em que foram relatadas várias situações dramáticas, como a odisseia do "Galatea", que foi navio-escola da Armada Espanhola e que tem alguns paralelos com a sorte dos nossos "três" - ou 2+1 - "manos" ("Creoula", "Santa Maria Manuela" e "Argus", dos quais o mais desgraçado é ainda o segundo...) e referida a diferença de atitude entre a Espanha e os países do Norte (Escandinávia e Reino Unido), estes bastante mais atentos, Dionísio Pereira concluiu por (a) a necessidade de uma política de património marítimo ao nível autonómico; (b) definir / precisar, nomeadamente por via de um esforço de inventariação, as existências, as entidades e as "mesas do mar"; (c) atrair ao tema as Universidades que a este estão alheias; (d) analisar o tecido associativo dinâmico, com as suas variantes locais (citou-se o exemplo das confrarias marítimas, destacando-se a da Lira, com a sua experiência de 5 anos [1]); (e) ultrapassar a complacência e auto-publicidade dos poderes públicos, motivando a sua intervenção; e (f) orientar a acção turística para que, não cortando a actividade profissional normal, possa dela participar (ou seja, continuando os profissionais a serem profissionais, exercendo como tal, e não meros manequins vivos para contemplação) e ultrapassando as dificuldades formais e burocráticas que ainda se levantam.

As perguntas e comentários que esta intervenção suscitou incidiram em: (a) estado dos inventários existentes; (b) o "viver do Património" (o Autor insiste, e com razão, na necessidade de colocar o turismo como actividade complementar para exercícios profissionais existentes, ou seja "fazer de marinheiro não pega"); (c) acções pontuais e ausência de uma política geral; (d) qual o valor das inclusões nos catálogos municipais?.

Na segunds exposição, Villasante Prieto, oficial de Marinha e que está no projecto de levar o Arsenal do Ferrol a "Património da Humanidade", expôs as fases metodológicas em que se desenvolve esse projecto, nos termos do processo de candidatura, e que se situam em três áreas fundamentais: (a) conhecer; (b) valorizar; (c) conservar; e (d) transmitir. O Ferrol, neste particular, apresenta um carácter muito especial, em que "grass-roots" (i.e. do nada!) foram criadas estruturas de fortificação e de logística que atendiam às necessidades de construir, manter e aprovisionar, chegando a empregar 10000 pessoas e criando um vasto património imaterial e material, um verdadeiro crisol de tecnologia, aplicação e organização. Referida a necessidade de conhecimento, através de extenso inventário com formulários próprios, o exponente abordou os critérios de valorizaçao propostos e prosseguiu com um conjunto de significativas projecções. dos principais edifícios (não deixando de assinalar a similitude da arcada da Grande Aula do Mar com a do Terreiro do Paço, em Lisboa, aliás praticamente coevas) [2] .

As perguntas e comentários que esta intervenção suscitou incidiram em: (a) o estudo do fosso do Arsenal (foram referidas as soluções previstas); (b) a situação das baterias de costa (recordando-se que o projecto do Arsenal se limita no reinado de Isabel II, inclusive); (c) a celebração da memória dos fuzilados no Arsenal em Setembro de 1936 (relembrando-se as dúvidas existentes entre o Arsenal e o Castelo de San Filipe, onde já existe uma memória , e outros precedentes sangrentos no mesmo Arsenal durante os secs. XVIII e XIX); e (d) a possível recuperação de um barco de guerra na doca seca do Arsenal (similitude com o "La Union" em Rochefort, mas aqui possivelmente substituível pela eventual solução - o tema não está esquecido! - de construir uma fragata mercantil na doca seca mais pequena de La Cabana, em que estas eram construídas).

Vista parcial e algo nublada de Muro, vendo-se os moinhos de maré

O primeiro dia concluiu com o passeio marítimo a Muro, concelho muito típico do lado norte da Ria de Noia e Muro, tendo o embarque sido efectuado em PortoSin e com regresso, com águas muito mais calmas, ao mesmo porto. Localizaram-se fábricas de salga em ruínas e em recuperação (uma delas precisamente a que representada na portada do programa) e os moinhos de maré, estes recuperados.

No regresso a PortoSin

O segundo dia teve três comunicações: a do Professor da USC Xoán Carmona ("Os fomentadores catalães e a salga da sardinha; mitos e pegadas de uma indústria tradicional" ), do Professor da UMinho José Manuel Lopes Cordeiro ("Panorama do Património Industrial em Portugal)" e da Directora do Museu do Papel de Santa Maria da Feira, Maria José Santos ("O Património da Indústria Papeleira Portuguesa. A experiência de reabilitação e de gestão no Museu do Papel de Santa Maria da Feira").

Recordando que houve na zona mais de 300 fábricas de salga de sardinha (hoje serão à volta de 30), o exponente começou por apresentar fotografias e desenhos demonstrativos da sua estrutura típica, como elementos patrimoniais de grande singularidade mas com similitude, também presentes em Portugal e Huelva. Referiu o característico predomínio de mão-de-obra feminina e detalhou a "clientela" típica deste negócio: mineiros, operariado industrial (a que em Portugal eu juntaria a gente dos ranchos das vindimas) , para a qual o pequeno-almoço era, frequentemente, uma sardinha com pão [3]. Prossegue, apreciando o papel dos catalães na indústria de salga galega: chegam perseguindo a sardinha, impõem-se por possuirem procedimentos técnicos com maior produtividade que a dos até então usados na Galiza, e têm ainda a vantagem de trazerem consigo um mercado importante, que era o mercado catalão (indústria textil, p.ex.) - passando a sardinha galega a constituir uma útil fonte de proteínas para o proletariado fabril catalão. Parece porém claro que o conhecimento e prática industrial da salga já existiam aqui.

Apreciando como imperfeita mas inelutavelmente instalada a expressão "Arqueologia Industrial" [4], aliás com o luso precedente de Sousa Viterbo, o Professor Lopes Cordeiro referiu-se às Lei 13/85, de 6 de Julho, substituída pela Lei 107/2001, de 8 de Setembro, ambas unanimemente aprovadas mas que, sendo leis de bases, como tal se ficaram - sem que, até ao momento tenham surgido os diplomas que as regulamentavam e que inclusive tinham definido um prazo de apresentação. A situação é de facto grave: existem pedidos de edificação importantes, falta o inventário do património industrial e este está rigorosamente desprotegido a nível nacional, no que uma política regional poderia bem melhor dispor. Dos 306 municípios portugueses (menos em número que os municípios da Galiza) apenas 6 (seis!!!) se preocuparam com o assunto e procederam, no âmfbito dos Planos Directores, a uma inventariação do património industrial. Os efeitos vêem-se! Relatando a acção da APPI, na linha da TICCIH , foram referidos como paradigmáticos e apresentados em projecções os casos de Rio Maior (em que se pensa que uma acção junto da autarquia possa ter evitado que a fábrica de briquetes do Espadanal, um exemplo típico mas quase desconhecido de um edifício industrial imponente, tenha sido abatida para construir uma grande superfície... em frente de outra, que já lá está), do Alto Forno da SN (Siderurgia Nacional) no Seixal e das instalações fabris da Fibra Industrial Lusitana na Boavista, Porto. Falta preservar pelo registo, pelo menos isso. A imposição de medidas no tocante a escavações, resultante de determinação europeia, trouxe consigo um contributo positivo: as empresas de arqueologia surgem em Portugal mas subsistem diversas questões para a eficácia da sua intervenção (falta de tempo para um trabalho mais aturado, intervenções de emergência e a magna questão de onde colocar os resultados que obtém); cita-se o caso dos três fornos da antiga Cerâmica de Massarelos, Porto, reconhecidos numa intervenção deste tipo. E refere-se também o estado actual do Real Filatório de Chacim, em Macedo de Cavaleiros: reserva arqueológica? A necessidade de inventário é acompanhada pela necessidade de colecções de referência (citam-se os catálogos das fábricas vidreiras e o grande esforço de Santos Simões quanto à azulejaria portuguesa, esforço interrompido pela morte precoce do Autor, quando concluía a catalogação do sec. XVIII e que deixou em aberto o sec. XIX). Finalmente, referindo os museus industriais, Lopes Cordeiro recordou que um Museu deve (a) investigar; (b) conservar; e (c) expor, por esta ordem de prioridades. Enumerou, seguidamente, os principais Museus dedicados ao Património Industrial que existem em Portugal.

