quinta-feira, 31 de maio de 2018

DESILUSÃO & PROTESTO

Não esperava voltar aqui tão cedo. Porém o tempo entra, traz notícias e logo deixa de estar, a oportunidade é o momento e a pressa que houve em fechar Maio em grande (e não só) trouxe consigo o que não deveria ser postergado. Pensei primeiro em mandar-lhes Neruda ("Ilusão perdida") mas Florbela dir-lhes-á mais alentejanamente o mesmo: que o entendam.

                         "Perdi meus fantásticos castelos 
                          Como névoa distante que se esfuma... 
                          Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
                          Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

                          Perdi minhas galeras entre os gelos 
                          Que se afundaram sobre um mar de bruma... 
                           - Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – 
                           Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! 

                           Perdi a minha taça, o meu anel, 
                           A minha cota de aço, o meu corcel, 
                           Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... 

                           Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... 
                           Sobre o meu coração pesam montanhas... 
                           Olho assombrada as minhas mãos vazias..."
                                                                                   
                                                                                  Florbela Espanca



terça-feira, 29 de maio de 2018

O 1º DE DEZEMBRO

Ainda não entendi (ou admito que não quis entender algumas hipóteses torcidas que me avançaram) por que razão o dia 1º de Dezembro era, nos tempos dos últimos monarcas, um dia comum, útil e laboral excepto quando calhava ao Domingo. Lamento pois que o Hino da Restauração (quem se lembra dele?) esteja hoje a ser apresentado como uma canção "talassa" quando os "talassas" nem feriado ou celebração especial faziam naquela data em que até o Diário Oficial saía normalmente!!! 
E esta?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