Numa comunicação muito ilustrada e dinâmica, a Directora do Nuseu do Papel de Santa Maria da Feira (Doutora Maria josé Simões) fez a apresentação do Museu que dirige, fundado em 2001. Focando a necessidade de credibilização dos chamados museus industriais ("só se credibilizam os que dêem lugar à investigação") , que devem fundamentar trabalhos e afirmar a sua identidade - e não constituir simulacros de museologia que não são Museus, a exponente traçou uma breve evolução histórica da produção do papel em Portugal e posicionou, nesta o museu de Santa Maria da Feira como antiga fábrica e significativo exemplo da "família papeleira". Invocando a importância de parar e reflectir em Museologia, ouvindo "as vozes do silêncio" que esse património encerra, expôs as linhas gerais adoptadas para aquele caso concreto: de musealização: o apercebimento da vida papeleira (vg. o contrasenso do namoro com o rio e as exigências da secagem), o - na reabilitação - mostrar o novo como novo, sem esconder, o sentido do rentável, a necessidade de uma dinâmica de Museu ( com a recusa do Museu como "forum cultural"), a divulgação e documentação (sem isso um Museu fecha-se sobre si mesmo e por isso deve conter um centro de documentação aberto, proporcionando estudos [5]), a actividade demonstrativa (a máquina prossegue a sua actividade num determinado dia da semana), as actividades culturais de exigência temática (não existem essas actividades, aliás múltiplas, "sem que cheirem a papel"), o recurso a iniciativas de animação (a realização do "turno da noite" patrocinado por bares locais, com a presença dos seus jovens clientes, os defiles de moda com vestidos ou acessórios em papel, a criação de histórias e personagens em torno do papel para as crianças visitantes, o lançamento de "papagaios sem penas", a intervenção em cortejos medievais, etc.), a criação de actividades atractivas para surdos e cegos. O Museu desenvolveu, ainda, a temática dos Aerogramas da Guerra Colonial, com bastante sucesso, o estudo e colecção de marcas de água, o registo e preservação da memória (ouvindo e registando histórias e comportamentos de vida de quem andou naquela indústria), a realização de filmes e documentários. Para além do apoio em espécie e tecnologia da comunidade papeleira, o Museu , que ainda não é autosuficiente, depende economicamente da Câmara Municipal e é em 50% financiado pelo FEDER.

Pelo adiantado da hora e a necessidade de cumprir o programa da tarde, a discussão cingiu-se a uma única questão: a questão, em Portugal, da documentação das empresas em processo de falência. Constituídos os lotes de bens vendáveis ou colocáveis em benefício dos credores, a lei ignora os arquivos da sociedade - salvo os livros obrigatórios que devem acompanhar o processo e que se limitam geralmente ao vector contabilístico. Estes, os arquivos, são deixados ao Deus dará - e assim se tem perdido importantes acervos documentais sobre a indústria em Portugal. Bastaria uma simplicíssima disposição legal. como salientou o Professor Lopes Cordeiro, imponfo a entrega dos arquivos ao arquivo municipal do concelho onde se situa a sede social da empresa falida para ocorrer eficazmente a tal vicissitude. Mas todos os esforços nesse sentido têm sido baldados.

A torre do designado Poço Novo, nas minas de San Finx

As Jornadas concluiram na tarde desse ultimo dia, com a deslocação às minas de San Finx, em que se visitou o Centro de Interpretação realizado pela Autarquia, as ruínas do designado "Poço Novo", com a sua torre em betão, a casa dos compressores (a recuperar, com duas máquinas IR, uma horizontal e outra vertical, aparentemente ainda não vandalizadas) e as instalações anexas (também a recuperar) e, para fecho, ao já atrás referido Mosteiro de San Xusto de Toxosoutos [6].

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[1] É também dada a notícia de que vai ser proximamente editada em Espanha uma publicação excelente sobre o exemplo galego de LIRA.
[2] O exponente realça a disponibilidade de consulta de alguns dos documentos expostos, para a formalização da candidatura, e a abertura do Arsenal para visita, com prévia solicitação ao Almirante do Arsenal.
[3] Uma também excelente tese sobre este tema, classificada como "de ruptura" por abalar diversas concepções anteriores, terá sido recentemente publicada em Espanha sob patrocínio da "Pescanova".
[4] Tal como "Revolução industrial"
[5] Salientando que, no que se refere ao espólio escrito de antigas instalações papeleiras, existem dois tipos extremados de fabricantes de papel: os que deixam documentação detalhada... e os que não deixam.
[6] Nesta ultima jornada verificaram-se já algumas ausências, de quem teve que regressar mais cedo. Tive especial pena duma, mas - em conexão com a temática e o recato monástico da última visita - fica para a memória histórica. Ou para o ano...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Lousame - 2/3: aonde cheguei

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Localização do concelho de Louzame

Sobre o concelho de Lousame, onde decorrem as jornadas, foi editado em 2004 um bem apresentado desdobrável que presumo tenha sido realizado em três versões (em galego, castelhano e inglês) [1]. Caso tivesse trazido comigo o texto numa língua ibérica, pura e simplesmente o digitalizaria para o postar aqui na sua vera efígie, certo duma inteligibilidade garantida pela aproximação linguística. Mas como, por acaso, me saiu na rifa o exemplar em inglês, tomo a liberdade de ensaiar uma tradução algo livre do seu conteúdo (e com comentários do bloguista-tradutor, claro) A localização e as duas primeiras gravuras, essas, com a devida vénia, são extraídas do mencionado folheto.

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"O concelho de Lousame está situado na parte ocidental da região autónoma da Galiza, no sudoeste da província de A Coruña. Para lá chegar, os visitantes devem tomar a estrada C-543 que vai de Santiago a Noia [2], que atravessa a freguesia de San Xusto de Toxosoutos, embora o edifício da Câmara Municipal se situe em Portobravo. O concelho não tem áreas densamente povoadas e a sua esparsa população ocupa principalmente os vales dos rios.

O concelho, com as suas sete freguesias (Camboño, Fruíme, Lesende, Lousame, Tállara, San Xusto de Toxosoutos e Vilacoba) cobre uma área de 93,2 quilómetros quadrados e tem uma população pouco acima das 4000 almas. Como uma grande parte do seu território se desdobra paralelamente à Ria de Muros e Noia [3], o concelho faz parte da área administrativa de Noia. De facto, é na ria que se baseiam muitas das suas actividades actuais, económicas ou de lazer.

Há vários miradouros naturais que oferecem vistas espectaculares das Rias de Muros e Noia e de Arousa, bem como do interior da província. O Monte Iroite, na freguesia de Camboño, com os seus 685 metros de altitude, oferece uma magnífica oportunidade para se admirarem as praias a sul, bem como os embocamentos de ambas as rias.


O panorama de A Muralla, alta de 674 metros, revela-se ainda mais impressionante, já que, daí, os visitantes podem alongar a sua visão às terras distantes de Santiago de Compostela. Deslocando o olhar desde o interior, poderão ver os concelhos limítrofes, como Rois e Dodro, o vale de Ulla, estendendo-se de Padrón até ao seu extremo, a totalidade da Ria de Arousa e uma parte considerável da Ria de Noia, bem como praticamente a totalidade do próprio concelho. Outros locais, como os Montes Colou ou Pedride, oferecem igualmente vistas espectaculares.

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Cascatas de Toxosoutos [9]

As belezas naturais do concelho incluem as cascatas do rápido rio que partilha o seu nome com o do mosteiro que banha. De facto, nas margens deste rio encontram-se as ruínas do antigo Mosteiro de San Xusto (1132), que hoje constituem uma estância muito aprazível, que inclui a igreja paroquial, o Reitorado e uma pequena pousada. Seguindo as trilhas que descem ao longo das margens dos rios de San Xusto e Vilacoba, desde San Xusto ou Brandia até próximo da sede do concelho, em Portobravo, atravessam-se pontes medievais, marginam-se poços cavados pela força das águas e encontram-se cenários de excepcional encanto.

Os declives dos vales ricos e férteis formados pelos rios Tállara, Pesqueira, Vilacoba e San Xusto acolhem intensas actividades agrícolas e pecuárias, que constituem a principal fonte de rendimento do concelho. Além disso, os ultimos anos têm testemunhado um gradual restauro de muitas casas típicas da Galiza, algumas das quais convertidas para objectivos de turismo rural.


O concelho foi já sede de várias actividades industriais importantes, incluindo instalações texteis, de tinturaria e de produção de papel - mas que, com o decorrer do tempo, foram gradualmente desaparecendo. Deixaram atrás de si, no entanto, um legado patrimonial importante - de que se destaca, certamente, a antiga fábrica de papel fundada em O Castro por Domingo Fontán, autor da primeira Carta Cartográfica da Galiza (Paris, 1845)
[4]. Hoje, esse grande edifício do século XIX, que chegou a produzir o papel oficial para o Estado, está em ruínas.
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Ao companhar na descida o leito do Rio Villacoba, um pequeno desvio leva o visitante à freguesia de Lesende, um importante centro da Idade do Bronze, com petroglifos patentes nas rochas graníticas, representando formas geométricas simbólicas (semicírculos, círculos. quadrados e outras figurações típicas dos desenhos patentes em grutas da Galiza). O grande número de mamoas (monumentos funerários) [5] e castros (ocupações fortificadas altaneiras) que se encontram em todo o concelho de Lousame são prova de que a área tinha uma população relevante em tempos pre-históricos. Excelentes exemplos dessas mamoas podem encontrar-se na planície de Casameá, perto do trilho que leva de Moimenta à Estação de Observação Aérea do Monte Iroite. Em Agro da Costa, próximo da igreja paroquial de Lesende, descobriu-se um petroglifo interessante que data da Idade do Bronze (cerca de 1000 anos A.C.). Os visitantes podem ainda aceder aos castros de Comparada, Servia e Coto do Castro no rio Vilacoba, a muito pequena distância de Rois.

Os recursos minerais do concelho, conhecidos localmente como "Minas de San Finx"
[6], constituiram, para a região, uma histórica fonte de riqueza. A área era rica em minérios de volfrâmio [volframite], estanho e molibdénio, cuja exploração representou a actividade económica dominante do concelho durante as décadas de 40 e 50 do século passado (XX) [7].

Um dos mais significativos e belos locais desta área preservada é San Lourenzo, na freguesia de Tállara, com um pequeno templo, um parque e uma área de merendas, que permite a realização da procissão e dos festejos de campo em honra desse santo.

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O mosteiro de San Xusto de Toxosoutos, vendo.-se, da esquerda para a direita,
a igreja paroquial, o Reitorado e o velho edifício onde está instalada uma pequena pousada,
fronteira a um extenso prado verdejante, de que a foto só mostra um canto [9]


O mosteiro de San Xusto


Pouco resta do edifício do próprio mosteiro, mas a sua longa história ainda pode pressentir-se no local. Em 1132, dois cavaleiros, Froila Alonso e Pedro Muñiz de Carnota, compraram uma porção de terreno aos monges de San Paio, onde se localizava um templo dedicado aos Santos Justo e Pastor. Cavaleiros da corte de Afonso VII
[8], receberam consideráveis favores reais e privilégios quando decidiram abandonar a vida militar e fundar aí um mosteiro governado segundo as regras de São Bento.

Um dos favores concedidos pelo monarca galego a essa jovem comunidade monástica foi a sua isenção de qualquer jurisdição, fosse eclesiástica ou civil. A prosperidade que esse mosteiro obteve foi mencionada por Diego de Yepes (1554 - 1618) nas suas crónicas gerais da Ordem de São Bento. Dizia mesmo: "em alguma outra parte da Galiza há propriedade maior e mais magnificente que a de Toxosoutos". Em 1504 foi anexado ao mosteiro de Sobrado dos Monxes, no âmbito da Reforma Cistercience". O seu poder e influência foram gradualmente diminuindo até se finalmente abandonado no início do Século XX. A sua ruína iniciou-se e agravou-se após o confisco de 1835. O pequeno mas ainda perfeitamente formado claustro românico foi adquirido em 1920 pelo Visconde de San Alberto, José Varela de Limia, sendo vendedor o pároco local para assim poder pagar um certo número de reparações de que a igreja paroquial carecia. Hoje, esse claustro faz parte do pátio interior do Palácio da Pena de Ouro, em Noia. Medindo 10 por 12 metros, é de formato rectangular e constituído por arcos semi-circulares, oito nos lados maiores e cinco nos mais estreitos. Alguns dos arcos estão decorados. Os pares de colunas correspondentes entre si estão coroados com capiteis, ricamente decorados com frutos e folhas. O claustro foi construído durante os séculos XII ou XIII e recorda o claustro que está anexo à Igreja de Santa Maria do Sar, em Santiago de Compostela."

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A sede municipal de Lousame (tendo atrás o posto médico
e que dista cerca de 100 metros da Casa da Cultura),
no lugar de Portobravo [9]
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[1] O desdobrável foi editado pela FUNDACIÓN COMARCAL NOIA, sedeada em Noia e em que Lousame está inserido. Tem o nº de depósito legar C-462-2004 3 foi coordenado por José Carlos Fernandez-Barja.
[2] Existem váras alternativas, mas a melhor será tomas a estrada (via rápida) que vai de Santiago a Noia e que sai directamente da AE Tui - Corunha, antes de chegar à saída para Santiago. Uma outra via rápida (auto-estrada mesmo), que acompanha a margem norte da ria de Arousa (Arosa) até Santa Eugénia, está em construção avançada mais a sul, mas - apesar de constituir um percurso turístico interessante e já utilizável - leva a uma "volta" maior e ainda não é recomendável. Ver sempre a versão actualizada da rede viária local e controlar os mapas e os "trajectos recomendados" de alguns guias itinerários, que ainda não estão actualizados. Quanto a alojamento, Lousame oferece várias casas de turismo rural, mas em período alto convem reservar com razoável antecedência pois são muito procuradas. Porém, nos concelhos ribeirinhos limítrofes (Porto do Son, Noia e Outes) existem muitos estabelecimentos hoteleiros e, portanto, com a natural precaução para a época estival em que é grande a frequência das praias locais, é relativamente fácil encontrar um bom poiso.
[3] Ainda que Lousame seja um concelho "interior", i.e. não tenha qualquer limite na Ria - o que, num sentido meramente turístico-imobiliário, lhe traz menos riqueza que a que acorre aos concelhoas ribeirinhos.
[4] Choca o bloguista que certas manifestações culturais históricas da Galiza tenham decorrido no exterior. Aqui, o primeiro mapa cartográfico terá sido editado em Paris; o hino galego, "Los Pinos", foi estreado em Havana, se bem que Cuba fosse ao tempo uma dependência espanhola e sede de uma fortíssima presença galega (os próprios Castros vêm daí), e podem procurar-se como similares outros casos e obras. Hoje já não será assim, mas tem sido através de muito querer das suas gentes que essa nova situação se vem definindo.
[5] Penso que esta designação abrange os monumentos dolménicos, de que a Galiza é (também) farta.
[6] Curioso e histórico este nome. Terá a ver com o nosso Sanfins? As minas de San Finx foram exploradas desde os fenícios ou mesmo antes: com estanho e algum cobre, que melhor um protometalúrgico poderia querer? Para os fenícios volfrâmio e molibdénio seriam apenas curiosidades da natureza, quando não pedra dura para atirar- mas já o não eram para a empresa concessionária inglesa que veio e se instalou ali durante bastantes anos, muito depois dos fenícios! Junto à mina, a Edilidade de Lousame construiu um interessante Museu / Centro de Interpretação. Saliente-se, a propósito, que há (não aqui, esclareça-se) bastante confusão entre volfrâmio e tungsténio. Volfrâmio e tungsténio são exactamente A MESMA COISA i.e. o mesmo elemento químico de símbolo W. Existem outros casos de dupla designação: glucínio e berílio, azoto e nitrogénio serão os mais comuns, mas existiram outros exemplos históricos que, relativamente a estes, não vingaram de todo.
[7] Os recursos mineiros de San Finx, de que falaremos mais detalhadamente um dia destes, inserem-se num localmente muito referido alinhamento Malpica/Tui (Malpica situa-se bem no Norte da Galiza). Questiono-me, na minha ignorância mas certo de que a geologia desconhece fronteiras (ainda que algumas fronteiras tenham reconhecido a geologia), se este "alinhamento" não passará Tui, atravessando o Minho, e não terá alguma coisa a ver com as mineralizações de Valença e Paredes de Coura, pelo menos. A importãncia do tema para Lousame fez com que as "II Xornadas" (ano passado) fossem dedicadas ao volfrâmio - evento que infelizmente perdi por coincidir com a deslocação ao 6ICHC em Lovaina, onde tinha de estar.
[8] Falamos do primo de D.Afonso Henriques, claro, filho da Tia Urraca (meia-irmã da Mãe , Teresa) e do Tio Raimundo (por sua vez primo do Pai, Henrique, e ambos de Borgonha) que, rei-imperador da Galiza, Leão e já Castela, reinou de 1126 a 1157.
[9] A escolha das fotos do folheto, e não das fotos recolhidas in loco (salvo no caso da Câmara), resulta de razões práticas: em primeiro lugar, a cascata de Toxosoutos, visitada em fim de tarde de verão, tinha pior luz e, sobretudo, trazia menos água apesar dos relampejos, trovões e chuvadas da noite anterior (verão é verão); quanto ao mosteiro, o autocarro que nos trouxe deu para ver este panorama da estrada que vai para Santiago, mas não deu tempo nem pausa para fotografar "de cima". Além disso decorria localmente uma boda (o santuário de Toxosoutos é muito procurado para essas cerimónias pois oferece condições admiráveis), pelo que as fotografias locais ficariam cheias de gente jovem, bem disposta e arreada, como convém nesses eventos.Todo este paleio existe, para dizer que não poupei em fotografias i.e. que não estive parado e que não tenho quaisquer razões quanto à sua qualidade - apesar da falta de jeito pessoal e de espaço blóguico - para as esconder. Quanto às de San Finx, reservo-as naturalmente para outra ocasião.