PATRIMONIO INDUSTRIAL COMO GERADOR DE CONHECIMENTO



PATRIMÓNIO INDUSTRIAL COMO GERADOR DE CONHECIMENTO
Intervenção convidada proferida na celebração do Dia dos Museus (18 de Maio de 2018) no Museu Industrial da “Baía do Tejo”, no Barreiro.
As duas décadas de 70 a 90 marcaram uma forte alteração do modelo industrial. Isto não sucedeu apenas no Barreiro. Alteraram-se matérias primas, modificaram-se escalas, encurtou-se o Mundo, exportaram-se locais de produção. A força avassaladora da economia, vestida ou não de globalização, fez-se sentir em setores do conhecimento até então quase imunes à sua penetração percutora e pensou-se mesmo que, a breve trecho, se poderia dar resposta à questão inquietante formulada por Marcuse nos anos 60:  produtividade para quê?
Nesta mudança de campo, de escala e de afinação há que reconhecer ter surgido um certo desamor às  tecnologias ou, pelo menos, às tecnologias que tinham até aqui conduzido o mundo industrial. Ouve-se hoje, com frequência, dizer que  “as tecnologias compram-se”  e que  é a partir dos produtos básicos dessas tecnologias que se deve construir um mundo tecnológico novo, mais sofisticado, mais exigente, menos descritivo da realidade fabril primária. A ciência prossegue e a tecnologia , que  dela decorre, vem-lhe imediatamente na peugada, permanecendo  no mesmo pelotão da frente, transpondo para o carro-vassoura os velhos “kombinat”, os velhos centros industriais, que só se mantém operacionais onde a Economia ainda não os condena. E só não digo “a Economia e o Ambiente” porque tendências recentes e controversas mostram como  a Economia pode reduzir  a motivação ambiental,num mecanismo retrógrado.
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Houve mudanças nas próprias profissões. O envolvimento humano foi sendo dispensado e a atenção das  populações foi sendo desviada da produção para o consumo e do trabalho para o emprego. Aliás havia já profissões que recebiam mais atenção mediática que outras – e nesse aspeto as que se ligam à prática do engenho  ou seja ao domínio do tecnológico foram certamente as mais depreciadas e substituídas. Mas o ritmo atual também encurtou tempos de aprendizagem, e Bolonha que o diga e o mostre.  Um engenheiro hoje passa muito mais brevemente pela escola, pela  fábrica ou pela  oficina porque, se é astuto, depressa abandona o que de engenharia aprendeu para ingressar na gestão e nas questões mormente económicas e sociais que na gestão encontra. São os “billions and billions” para impressionar o pagode. E, mais uma vez, quando necessitar da tecnologia… compra-a. Várias situações curiosas já sucederam por esta transposição de desempenhos. São, por agora, meros avisos.
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Para encerrar esta reflexão algo amarga direi que num recente encontro de académicos sobre  um tema aparentemente diferente – a História – se apontaram três alvos  imediatos: património, turismo e paisagem. A  referência a património não primava pela  relação deste com o conhecimento. Era, por exemplo, montar uma cervejaria numa fábrica de cerveja, sem necessidade de explicar o processo, ou trazer um restaurante requintado a uma sacristia conventual, fazendo assim convergir o turismo e manter a paisagem no que de apreciável pudesse completar o cenário. Mas a fórmula pode ter uma utilidade efetiva, como veremos adiante.
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Onde reter, manter, mostrar e sustentar o património? A reação dos diversos centros em que a desindustrialização se verificou foi diferente, de caso para caso, e com diferentes consequências – desde o modelo “a fábrica nunca existiu” que foi um pouco o que aqui sucedeu (ou se pretendeu que sucedesse) até ao aproveitamento bem realizado e mostrado que visitei algures e  me dizem ter sido também conseguido noutros locais. Mas, em qualquer realização, a  preservação desse património, material e imaterial, passa por algumas realidades que deveriam ter sido visitadas e estudadas. Destaco
a organização e não a improvisada sobrevivência,
a manutenção e sustentabilidade,
e o conhecimento trazido  do passado, vivido no presente e,como potencial, apontado para o futuro.
Digo isto assim porque considero que  museus e arquivos de carácter técnico, enquanto se permite que vivam, têm sempre uma VIDA INFLUENTE  relativamente limitada no tempo. Essa  vida influente, no caso de um museu industrial, diversa do de outros museus em que se preza a transtemporalidade da Arte, mede-se pelo tempo em que se mantem, entre os seus visitantes, mormente locais, uma maioria relativa de visitantes inéditos. No caso de um arquivo essa VIDA INFLUENTE  resulta da capacidade de nele encontrar temáticas narráveis e histórias exemplares e de a ele  saber trazer quem as trabalhe para partilha e divulgação. O que nuns se mede pelas IMPRESSÃO CAUSADA E PELO CONHECIMENTO TRANSMITIDO  noutros pode medir-se pela PRODUÇÃO REALIZADA.   O museu de conteúdo técnico não é paisagem  facilmente renovável nem se mantém apetecível  ao fim de diversas visitas. Cansa e cansa-se. Mas o pormenor justificativo  e o conhecimento que dele se pode tirar resulta certamente mais válido quando ampliado por renovadas audiências.   Mas cabe perguntar: AUMENTADO E RENOVADO COMO?  E a que custo? Só o poderá ser por processos de inserção local, regional e temática e pela partilha de identicos problemas dentro de um processo de uma formação cultural integrada.
A geração do conhecimento resultará  da convergência de TODOS  a quem “aquilo” diga algo de específico e valorizável (com o “aquilo” entre aspas não depreciativas e o TODOS em maiúsculas porque deverão ser mesmo TODOS, sem torres de marfim ). Se se desenvolveu aqui ou ali tecnologia valiosa que os “clientes” desses locais de conhecimento se sintam de qualquer forma enriquecidos com a informação a isso dedicada, que mantenham permanente acesa uma motivação pela instituição respetiva, que a saibam renovada e renovável e assim o afirmem e para a sua divulgação contribuam. Realizem-se encontros, debates, conferências o que quer que seja que afaste o repetido mostrar das mesmas peças e o contar das mesmas histórias, que afaste as rotinas chatas e que desafie e traga  possíveis interessados externos que permitam uma renovação  em rede de audiências e narrativas.  Existem em  vários concelhos do País exibições  temáticas que foram feitas e em seguida guardadas e esquecidas mas  que podem ser trazidas por intercâmbio temporário – mas muitas vezes ignoramos ou até desprezamos o  que o nosso equipoder possar trazer-nos. E que guardemos e ouçamos narrativas de vidas enquanto existir quem as possa narrar.[1][i]
Acentue-se o interdisciplinar. Agarre-se não apenas História, mas a explicação das coisas  em todos os seus planos e formas, as realidades presentes e as portas abertas para o futuro. Não se omita o social. Criem-se ou participe-se nos Amigos disto ou daquilo, constituam-se  comissões, ou núcleos  escolares ou industriais ou de animação coletiva local  representando círculos centrados no local de atração. Foram concursos e competições que, no são princípio das chamadas “sociedades de emulação” do sec XIX,  estiveram na origem de indiscutíveis avanços no conhecimento. O exemplo da formação dos príncipes do iluminismo que procurava que cada um tivesse um ofício – D.José, por exemplo, era marceneiro - trazia consigo alguma sabedoria.
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E coloque-se assim o Barreiro nas diversas rotas possíveis de por aqui passarem, de realizarem aqui a tal combinação atualista de  património, turismo e paisagem. A exposição sobre a muleta – que hoje vai ser  motivo de um importante encontro aqui ao lado e que, ironicamente, vive mais na heraldica municipal do Seixal que na do Barreiro – pode constituir  elemento permanente e “exportável” para um itinerário de barcos ribeirinhos ibéricos.  E se esse itinerário não está organizado, organize-se. Ou traga-se a pirite a um itinerário turístico-mineiro-social  que defenda que o conhecimento dum minério complexo como esse não deve ficar apenas na extração mas também na transformação, criando  o duplo MM de sucesso, mineiro e metalúrgico, de que parece termos receios que outros souberam  aproveitar por não terem receios alguns  Direi, por conhecimento de causa e exemplo de inação, que – neste ponto, em que temos razões originais e até  mundialmente únicas – continuamos a “andar parados” e, embora praticamente aceites na comunidade mineira em podermos participar numa rota turística existente e operante acompanhando Aljustrel e outras minas do Alentejo, arriscamo-nos a perder os créditos conseguidos.  Esperamos o quê? Que nos levem ao colo?
Surge aqui um apelo: pela dedicação ao local de trabalho, que é uma realidade constatável, há documentos, livros de fábrica, apontamentos e outra memorabilia que constituem patrimónios pessoais mas que, passadas gerações, podem cair em perdição final como os papeis que eram do  avozinho e  que estão por ali abandonados. Se é certo que não há coisa mais perdida que uma coisa bem guardada, caso se encontrem tais  memórias que elas sejam trazidas aqui para que aqui sejam valorizadas e  guardadas.  
Finalmente: um centro descritivo do que fomos e somos  tem de falar verdade. Conhecimento é verdade adquirida e trabalhável.  Pelo cuidado de dois responsáveis pela formação textil, e por quem manteve e musealizou o conjunto,  que todos merecem a nossa gratidão, foi preservado o equipamento textil que é mostrado neste museu industrial. Mas o resto? Onde está a realidade químico-adubeira que trouxe para o Barreiro os texteis de fibra dura porque precisava de ensacar o adubo aqui fabricado? Ou a química e a família química que também habitava nas páginas da fábrica mas que delas parece ter sido excluída? Ou o chumbo e o velho laminador de 1906 “desaparecido em combate”, no seu desigual combate com o tempo?
O que de patrimonial existe é, já por si,  necessariamente gerador sustentável de conhecimento. Pelo que fomos, pelo que somos e pelo que serão os que vierem a seguir há que lhe dar persistência e continuidade. Há que estudar e manter vivo o conhecimento de que é fonte e a ele subjaz.  Sem isso restar-nos-á transportar para aqui  a reflexão  melancólica de um Cesare Pavese sobre uma fonte para verificarmos  que uma tão simples frase como “aqui houve  uma fábrica” nos poderá- mas só por alguns anos -  ainda comover.