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Lousame - 1/3 : ao que vim

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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Antes da partida para terras de riba Minho


Antes da partida para terras de riba Minho, uma sugestão simples para os que se preocupam com as realidades e novidades informáticas:

Blogue: "Aberto até de madrugada"
Endereço: http://ptnik.blogspot.com

com o subtitulo "As últimas novidades sobre a tecnologia, em Portugal e no Mundo" e assinado por Carlos Martins que se apresenta como "Programador desde o tempo dos monitores de fósforo verde". Aconselho o acesso e consulta (no actual publicado e na busca possível a postagens anteriores) e agradeço a quem m'o indicou.
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terça-feira, 26 de agosto de 2008

José Maria de Heredia: O Banho das Ninfas [1][2]

Gabriel Santi, "A ninfa Galateia"
Mural na Villa Farnesina, Roma (~1514) [4]


Le Bain des Nymphes
José Maria de Herédia

C’est un vallon sauvage abrité de l’Euxin ;
Au-dessus de la source un noir laurier se penche,
Et la Nymphe, riant, suspendue à la branche,
Frôle d’un pied craintif l’eau froide du bassin.

Ses compagnes, d’un bond, à l’appel du buccin,
Dans l’onde jaillissante où s’ébat leur chair blanche
Plongent, et de l’écume émergent une hanche,
De clairs cheveux, un torse ou la rose d’un sein.

Une gaîté divine emplit le grand bois sombre.
Mais deux yeux, brusquement, ont illuminé l’ombre.
Le Satyre !... Son rire épouvante leurs jeux ;

Elles s’élancent. Tel, lorsqu’un corbeau sinistre
Croasse, sur le fleuve éperdument neigeux
S’effarouche le vol des cygnes du Caÿstre.

- - - « « « «» » » » - - -

El baño de las ninfas

José Maria de Herédia
Tradução de Otto Greyff

Baña el Euxino un bosque de agrios arbustos lleno;
sobre la fuente un negro laurel la copa inclina,
y la Ninfa, sonriente, que a sus ramas se empina
huélla, tímida, el agua del arroyo sereno.

Otras, de un salto, se hunden en loco desenfreno
al oir la llamada de una oculta bocina,
y en las aguas movibles a menudo germina
un torso un claro bucle, o la rosa de un seno.

Alborozo divino las florestas asombra.
Mas de pronto dos ojos iluminan la sombra.
¡El Sátiro! Y al eco de su gárrulo sistro

Huyen todas. Asi, si un cuervo grazna airado,
en las ondas del río locamente nevado
se esparce la bandada de cisnes del Caístro.

- - - « « « «» » » » - - -

O Banho das Ninfas


José Maria de Heredia

Tradução de João Ribeiro [3]

N'um canto da floresta escura e densa
por sobre a fonte curva-se um loureiro.
Nua, à ramada a Oréade suspensa sobre
a água dependura o corpo inteiro.

Ao banho, as ninfas; rápido e ligeiro!
E ei-las, as manchas de brancura intensa
dos corpos nus, levípedes; e o cheiro
que nuvem de ouro do cabelo incensa! . . .

Lançam-se a nado as deusas em peleja
mas súbito, rompendo os negros flancos
do bosque, o olhar de um Sátiro flameja. . .

E, nuas, elas trepam-se aos barrancos...
Tal à vista de um corvo que fareja
debanda a multidão dos cisnes brancos!


- - - « « « «» » » » - - -

[1] José María de Heredia (1842 - 1905) foi um poeta cubano-francês. Cubano pelo nascimento; francês pelo País em que passou a maior parte da sua vida e porque em Francês se exprimiu, ao ponto dos seus poemas, vertidos em castelhano, indicarem tradutor e versão, como se obra traduzida de um poeta estrangeiro se tratasse. Parnasiano e maneirista, dominou requintadamente o soneto, ao ponto de ser conhecido como "o criador do moderno soneto francês". Em 1894 é eleito membro da Academia Francesa - mais pela esmerada qualidade expressa na sua poesia que pela extensão da sua obra.
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[2] Não conhecia este poeta, que me surgiu do ciber-espaço através dos caprichosos entrecruzamentos dos motores de busca (contarei muito em breve como!). Li o soneto que acima se publica e já não saí sem saber mais sobre o poeta e mais sobre a sua obra, a ponto de procurar o original francês e as traduções em castelhano e em português, que vão todas juntas. Valeu bem o meditado excurso, como vale a pena pesquisar as páginas que esta deriva me trouxe a bombordo e a estibordo (e que não são exclusivas de José Maria de Herédia):

en.wikipedia.org/wiki/José_María_de_Heredia
http://www.sifuesepoeta.com [um poema diário e uma busca riquíssima... mas em castelhano]
http://www.jgaraujo.com.br/lista/belossonetos3.htm

[3] A tradução em Português, de João Ribeiro, foi publicada por J.G.Araújo (José Guilherme de Araújo Jorge, 1914 - 1987) na sua compilação "Os Mais Belos Sonetos de Amor - III", editada no Brasil; ver ligação supra.

[4] De http://www.geocities.com/athens/styx/4087/ninfaga.html
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um cartão de visita surpreendente

Não sei se já contei esta aqui, mas hoje, em conversa, veio a ser recordada. Estava eu integrado numa missão comercial a um país africano e participava activamente na prática da troca de cartões de visita que sempre ocorre nestas circunstâncias (por vezes estas missões trocam pouco mais que isso). Um dos cartões recebidos surpreendeu-me. Tratava-se do cartão de visita de um funcionário superior da empresa X e nada teria de extraordinário se não fosse a indicação de três números de telefone, em baixo, do lado direito. Eles eram:
  • Geral (e tinha o número a seguir)
  • Directo (e tinha o número a seguir)
  • Secreto (e também tinha o número a seguir)
Verifiquei que os cartões distribuídos por esse senhor eram todos iguais - o que excluía qualquer singularidade. Mas não deixa de ser uma situação bem apanhada...
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domingo, 24 de agosto de 2008

O "parti-pris" contra a Indústria... e contra o Barreiro


Ou a ignorância da indústria... Este mapa está inserido entre as páginas 68 e 69 da "Geografia para a 3ª e 4ª Classes" do Ensino Primário Elementar, "aprovada oficialmente" e editada pela Livraria Escolar "Progredior", do Porto, 10ª edição (1934). Estudavam-se em pormenor as serras, os rios, as linhas de CF, "d'aquém e d'além mar em África", e ainda se fazia uma voltinha pelo Brasil, incluindo o mapa com os Estados, de acordo com a parte final do programa da 3ª classe (Decreto 16:739, do DG nº 83, I Série, de 14 de Abril de 1929): "Situação do Brasil. Sua área e população comparadas com a área e população de Portugal, à vista de gráficos. Importância do Brasil para Portugal."

Além do mapa, as pags. 69, 70 e 71 identificam os centros principais de actividade mineira, os principais centros de comércio, as principais exportações e importações e as principais indústrias. Estas são:
  • tecidos de algodão
  • tecidos de linho
  • tecidos de lã
  • rendas
  • fabricação de papel
  • cerâmica
  • chapelaria
  • conservas alimentícias
  • cutelarias
  • calçado
  • ourivesaria
  • lacticínios
... e disse.

No momento em que se celebra o centenário das fábricas da CUF no Barreiro (1908-2008) cabe constatar como a indústria química permanece ignorada e verificar qual o critério, tipicamente de rurais boiardos, com que os autores ("um grupo de Professores Primários") e os "aprovadores oficiais" aceitaram elaborar e autorizar uma lista tão canhestra. Que se pode esperar, em termos de uma visão de indústria, de um País que coloca na mão dos putos (mesmo dos putos de 1934) uma "especialidade" destas?

E cadê do Barreiro? Sumiu do mapa industrial? (Ou para certos senhores nunca lá deveria ter estado?)


sábado, 23 de agosto de 2008

Outro paradoxo: 23 de Agosto de 1939

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Assinatura do tratado germano-soviético [1],
também chamado "pacto Molotov [2] - Ribbentrop"

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[1] Assinado na madrugada de 24 mas datado de 23; para conteúdo e consequências ver
[2] Não, menino, não é um pudim. E também não é de beber! Leia mais um bocadinho, meu!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O paradoxo do advogado (Protágoras vs/ Eatlo)

M. C. Escher, Peixes

É um clássico:

"Protágoras obrigou-se a ensinar a lei a Euatlo, combinando com este um determinado preço que só seria pago quando o aluno vencesse o seu primeiro caso. Concluída a formação acordada, Euatlo absteve-se de acompanhar qualquer processo e o impaciente Protágoras demandou-o judicialmente para que lhe fosse pago o que entendia ser devido. Raciocinou assim: se ganhasse, Euatlo teria de pagar o valor acordado; se perdesse, então Euatlo teria ganho o seu primeiro caso e ficava obrigado a pagar nos termos do contrato. Mas não foi este o raciocínio de Euatlo: argumentava este que se Protágoras ganhasse ele não seria obrigado a qualquer pagamento, porque só a tal seria obrigado quando tivesse ganho o primeiro caso; caso Protágoras perdesse também não pagaria, porque o tribunal decidira que ele nada tinha a pagar. Qual dos dois teria razão?"

O tribunal não deve decidir a favor de Protágoras. Se decidisse a favor de Protágoras praticaria uma injustiça, pois Euatlo, para pagar, terá sempre que ganhar uma causa (e permanece a tal obrigado mesmo após essa decisão). É evidente que se o tribunal decidir favoravelmente a Euatlus (como deve) este ganha a causa e fica contratualmente obrigado a pagar a Protágoras - e , se não o fizer, Protágoras pode imediatamente intentar uma segunda acção contra ele, com grande probabilidade de sucesso. Neste aspecto, Protágoras tem razão. Esta foi a solução proposta por G.W. Leibnitz (1646 - 1716) - com uma pequena variante - na sua dissertação doutoral. Concluiu que o problema não merecia ser contado entre os paradoxos, provavelmente por entender que a questão era de resposta muito fácil.

De acordo com a obra de Michael Clark, "Paradoxes from A to Z", Routledge, Londres / Nova Iorque, 2002, pag. 96 a 98, a primeira apresentação deste paradoxo deve-se a Aulo Gelio (~150), sendo retomado posteriormente porDiogenes Laertio (~200-250) e ficando-se sem saber se correspondeu ou não a qualquer caso real. Regista o Autor, no entanto, a sua invocação num relativamente moderno caso, ou seja, numa acção que teve lugar em 1946 e nos Estados Unidos ( State v. Jones, 80 Ohio App. 269) . Tratava-se dum processo crime movido contra um médico ("Jones", ao caso) por prática de aborto ilegal, em que a única prova existente residia no depoimento da "cliente" que o havia procurado para abortar. De acordo com a lei aplicável ao tempo e naquele Estado, que afastava o mérito probatório do depoimento dum cúmplice, a acusação pedia a condenação de "Jones" pois, se o não fosse, a mulher não seria cúmplice e, portanto, o seu depoimento seria suficiente para o culpar. Contrariamente, "Jones" argumentava que se fosse condenado com base do depoimento da "cliente", esta tornar-se-ia cumplice e - de acordo com a lei ali vigente - não poderia depor como testemunha. No caso referido, "Jones" acabaria por ser condenado, fundamentando-se a sentença na presunção de inocência da testemunha: esta só seria cumplice quando fosse acusada - pelo que o seu depoimento teria valor. E conclui Michael Clark: Isto levou à singular situação de um depoimento ser admitido e fundamentar uma sentença condenatória que, por sua vez e de acordo com a lei então e ali aplicável, punha em crise o valor do depoimento que a justificou.
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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Referência positiva


Não é barato, mas responde bem

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Três cisnes negros (3/3)

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"Cisnes negros com bombas atómicas" [1]
(conclusão)

O terceiro (e último) "cisne negro" é ainda mais rápido e mais surpreendente e também sai das páginas do "Jornal de Notícias" - concretamente da página 1, coluna 3 do exemplar de 26 de Março de 1941 (1941, note-se!) daquele conceituado diário portuense. Resumindo uma notícia de Londres, do dia anterior, que cita as declarações de um professor universitário usono [2], as seguintes e escassas linhas dizem tudo:

"Procura-se aproveitar, na América, uma tremenda energia conhecida por "U 23X" na qual "meio quilo contém o poder de 2 500 toneladas de carvão."

Estamos em 1941, recordo. Os EUA, nessa altura, ainda são neutrais, numa espécie de "oui, mais!", a Alemanha e a URSS até parece que se dão bem (o "caldo" entornar-se-á todinho na véspera de S.João desse mesmo ano). E se, na notícia, pusermos X=5 e deixarmos ficar o U, onde será que, anos depois, eu irei ler isto (mas com experiências já calamitosas)? Quem julgaria que esta notícia era, afinal, uma "boca no trombone" tão impensável que... pudesse justificar o continuar-se a pensar nela! Coisas da vida... (= so it was!), como diria o Vonnegut!

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[1] Cortesia a lordshen.blogspot.com/2007/04/odd-animals.html
[2] Segundo a proposta de um professor de Princeton para designar os cidadãos dos EUA (aliás na linha do Esperanto), já que "americano" e "norte-americano" descrevem conjuntos diferentes daquele, mas de que o mesmo é subconjunto (in JN,1941.03.25,p1c1)

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terça-feira, 19 de agosto de 2008

Três cisnes negros (2/3)

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O cisne negro num dos primeiros selos australianos


(continuação)

O segundo "cisne negro" é bem mais simples e mais rápido de contar e poderia intitular-se a aparição dos xeques ou do marajá, como queiram...

É muito conhecida a história, creio que dos anos 70, em que alguns respeitáveis xeques (melhor dizendo, alguns bem-dispostos jovens da sociedade lisboeta ataviados de xeques) apareceram num conceituado restaurante e através de pelo menos um meio representativo da comunicação social passaram à notoriedade, com a componente misteriosa que acompanha as negociações petroliferas ou equivalentes.

O assunto não é novo, reside em todos os disfarces, pode apresentar-se com propósitos muito diferentes (os "Morcego"'s, quer o do Strauss, quer o outro, que o digam) , mas assume maior admiração e interesse quando é inesperado e bem urdido. E esse foi o caso...