Barreiro, 18 Maio 2018
jmls


[1] Somos a “civilização do écran” e, de tão continuadamente  nos falarem e preencherem a nossa crescente solidão, os ‘ecrans”  desaprendem-nos até de conversar com o vizinho.


[i]

sexta-feira, 11 de maio de 2018

UMA OBRA QUE DEVERÁ CONSTAR DA BIBLIOGRAFIA DA 2ª CORRIDA AO VOLFRÂMIO


Recordo-me de ter visto esta obra enchendo a montra da Latina, do lado de Santo Ildefonso, quando foi lançada, no fim de 1945 ou início de 1946 (saudades ao Senhor Alberto!!!). Dentro da linha da narrativa neorealista não receberia certamente as bençãos do regime, então ferido de asa e ocupado a breve trecho em ocultar os 2 frescos do Cinema "Batalha", por "contrários à ideologia do Estado Novo" (???)e o único de Abel Salazar, no Café Rialto (por "representar os ventos que sopram de Leste", como eu então ainda ouvi e gravei na memória fresca dos meus 8 ou 9 anos... O engraçado é que eu não percebi aquela da ideologia mas entendi e calei aquelaqueloutra dos "ventos". Alguém terá uma reprodução daquele fresco do "Rialto"? Gostava de o rever.