Ora em 1941, no Porto, a Confeitaria Arcádia estava na berra e na novidade, a ponto de uma "revista", signée António Pinto Machado (estreada com sucesso no Teatro Rivoli a 27 de Abril daquele ano), se intitular "Debaixo daquela "arcádia"". Sucede que uma certa tarde de Março, com grande surpresa dos frequentadores da mesma (e em especial das frequentadoras) um carro de luxo acerca-se e pára, um "chauffeur" (Max du Veuzit, é assim que se diz?), enfarpelado à Ambrósio, de acordo com os mais rigorosos cânones, sai e abre cerimoniosamente uma das portas trazeiras da viatura para que um marajá muito bem arreado, sem esquecer o pormenor dos brincos (hoje quem os estranharia?), se dirija a passos poucos e curtos para a confeitaria e, passando ao salão (com a dama e o galgo estilizados na parede do fundo), prosaicamente aí tome um chá.

Silêncio total na sala, até que o nababo saiu - e nunca mais apareceu. Porém, em distinguo do posterior caso lisboeta, muito mais montado e muito mais investido (tope-se também a diferença de contexto, recorde-se que em 1941 a Europa estava em guerra e que os automóveis de luxo não eram mato!), o desconhecido e oriental senhor concedeu uma pista publicitária, traduzida pela displicente deixação de perfumaria fina.

Atento (e quiçá dentro do embróglio) um importante jornal diário não desistiu de identificar o figurão. E assim o fez, com renovado realce [1], dias depois de relatar circunstanciadamente o "misteriosos" acontecimento!

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[1] JN, 21 Março 1941, pag.3
(continua)




segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Três cisnes negros (1/3)

Muito se sonhou, nesta nossa Europa, com o cisne inteiramente negro. Habitou na imaginação medieval, grasnou na literatura mágica e chegou a campear em domínios heráldicos - mas, na natureza, só se viria de facto a encontrar na Austrália [1], muito mas muito depois daquelas conjecturas, constituindo um singular exemplo de evolução convergente.

Serve isto para dizer que há factos que, não tendo necessariamente origem ou mesmo inspiração uns nos outros, acabam por adquirir o mesmo aspecto, ainda que possam trazer consigo minudências diferentes - e é com entusiasmo que tais encontros se verificam [2]. Ao compulsar, por dever de ofício, velhos jornais de há 60 ou mais anos, tive a surpresa de se me depararem alguns interessantes "cisnes negros". Eles aí vão, um a um, preenchendo três postagens, mas todos dirigidos ao renascer sucessivo das formas, que leva á construção de mitos, urbanos ou rurais.

Escolho, como primeiro, um tema soturno: o caixão na caminheta de passageiros.

Muitos saberão que, durante uma boa vintena de anos a seguir à Guerra Civil (1936-1939) algumas caminhetas de passageiros, em Espanha, mantiveram lugares no tejadilho, por vezes compartilhados com um espaço de carga. A história começa com um camponês que, num trajecto recôndito, não tendo encontrado lugar dentro do transporte, acabou por ter de trepar para a elevada "imperial", onde seguia sozinho. Sozinho, não, pois dava-se a macabra situação de ter de compartilhar o tecto do semovente com um caixão de pinho, novinho em folha, que ia dirigido ao cangalheiro-da-povoação-no-fim-da linha. Salvo os inevitáveis solavancos, agravados pelas estradas da época, a viagem decorre muito bem, até que começa a chover - e com força. O bom do homem, para evitar o indesejado "banho" toma a iniciativa de abrir a tampa da "salgadeira" e de se enfiar lá dentro. E tão cómodo se sentiu, naquela improvisada concha que, se é que se não deixou literalmente dormir, pelo menos dormitou. O carro continuou o seu caminho, no seu para-e-arranca, no correspondente deixa-e-recebe passageiros e, inclusive, alguns destes vão ter de subir para o superior poleiro e de o compartilhar com o tapado sarcófago. Eis porém que, com um mais forte sacão, o nosso homem acorda e acha que é altura de prudentemente verificar se continua a chover. Levanta a tampa do caixão e deita um braço cá para fora. Nas versões que me contaram nos anos 60 (uma ouvida em Portugal, mas reportada à Galiza, e outra mesmo galega, mas ambas referindo facto então recente), os passageiros de arriba, ao verem aquele inesperado gesto de dentro de um caixão que pensavam vazio, mandaram-se do carro abaixo, mesmo em marcha, com graves consequências.

E não é que, abrindo o JN de 9 de Março de 1941, página 2, colunas 6 e 7, se me depara exactamente esta mesma história, salvo sem as graves consequências da versão dos anos '60, mas situando-a no outro extremo peninsular, i.e. na Catalunha! Estava catado, assim, o primeiro "cisne negro"...

(continua)

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[1] Sobre o cisne negro propriamente dito, vide o local
www.austmus.gov.au/factsheets/black_swan.htm
Neste portal mostra-se a imagem supra, retirada do album pioneiro de John Gould (1804-81)"The birds of Australia" [As aves da Austrália], datado de 1840-48.

[2]Aliás hoje foi um dia de coincidências raras: uma delas foi viajar no "metro" ao lado de uma personalização concreta de como uma amiga minha poderá vir a ser daqui a 20-25 anos. Tão impressionante este espontâneo e inesperado "photo-shop" que lhe telefonei a saber se algum parente próximo poderia estar a viajar naquela linha e àquela hora. Coisas de apurada morfogénese!


domingo, 17 de agosto de 2008

"Festa" (2005)


Obra do artista barreirense Luís Ferreira da Luz que, dia após dia,
(e não apenas nos dias da Festa do Barreiro) vejo com gosto, enquanto espero, ano após ano, que possa ver a festa que se segue. [1]


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[1] Não percam uma visita a http://www.artbarreiro.com/ A ver detalhadamente, nesse portal, o presente... e o passado.
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sábado, 16 de agosto de 2008

Eclipse parcial da Lua

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Hoje mesmo...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A festividade do Rosário, a Senhora do Rosário e e as festas do Barreiro

A Padroeira do Barreiro e
motivo das tradicionais (e deslocadas) festas

Se as festas do Barreiro se celebram em Agosto é porque se procura acompanhar a celebração litúrgica da "Senhora de Agosto" ou da Assunção da Virgem, data de generalizada comemoraçãoem todo o mundo cristão. Num sentido prático, esta localização no calendário garante (quase sempre) a realização em tempo bom e quente (por vezes demasiado quente), porém com a contrapartida da concorrência com uma profusão de outras festas e feiras agostinhas, marianas ou não, e, em tendência crescente, com a deserção dos devotos em gozo de férias, ainda que parcialmente compensada pelos transitórios regresso e presença de uma parte da considerável diáspora barreirense. Cabe notar que, em termos de solenidade, esta opção - tradicionalmente enriquecida com procissão e tudo o mais - induz uma antecipação importante: de facto, a solenidade do Rosário i.e. da Senhora do Rosário, outrora celebrada no primeiro domingo de Outubro, foi fixada pela reforma de Pio X para o dia 7 de Outubro - data que já foi tida muito em conta nesta cidade, quando ainda era vila, mas que grande parte dos barreirenses hoje ignora. Aliás, quem celebre o onomástico é aí que, rigorosamente, o deve situar.
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

As quatro patas da Europa


A Europa tem quatro patas: a Península Ibérica, a Peníncula Italiana, os Balcans e o Cáucaso. Se lhe falha uma, logo manca. Se lhe falham duas e do mesmo lado, logo arrasta.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O dragoeiro


O dragoeiro na obra de John Gerard "The Herbal", publicada em 1633

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

O "flecha de prata"

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Estava-se em 1940, a Dinamarca e a Noruega tinham sido ocupadas pela Alemanha, a França claudicava após a invasão através da Holanda e da Bélgica e, em Portugal,a Exposição do Mundo Português prosseguia serenamente, com as comemorações dos Centanários a engalanarem cidades, vilas e aldeias de "aquém e além-mar". Na assembleia geral anual da CP tinham sido anunciadas e todos esperavam as "carruagens metálicas", modernas, cómodas, prateadas, que guarneceriam o rápido "Lisboa-Porto", ganhando para este a designação de "expresso de prata", que logo se converteu em "flecha de prata". O JN de 5 de Agosto desse ano noticiava, na pag.2, a sua chegada ao Porto e anunciava a viagem inaugural que, com as "austeridades" do regime (houve quem adiasse férias e outras vilegiaturas para não perder a oportunidade), levaria e traria convidados a Lisboa, à referida Exposição.


Dias mais tarde, a 9 de AGosto, noticiava-se a viagem inaugural, atingindo a assombrosa duração de viagem de 4 horas 4, deslocando populações até junto da "linha do Norte" e deixabndo antever quão difícil seria reduzir esse tempo... que praticamente se manteve por aí até chegarem os famosos "foguetes" da FIAT para tentarem reduzir "um sensível bocadinho". Que o problema era mais da linha que dos comboios, dizia-se então. E era de ambos.


Com as vicissitudes de combustíveis determinada pela Guerra, as 4 horas da viagem inaugural começaram a ser excedidas. A travessia da ponte D.Maria, no Porto, e o vai-vem a Campanhã complicava as coisas e, perdido o rápido em S.Bento, era possível ir de taxi às Devezas (escrevia-se com "z") , Gaia, e agarrá-lo aí. Houve entusiastas do automobilismo que iam colocar os familiares no "rápido" para se lançarem na tenebrosa Estrada Nacional nº 1 daquele tempo, "arrancando paralelipípedos nas curvas", como então se dizia, para os irem receber em Lisboa - e constava ter havido mortes nesse tão estranho desafio.

As carruagens prateadas do "flecha de prata", uma vez substituídas e degradadas em função, deixaram de andar por aí. Hoje, na era dos "pendulares" e em discutida abertura para os TGV's, as próprias e similares sucessoras vão desaparecendo. Fica a memória... e as duas notícias citadas (clicando 2x sobre a imagem com o botão da esquerda obtem-se uma tranquilizante ampliação!).


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Apontamento fotográfico - 12 (da alimentação das osgas)

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... ou "esperando o encadeado insecto"!
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domingo, 10 de agosto de 2008

"Wish you were here..." ou "Jet Set Willy II"

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Com um grande abraço aos nostálgicos do Spectrum (que barulheira fazia "aquilo" a carregar enquanto se apresentava a gravura acima - isto quando carregava mesmo e não era preciso voltar ao princípio!), remetendo-vos a

http://video.google.com/videoplay?docid=132979557439256825

para, num passeio de 37 minutos, poderem visitar "salas" a que (muitos de vós) nunca terão chegado, ou a


para "daunloudarem", matarem saudades, fazerem mão e jogarem um bocadinho (e mostrarem aos "putos" como era naqueles tempos já remotos!!!)

Bom domingo!
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sábado, 9 de agosto de 2008

O verecundo colapso do "Zmail.pt" - 2

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O castor incompetente [1]

A 14 de Maio, constatando a situação verdadeiramente vergonhosa em que, sem qualquer aviso ou palavra, os assinantes do "service provider" z-mail.pt - eu incluído - tinham caído, publiquei uma postagem com este nome, denunciando a situação. Recebi doze mensagens de solidariedade, apoio e, algumas delas, intencionando o acompanhamento de qualquer acção. Outras, talvez por distracção, vinham como simples recados anónimos, que muito agradeço mas que também pouco poderiam ajudar em qualquer evolução próxima. O facto de só ter recebido 12 mensagens não me desanimou: trata-se, em primeiro lugar, de uma referência feita num blogue tipo "salada de frutas pessoal" em que abordo os temas em que me dá a gana, donde não ter um processo de maior amplificação; em segundo lugar, porque tendo acompanhado outras manifestações noutros foruns, sei que o conjunto de desiludidos clientes do zmail (zmailanos, diziam eles! recordam-se!) se tem manifestado, aqui e além, pelo progresso do assunto, recuperação de mail e ressarcimento não apenas das anuidades 2008 já pagas [2] mas também de prejuízos causados por esta verdadeira anormalidade de relação contratual. Há situações pessoais, profissionais, empresariais, académicas e legais em jogo, que foram e estão lesadas sem o mínimo de atenção. Porque fui subscritor do z-mail durante anos e entendo que tem de haver, no caso, um desenvolvimento concreto, e porque considero que ainda se não atingiu a eficácia externa necessária para denunciar o "malware" comportamental de quem assumiu as responsabilidades do zmail como um "service provider" pago, avanço seguidamente com uma notícia e duas linhas de propostas:

a) A notícia: um co-lesado zmailano fez-me chegar a notícia de estar aberta e a correr uma petição on-line, que eu imediatamente subscrevi, claro!, em
http://www.petitiononline.com/Zmail1/petition.html .
A petição está bem redigida, estabelece um historial de toda a questão, conclui por um pedido mais que modesto que revela a demasiadamente excelente fé (muito mais que boa-fé, tocando a generosidade) de quem a formulou e deve ser assinada pelo maior número possível de utentes ou interessados. Transcrevendo parte da informação recebida e a experiência de acesso verificada: "Não é para ser assinada unicamente pelos lesados (que mesmo assim serão muitos) mas por todos os que se sintam indignados com esta situação (quando se assina é-nos perguntado se somos parte lesada ou não)". Sem a pôr em causa (é muito melhor que nada e permite um recenseamento de "atingidos"), tenho algumas reservas quanto à eficácia desta medida quer por ser dirigida à entidade aí identificada como detentora do serviço (e que já vimos quão bem nos tratou) , quer pelo pedido minimalista que é feito (e que aquela não merece), quer pela deficiência de identificação dos peticionários - defeito comum destas petições on-line. A meu ver deveriam ser identificados pelo nome, morada, numero do BI e, no nosso caso, pelo endereço electrónico. Quanto a este último ponto, muitos indicaram-no, o que é positivo [ver 1ª Actualização]. Quanto à remessa da petição a outros destinos, para além da dita entidade, haverá que o discutir com os restantes peticionários e reclamantes (ver ponto c infra) - visto que a subscreveram dirigida a um destinatário (de questionável eficácia) e com um expresso (e modesto) pedido, salvo os que, desde já, nela se pronunciaram de outro modo.

b) Quanto a propostas, analisemos em primeiro lugar a "abertura da questão". Por muitas manifestações que tenha havido, incluindo esta, o processo permanece fechado e é pouco conhecido do exterior. Pegamos num jornal e vemos todas as maldades do dia: o que se passou com o Zmail não aparece (ou, se apareceu algures, eu não vi!). E merecia aparecer: não é apenas o Zmail que está em causa, mas sim as potenciais relações entre correspondentes electrónicos e "service providers". Num momento em que o País se esforça por estabelecer uma prática reiterada de comunicação electrónica, o comportamento aqui manifestado mina qualquer estrutura de confiança. Proponho por isso que saturemos, individualmente, as "cartas dos leitores" ou os "foruns" dos meios de comunicação social (MCS), maxime das revistas da especialidade, com a clara denúncia deste atropelo e do risco que contem. Nacionais e estrangeiras. E de todas as acções individualmente feitas haverá que centralizar informação, permitindo estabelecer um "dossier de capital de queixa" que fortaleça as diligências que se delibere tramitar, nomeadamente por via judicial ou outra. Nesse sentido vou coligir os endereços electrónicos constantes da petição [ver 1ª Actualização], dos comentários recebidos neste blogue e de quaiqsuer outras fontes a que tenha acesso e, sem "spam", enviar a todos esta a presente postagem.

c) Um outro comentário, visa a organização dos lesados. Sem impedimento das acções pessoais de denúncia, que podem existir e servem para demonstrar o carácter plural da lesão, há aqui a parábola dos vimes e do feixe de vimes. Haverá que, num prazo organizativo reduzido, estabelecer entre nós uma comunicação permanente e activa (e mesmo uma reunião de interessados) para, na base dos elementos já existentes e de outros que possam vir à colação, se estabelecerem futuras acções conjuntas. Estas passam a meu ver por
- decisão de prosseguir e da constituição singular ou plural de queixa;
- reconhecimento da entidade ou entidades a que deva ser feita denúncia deste comportamento;
- como recomendado na petição, acompanhar o assunto através do endereço:
mas também usá-lo para comunicar sobre o tema (exige registo em http://www.techzonept.com ) [quanto à notícia e reconhecimento de iniciativas já tomadas e à avaliação do contributo deste "forum" ver 2ª Actualização], sem impedimento de se poder debater a abertura de um "blogue" específico para o "caso do Zmail", onde possam ser centralizadas e guardadas - de forma mais pública e por via menos técnica, mas sempre guardando a essencial compostura - todas as acções e informações existentes para memória e uso futuro (o tal "dossier de capital de queixa") [3]
- imediata sensibilização dos MCS como acima referido na alínea b);
- estimativa ou listagem por cada um dos danos individuais verificados (i.e. danos imediatamente quantificáveis, tempo perdido, informações e processamentos realizados, correio retido ou perdido, etc);
- forma de prosseguimento, caso decidido: designação de representante legal, dimensão do pedido, participação nos encargos.

Tenho ainda a referir que fiz uma abordagem preliminar do assunto junto a um causídico, mas ainda a título meramente individual, muito prévio e sem qualquer compromisso. Estou pronto a participar em qualquer acção colectiva que sobre o assunto se debata e receba o meu acordo - sem impedimento das actuações pessoais que, entretanto, possa decidir lançar.

Saliento finalmente que, para qualquer das vias prováveis de seguimento, existem prazos para a eficácia das queixas, pelo que o assunto deve ser entendido como de acção relativamente urgente. Ou então alguém ficará a esfregar as mãos... E assim se farão as coisas, como diria Mestre Gil.
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1ª Actualização: A informação sugerida está prejudicada pelo facto da petição não fornecer os e-mails actuais dos peticionários e de estes terem indicado no texto (aliás como eu fiz) o endereço que tinham no z-mail e que, infelizmente, agora para nada serve a não ser para marcar os direitos que subsistam. A partir dos e-mails conhecidos (poucos) vou pedir, um a um, o estabelecimento de cadeias de informação que estes por sua vez pedirão aos subsequentes, etc, etc. (080809)

2ª Actualização: O estudo completo do assunto através do forum indicado do techzonept pode parecer desmotivante, na medida em que confirma como diversas acções aqui propostas foram já consideradas e ficaram em águas de bacalhau e em que aparecem outras sugestões de duvidosa perspectiva que ou ensaiam a desculpabilização do infractor ou que, por outras vias, podem beneficiá-lo (sendo previsível que ele "ande por ali" ou faça andar por ali ao encoberto dos "nicks"), o que é comum em situações de forum. Constitui no entanto um estudo de caso muito interessante o poder verificar-se como uma situação concreta de frustação e dano colectivo face a uma efectiva negligência (ou incompetência) ou mesmo mais que isso pode quase "passar" incólume na sociedade portuguesa actual. Procurar-se-á indagar se existem outros foruns e vias abertas de debate colectivo sobre o assunto e , caso existam, serão trazidas aqui ou como actualização ou como postagem própria, pelo que se apela a todas as informações no sentido de as localizar (080810).

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[1] Imagem com vénia a
http://transporter.blogs.friendster.com/photos/uncategorized/incomp_beav.jpg
[2] Dir-se-á que são de pequeno valor relativamente a outros prejuízos, mas só por si e pela ausência de uma manifestação qualquer por parte do "service provider", que conhece os pagantes, traduzem um comportamento censurável.
[3] procurarei lá colocar uma referência à petição e a esta postagem.


sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Definição química de um País



"Era uma terra em que uma solidariedade meramente electrovalente defrontava uma inveja acirradamente covalente. Nada mais..."


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Nota quase a despropósito do título da postagem: Esta reflexão e imagem ( de
http://orgprepdaily.files.wordpress.com/2007/06/smaci.jpg )
decorrem da leitura do interessante artigo publicado em
obtido por busca em "chemical bond". Quer este artigo, quer os comentários que suscitou podem constituir uma importante reflexão para quem ensine ou aprenda Química, particularmente no que se refere à "porta de entrada" na Química Orgânica que uma cortina de fumaça vinda dos tempos de Wohler e animada pelos anti-atomistas da viragem dos secs XIX/XX e a demasiada teorização "antes-de-tempo" que o Autor critica nos nossos dias ainda torna por vezes delicada. Pode-se discordar total ou parcialmente da tese exposta, mas nos comentários há de tudo como na botica. E a reflexão ajuda!
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Segunda nota: Aliás o blogue "org prep daily" que "milkshake" edita e assina:
é algo a não perder, no seu todo (incluindo necessariamente os seus "links"), para quem por Química se interesse. A pendurar nos favoritos! Amen!
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Terceira nota (esta mais ligada ao título):
Pessoa amiga e atenta telefonou-me logo a seguir à postagem: "Quanto à solidariedade, acho que exagerou! Assimilá-la a electrovalência é uma visão optimista: forças de Van-de-Waals quando muito... e já é pisar o demasiado!". Lol!
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Quarta e última nota (esta a despropósito de tudo, salvo do calendário): Para os escrevedores de datas em seis dígitos, hoje é um dia excepcional: 080808! De facto, só daqui a um século voltarei (?!) a poder escrever assim.
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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Alívio? O tanas!!!

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William-Adolphe-Bouguereau (1825-1905): "Sede"

Estamos num mundo tão mediaticamente produzido que o agitar de qualquer palha se recicla e repercute sucessivamente, perdendo a noção da escala inicial e, sempre que possível, ou dizendo mal (dos considerados responsáveis pelo mundo em que vivemos e que, no fundo, somos nós próprios), ou buscando anestesiar a realidade dos amanhãs que, de facto, já deixaram de cantar há muito tempo. É neste ultimo vector que se filia o suspiro de alívio que caiu sobre o mundo, media-dixit, pela queda (ou melhor, pela não-ascensão) dos preços do petróleo.

De facto nada de definitivo sucedeu, a menos de flutuações de um mercado flutuante e sensível em que existe um não-explicado mecanismo de especulação (como já houve com a prata, como já houve com o cobre, mas aí conheceram-se os "pingentes"), suficientemente hábil para procurar manter a "fidelização da crise" e para travar, com um ligeiro sinal de fumo, o entusiasmo súbito por todas as formas de energia não-fóssil que sempre sucede (para logo se esquecer) quando qualquer crise ou, melhor dizendo,quando qualquer chantagem do petróleo bate à porta.

Seremos parvos se, mais uma vez, desarmarmos naquilo que não é uma crise do petróleo mas é de facto uma crise da energia - tão real e efectiva como a anunciada por muitos autores de FC e fazedores de jogos electrónicos. Estamos num jogo "termodinamicamente viciado", há que ter isso em conta. E, se os produtores dizem que nada ganharam com a situação de "alta", se os refinadores vêm dizer que afinal tiveram lucros diminuídos ("poor little things!", uma lágrima por Petrónio e outra por mim!) quem, no mercado, se abotoou com a massa? Quem é, afinal, o "Joker" deste processo todo?

Uma das atitudes que não deve surgir (mas vai surgir, e haverá quem apareça a fazer para que surja) é não baixar as armas, na questão energética. Vê-la como uma situação fatal que tem de ser encarada, dentro do quadro murphyano que eu gosto de citar (porque enuncia o 3º princípio da termodinâmica de forma excelente) e que já aqui trouxe de que "as coisas e situações quando deixadas a si próprias tendem sempre a passar de mal para pior". Não se vá nos cantos de lorelei's maviosas, que acenam com descidas subtis após criarem aumentos brutais. A questão energética exige duas atitudes: primeiro = ser pessimista; segundo = sendo pessimista, encará-la de frente, sendo certo que vai custar, sendo certo que vai doer.

Quanto a uma reflexão pessimista, quase cataclísmica (mas não totalmente irrealista para quem aprendeu a levantar o debate do "worst case" a fim de o poder minimizar) sobre a crise energética e seus "fantasmas", ver o comentário de Nicolas van der Leek "The new oil order" em
http://english.ohmynews.com/articleview/article_view.asp?menu=c10400&no=382977&rel_no=1
de que existe uma tradução em Português em
http://www.resistir.info/peak_oil/new_oil_order_p.html .
Não sei mesmo se já referi aqui este artigo, apresentado num portal sul-coreano "OhmyNews" que vale a pena visitar para conhecer os pontos de vista, por vezes singulares, que se apresentam do outro lado do globo. Mas se me repeti, tanto melhor. O assunto merece mesmo insistência.
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